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terça-feira, 11 de julho de 2017

Navegar é preciso viver - 5ª ancoragem: Campos de Jordão e a música que se abraça à metafísica

Olá!


Chegava-se próximo do feriado prolongado do Dia do Trabalho. Como se sabe, cidades turísticas costumam encher até a tampa nesses momentos, e, dado o frio repentino e inesperado destes dias, seu maior atrativo, ir a Campos do Jordão talvez não fosse uma boa ideia. Mas não há como ir ao sul da Mantiqueira e deixar de passar por lá. Portanto, eu e a patroa convencionamos a sexta-feira como dia bem adequado para subir ao ponto mais alto da serra (e de todo o estado de São Paulo também), com a intenção de não voltar tão tarde, e pegar um fondue no retorno a Santo Antonio do Pinhal. Acontece que a vida tem dessas coisas, e tivemos um bom motivo para ficar até tarde na cidade, como veremos daqui a pouco.


Campos do Jordão é bem maior que todas as cidades circunstantes, e, como tal, possui suas vantagens e mazelas. No primeiro tópico, é preciso dizer que quase tudo naquele lugar é muito bonito, sendo que o próprio portal de entrada já é considerado, por si só, um atrativo turístico.


Mas é um lugar serrano, como eu já falei, e a neblina é algo que fica gravado no subconsciente quando se vai para lá. Mais que isso, pegamos um dia de nevoeiro espesso desde cedo, e muitas das fotos que ornarão este texto estarão devidamente preenchidas por estas partículas de água disseminadas no ar, como no valezinho abaixo. Outrossim, o mesmo fenômeno ocorrido em São Bento do Sapucaí e Sapucaí-mirim se deu por aqui: tudo o que possuísse mais de cinco metros de altura estava invisível. Com isso, teleférico do Morro do Elefante e Pedra do Baú estavam riscados do meu mapa turístico particular.


A arquitetura de Campos do Jordão é bem conhecida: influência europeia. Mas, ao contrário dos sobradinhos portugueses da Vila Maria e das casas operárias italianas da Mooca, o que temos aqui são as construções de tipo enxaimel, típicas da Alemanha, Suíça, Áustria, Bélgica e outros países do norte da Europa. São caras prá burro, mas lindas de morrer.


Fomos dar umas bandas pelo bairro do Capivari, especialmente festivo naquele dia, em vista da festa do Pinhão (que também ocorria na vizinha Santo Antonio do Pinhal). O aspecto das pessoas encapuzadas dava a dimensão da temperatura de então.


Imaginávamos que, caso quiséssemos comprar algum tipo de roupa, teríamos os olhos furados, mas não. Sim, isso era perfeitamente possível, mas com um pouco de paciência foi possível escavar roupas de lã com um preço nem tão para Deus, nem tão para o diabo.


Ao cair da noite, todos os restaurantes de Capivari acendem seus réchauds; tanto os pequenos, para derreter os fondues, quanto os grandes, para manter nossos enrijecidos cadáveres razoavelmente aquecidos. Além dos já mencionados queijos, há também algumas churrascarias e outros típicos da culinária alemã.


Na região do Alto da Boa Vista, visitamos o Palácio Boa Vista, residência de inverno do governador de São Paulo. Foi construído e inaugurado por Ademar de Barros, que, muito antes de Paulo Maluf, já carregava o pouco honorável epíteto de “rouba mas faz”. Óbvio que nosso ex-governante o fez para uso próprio, a toque de caixa, sob o esfarrapo de que se tratava de um lugar digno para um cargo digno, e que a casa não era para ele, mas para todos os governadores em exercício. Bem... a parte disso, a casa é realmente muito bonita, repleta de obras de arte, só que é proibido fotografar seu interior, por alegadas questões de segurança.


Na sequência, fomos ao Museu Felícia Leirner, no mesmo espaço físico onde fica o auditório Cláudio Santoro, aquele do célebre Festival de Inverno. O lugar fica situado em um morro de onde se pode avistar com privilégio a Pedra do Baú, desde que não haja tanta neblina.


Felícia Leirner, como explicou o guia do espaço, foi uma escultora polonesa radicada no Brasil, casada com um industrial da área têxtil. Após a morte do marido, passou a se dedicar à arte da escultura, utilizando os mais diferentes suportes e passando por vários estilos, que constituíram fases em sua carreira, refletidas na divisão a céu aberto das alas do museu.


Foi aqui que ocorreu um fato que mudou a rota do meu rolê. O mesmo guia que nos atendeu informou que haveria uma apresentação GRATUITA da Orquestra Jazz Sinfônica naquela noite no auditório. Será que eu me interessaria?


Só que faltavam muitas horas para o concerto, e o jeito foi continuar fazendo visitas a outros locais. Como já havia vindo aqui quando criança, busquei pela memória minhas passagens, e a que estava mais presente era a Ducha de Prata, onde há muitas lojas e uma corredeira um tanto artificializada, além de uma pequena trilha que leva a uma paisagem com menos interferências.


Apesar de ainda ser sexta-feira, a cidade já estava bastante movimentada, como podia ser observado na Vila Abernéssia, no centro. Passamos meio que voando pela igreja matriz, dedicada a Santa Terezinha...


... e pela praça do chafariz, onde, nas proximidades, encostamo-nos para almoçar.


Logo após, fomos à Casa da Xilogravura, um museu particular dedicado a ensinar aos leigos o nobre ofício da impressão. É instalada em uma grande residência do bairro Jaguaribe.


O espaço é simbolizado por um cachorro, como pode ser visto na pedra talhada na entrada do museu.


Qual seu sentido? É que havia um cão, chamado de Chiquinho, que vivia pelas redondezas, virando uma espécie de mascote da casa. Quando morreu, seu corpo foi enterrado no quintal. A pedra é, portanto, uma lápide. Está tudo bem explicado em um memorial do museu.


Xilogravura, para quem não sabe, é uma técnica em que o artista entalha imagens em madeira para embebê-la em tinta e reproduzi-las em papel ou outro suporte, de maneira idêntica a um desses carimbos de repartição pública. É sobejamente utilizada em literatura de cordel, porque é barata e permite a reprodução de várias cópias, mas a técnica também pode ser utilizada para produzir obras de grande tamanho, como várias das que estão expostas.


Tivemos a oportunidade de conhecer o dono do espaço, o escritor e pesquisador Antonio Fernando Costella, que já legou o museu à USP após sua morte. Estava cuidando do transporte de mais uma obra com sua esposa, por isso não quisemos tomar muito do seu tempo.


Bem ao lado da Casa da Xilogravura, fica situada mais uma igreja, essa dedicada a Nossa Senhora da Saúde, bem mais sóbria que a matriz.


Com a proximidade da noite, tratamos de nos achegar novamente ao auditório Cláudio Santoro, desta vez para assistir ao concerto programado. No foyer, ao invés de um mero café, optamos pelas clássicas sopas locais. No caso, de abóbora.


Já na sala de concertos, como pede a voz da mocinha, nenhum uso de celular após os toques da campainha de Moliére, para respeito à nobre arte da música. Um último flash só para registro, já sabendo que versaria sobre este tema no presente texto.


Devo confessar uma completa emoção já nos primeiros acordes da orquestra regida pelo maestro Fábio Prado, que tem como propósito trazer para o formato sinfonia os clássicos da MPB. Não há como comparar a audição de uma orquestra ao vivo com uma gravação. É a mesma diferença de assistir um jogo de futebol no estádio ou na televisão de sua casa.

Não quero usar aqui a expressão “música de verdade”, porque não é meu direito arbitrar o que é arte e o que não é (vide este texto), mas é somente em uma sala de concertos que podemos notar certas características musicais, como a tridimensionalidade sonora, algo impossível com os paredões acústicos dos grandes shows, com o espaço limitado dos barzinhos ou com os individualistas fones de ouvido. Do primeiro, é possível explorar a potência sonora; do segundo o intimismo e, do terceiro, o isolamento. Mas só no auditório temos a percepção das diferentes profundidades que o som musical pode obter. Uma orquestra é distribuída de modo às diferentes intensidades instrumentais fazerem parte do tecido sonoro, nada está lá por acaso. Percebemos, por exemplo, os sons da tuba vindos de uma direção, os dos timbales vindos de outra, e a tapeçaria de violinos guarnecendo todas as partes, como se fosse possível tocá-los. Isso não é possível de obter em estruturas cuja emissão de som seja concêntrica. E é impressionante como isso faz toda a diferença, inclusive na dramaticidade das peças.

Por isso, não é só uma questão de ser música clássica (até mesmo porque, aqui, temos uma adaptação advinda do popular). É um fato que precisa ser presencial para ser percebido. Outra coisa: somente ao vivo conseguimos ter uma dimensão mais exata da importância de um maestro. A regência é imperceptível no som gravado, e subestimável quando vista pela TV, dando aparência de uma tradição ou dogma, e não de um papel realmente vital. Já no próprio auditório, consegue-se entender sua função quase pastoral, de conduzir seu rebanho musical de forma a ditar-lhe o ritmo, a elevar-lhe a intensidade, a conferir-lhe uniformidade, a destacar-lhe o detalhe. Assistir a um concerto é uma experiência única e necessária.

Mas é preciso tentar entender porque as artes, e a música em especial, exercem em nós tanto fascínio. A música, notadamente a instrumental, não pode nos parecer vazia de sentido? Por que dizemos que uma melodia é triste, heroica, irrompedora, cômica, se ela não diz nada e se nos momentos em que ocorrem fatos tristes, heroicos, irrompedores ou cômicos não há nenhuma música em seu substrato? Vamos tentar entender com Schopenhauer, meu filósofo favorito, mas passando primeiro por Kant.

Racionalistas e empiristas viviam às turras desde os fins da Idade Média. Os primeiros diziam que todo o conhecimento partia do intelecto, enquanto os outros achavam que nascia da observação. Kant resolve a charada, dizendo que os racionalistas tinham razão no que diz respeito à estrutura da mente, que tem a capacidade para receber e processar informações, e que os empiristas estavam corretos ao afirmar que a mente não é nada sem conteúdos. Desta forma, o processamento é racional, e o dado é empírico. No entanto, Kant não deixa de dar uma certa primazia ao processo empírico, porque o homem não é capaz de observar a coisa-em-si, o objeto essencial, o noumeno. O que é possível observar é o particular, o acidental, um exemplar existente, o fenômeno. E por que?

Porque todos os homens são, antes de mais nada, indivíduos. E, como tal, possuem uma perspectiva única sobre as coisas, o que não se resume a uma questão de opinião, como pode parecer. Temos todo um ambiente que influencia nossa formação, fornecendo usos e costumes, temos contingências fisiológicas que podem modificar o modo como apreendemos os objetos, e temos um modo particularíssimo de exercer nossa percepção que é simplesmente impossível de ser constatado pelas demais pessoas. Para entender melhor, imagine o que é a percepção das cores. Pense como eu, você, seu vizinho e todas as pessoas do mundo enxergam a cor azul. Será que todos a vemos igual? É perfeitamente possível que aquilo que é azul para mim, é verde para você. Não se trata de um tipo de daltonismo, onde há um erro na percepção de certas cores. Se absolutamente tudo o que é azul para mim for verde para você, então estaremos de acordo que o objeto é azul e pronto, acabou. Mas qual seria a cor-em-si da coisa-em-si? O meu azul ou o seu azul (que para mim é verde, apesar de não notar)? Percebem como é impossível alcançar o noumeno?

A inovação de Arthur Schopenhauer é a seguinte: sendo um materialista convicto, remove qualquer componente idealista da equação imaginada por Kant. Na sua dimensão ontológica, o mundo é regido pela vontade. Já discuti essa questão neste texto, mas é necessário que me aprofunde um pouco mais para as coisas ficarem claras. A vontade, na concepção schopenhaueriana, é a verdadeira essência do mundo. Trata-se de uma força disforme, incontrolável e que não tem outro objetivo a não ser continuar a existir. Não precisamos perder tempo para tentar imaginar como é a vontade, ela é simplesmente inatingível. É dela que partem todos os desejos e impulsos, por mais ilógicos que sejam, já que na sua dimensão não há causalidade necessária, não há tempo transcorrido e não há espaço preenchido, coisas características dos fenômenos.

Como a vontade se manifesta, se ela é cega e informe? Na forma de representação. Todas as vezes que a vontade nos guia para um desejo, ela passa a ser representada pelo mesmo, de acordo com a circunstância fenomênica. Se tenho fome, a vontade toma a representação de uma picanha. Após ser devorada, outra vez a vontade buscará uma representação, agora na forma de rede para dormir; ao acordar, mais uma vez a vontade será representada por outra coisa, e outra, e outra, e outra... A vontade é um ciclo infinito de representações, que se repetirão insaciavelmente até a morte. Captaram que o noumeno e o fenômeno de Kant são a vontade e a representação de Schopenhauer? A novidade está na dinâmica deste último, que coloca materialidade à ontologia do noumeno e à tangibilidade do fenômeno.

Acontece que tudo isso é agonizante. O desejo infinito impulsionado pela vontade não dá descanso para um ser humano, e, passados anos e mais anos de frustrações causadas pela não satisfação dos anseios desta vontade ou pelo tédio de sua concreção, o que resta é a angústia e uma sensação de impotência e irrealização. Como sair desse círculo vicioso? Schopenhauer dá dois caminhos.

O primeiro é a ascese. Schopenhauer era um estudioso de doutrinas orientais, especialmente do Budismo. A prática contemplativa dos monges, para quem é mais desejável um descolamento do mundo do que o enlace vigoroso aos bens e às vaidades, é um modelo a ser seguido. Para resistir aos imperativos da vontade, é preciso voltar as costas às suas representações. É um processo que requer um costume, doloroso a princípio, dada a intensa sensação de perda, mas que aos poucos se solidifica, na forma de indiferença.

A outra chave é a contemplação estética, atingindo seu apogeu com a música. Schopenhauer entende que as artes possuem o condão de fugir do grilhão da vontade justamente por não se focar em causalidade ou temporalidade, necessárias para formar a representação. A experiência estética é uma maneira de fazer uma intuição direta dos sedimentos que ficam por trás do mundo experienciável, sem passar pelo crivo da individuação. De fato, se notarmos que a apreciação da obra de arte tem o viés de escapar do fenômeno que é apresentado diante do apreciador, poderemos perceber o alto nível de abstração que temos como atingir. E a primazia da música vem justamente disso: enquanto manifestações como a arquitetura, a escultura, a pintura, o teatro e a literatura lançam mão de objetos concretos para suportar seu sentido subjetivo, a música prescinde disso. Seu único ponto de concretude é o som, e nada mais. A música consegue transcender a razão, dispensando a formação de conceitos que, em tese, desvirtuariam o acesso direto à vontade, transformando-a novamente em representação. É como eu já falei mais acima – sem adicionar nenhum tipo de ideia ou linguagem, a música consegue trazer expressão aos mais diversos sentimentos, sem que consigamos explicar o porquê. Justamente porque sintoniza a vontade sem a atenuação da lógica, do sentido, da razão. A música plasma a própria vontade.

Desta forma, enquanto a ascese é uma solução que volta as costas para a vontade, a música a encara nos olhos, mesmo que não seja um fármaco permanente para o problema do sofrimento causado pela sua eterna pulsão. O absurdo da existência, portanto, é atenuado por essa panaceia, e não extinto.

Percebam como Schopenhauer precede um monte de gente. Os existencialistas lhe são tributários pela expressão da angústia. Nietzsche importa e concorda com a vontade nas camadas inferiores da consciência (ainda que mais tarde passe a discordar de sua posição), e Freud traz dele o conceito de inconsciente que rege as ações e desejos. É pouco?

Incluam uma audição em sala de concertos naqueles projetos para fazer antes de morrer, nem que seja para discordar verticalmente de mim. E, se possível, aproveitem para aquecer o estômago e o coração na fria região da Mantiqueira.

Recomendação de leitura:

Já recomendei anteriormente o capolavoro de Schopenhauer, por isso recomendarei outra obra, na verdade um extrato de seu imenso livro Parerga e Paralipomena, em que são reproduzidas suas aulas na Universidade de Berlim relacionadas à arte.

SCHOPENHAUER, Arthur. A Metafísica do Belo. São Paulo: Unesp, 2003.

segunda-feira, 3 de julho de 2017

Navegar é preciso viver - 4ª ancoragem: Sapucaí-Mirim e alguns conceitos de Arquitetura (que não conheço bem)

Olá!


Como disse no meu texto anterior, pegamos uma virada de tempo imprópria no dia em que cismamos de ir à São Bento do Sapucaí. Óbvio que isso reduziu em muito as possibilidades de rolê que tínhamos em mente. O mesmo continuou a acontecer quando fomos à cidade de Sapucaí-Mirim, dentro das dependências do estado de Minas Gerais.


É curioso o que acontece para acessar essa localidade. Saindo de Santo Antonio do Pinhal, chega-se à divisa com MG, entrando neste estado por Sapucaí-mirim. Rumando por esse mesmíssimo caminho, sem fazer um único desvio, volta-se ao estado de São Paulo, agora em São Bento do Sapucaí. Ou seja, a cidade é um enclave entre duas cidades paulistas, sem pertencer ao estado. Coisas de nossa geografia.

Nosso intuito era procurar dois locais específicos, enfiados no mato. A Pedra do Jair, um maciço rochoso que propicia um belo mirante, e a Pedra do Pião, uma estranha formação de duas rochas, uma sobre a outra, sem nenhum tipo de sustentáculo, com uma cachoeira próxima. Mas a visão que tínhamos é a que mostro abaixo, o que faria da empreitada um desperdício.


Sem tanta coisa para fazer, fomos tratar de nos alimentar com as trutas clássicas na região, além de um bom chopp. Não sei se é produzido na região, o que faz subentender o nome impresso no caneco. É de razoável para bom, ou seja, quebrou bem o nosso galho.


Sapucaí, aliás, é o nome do rio que cruza a cidade. Em bom indígena, significa “água de sapucaia”. Não explica tanta coisa assim, né? Pois é. Mas a tal da sapucaia é uma árvore típica de região, que produz uma grande castanha. O nome significa algo como “fruto que abre os olhos”. Este rio corta a cidade em dois, vindo da serra próxima. Na altura da área urbana, há alguns despejos que me preocupam.


Por outro lado, as margens estavam repletas de flores que têm o tamanho e a cor de girassóis, mas o formato de margaridas, muito bonitas. Se alguém pude me informar o nome das ditas cujas, agradecerei profundamente.


A clássica praça do coreto é bem convidativa, mas estava ensopada a ponto de não sobrar nem para um sorvete.


Neste caso, o melhor a fazer é dar um pulo nas estradinhas para encontrar algumas curiosidades menos aventureiras. E não se perde tempo com isso: estamos em Minas, terra da comida em abundância e da bebida danada. Um caso clássico é uma espécie de broa assada dentro de uma folha de caeté. Para quem não conhece, parece uma bananeira que não dá banana, mas uma outra espécie de penca multicolorida, com o feio nome de Helicônia. Aliás, são parentes. O acepipe é uma delícia, e é chamado de pau-a-pique.


Nosso imaginário ligado à culinária mineira sempre nos faz pensar não somente no leite e nos porcos, mas também nos legumes e outros vegetais. A abóbora abaixo a gente costumava chamar de “menina”, ou, como dizem por estes lados, “de pescoço”.


A profusão de doces de frutas e de leite está espalhada nas prateleiras e nas mesas. Diabético não tem vez nessas plagas.


Um detalhe não remunerado na mão da patroa: doce de jaca. Não chega a ser uma raridade nas cidades grandes, mas não é fácil de achar. No petisqueiro para experimentar, este foi o meu pior pecado glicêmico.


Outra coisa comum são as conservas, inclusive (e principalmente) as pimentas. Não é, definitivamente, um lugar para os fracos...


... o que mais uma vez é comprovado no espaço destinado às cachaças, que também não podiam faltar. Como se sabe, o sul de Minas é uma região bastante rica em alambiques.


Faltou falar da igrejona, né? Deixei para o final porque ela provocará o tema central deste texto. A igreja de Sant’Ana, dedicada à senhora genitora de Santa Maria, a mãe de Jesus Cristo, é o centro visível ao longe da área urbana de Sapucaí-mirim, cujo adro é composto por uma praça, e o fundo por outra.


É uma igreja simples, de estilo arquitetônico austero, que possui um conjunto que me chamou bastante atenção: as três Marias que choram aos pés do Cristo morto na cruz.


Talvez à distância as peças não chamem mais a atenção do que tantas outras que vemos por aí, mas a riqueza de detalhes me causou um interesse, não pela sua complexidade, mas pela precisão. Observem, por exemplo, o realismo nos pés das santas (admito a péssima qualidade da foto).


E o crucifixo acima das três Marias é esse. Olhado por este ângulo, que faz confundir se está em posição vertical ou horizontal, causa uma impressão incômoda de correspondência com a realidade.


São coisas da arquitetura, a mais dúbia das artes. Digo isso porque, desde jovem, tive dificuldade em encaixar o conceito de arte à praticidade da arquitetura. Lembro uma vez que, em uma aula de Educação Artística, falávamos sobre o tema “belas-artes”, termo consagrado à arte como expressão da beleza, sem se preocupar com qualquer outro propósito. No meio da enumeração, lá estava a tal da arquitetura, que, ao que me parece, trata de espaços habitáveis. Por si só, isso já denota outro objetivo que não é meramente estético. Alguém levantou o questionamento, que a professora Lúcia reputou como dúvida sua também.

Aliás, essa história de catalogar o que é arte e o que não é vem imbuída daquela velha sanha arbitrária que nós, humanos, costumamos aplicar a tudo. Já escrevi sobre a questão da arte útil neste texto, e não vou ficar discutindo-a novamente. Aqui, no caso, a briga é mais profunda, porque é fácil confundir arquitetura com engenharia.

Uma antiga anedota diz que os arquitetos odeiam os engenheiros, reputando-os por “insensíveis”. Já os engenheiros detestam os arquitetos, considerando-os “afrescalhados”. E os pedreiros, aqueles que literalmente metem a mão na massa, não gostam dos dois, porque enquanto brigam, o concreto seca.

É que a principal distinção entre ambos está no seguinte: enquanto o arquiteto está preocupado em “o que fazer”, o engenheiro se ocupa em “como fazer”. Há uma precedência da arquitetura, por conseguinte. Se o engenheiro projetar uma obra sem seguir os ditames de um profissional da arquitetura, estará ele mesmo sendo o arquiteto, mesmo que não volte sua consciência para tanto. Temos então, que a arquitetura pensa o edifício em seu aspecto artístico, e a engenharia em seu aspecto estrutural.

Ora, bem... deixemos as discussões para lá e partamos para as definições. A arquitetura é a arte que tem por objetivo aplicar princípios estéticos ao espaço em que o ser humano vive. É claro que não há sentido em falar na arquitetura das cavernas, mas, mesmo lá, o homem já procurava organizar o espaço disponível, utilizando rochas, madeiras e outros materiais de forma a lhe serem mais úteis (e aqui já podemos incluir a decoração de ambientes como filha direta da arquitetura).

O que fez com que o habitáculo se transformasse em obra arquitetônica foi justamente a intenção estética. Um quadrinho, uma corzinha, um enfeitezinho sem relação direta qualquer com a praticidade da coisa, apenas pelo fato de ser belo modifica o sentido da construção, e talvez daí tenhamos a resposta à professora Lúcia e ao colega incerto e não sabido. É somente a partir da motivação do prazer que chegamos à obra de arte. O espaço em si não precisa ter proposta estética, mas é justamente esse o impulso que diferencia um ambiente projetado de um ambiente meramente natural. Podemos dizer que a natureza é bela e contemplativa, mas não é uma obra de arte. A inserção de talento humaniza o mundo em que vivemos, não pela surrada definição de vida ética, mas pela capacidade de se obter prazer.

O termo arquitetura nasce do grego architekton, que, por sua vez, é a fusão das palavras árchein, que significa origem (lembram do meu texto sobre a arché?) e tékton, criação ou construção. Dessa forma, a palavra arquitetura nasce com o significado de “ofício da construção original”.

Essa definição dá ao termo todo um campo para metáforas, como “arquitetar um plano”, “o supremo arquiteto do universo” e outras bossas, mas o fato é que o arquiteto trabalha com uma arte plástica tridimensional, como a escultura da qual é prima-irmã, mas que, como fator de diferenciação, está a possibilidade de uso humano. Em uma exemplificação quase trocista, há mais arquitetura em um barraco de favela do que nos templos gregos, se mantivermos uma definição fechada, pelo simples fato de serem considerados moradias dos deuses, sempre lembrando que nenhuma celebração era realizada em seu interior.

Não é o caso das igrejas abraâmicas. Estas têm em seu histórico a guarda de objetos sagrados, mas não de habitação divina, muito embora, no caso específico dos católicos, creia-se em uma presença real de Jesus na eucaristia, que fica armazenada em espaços chamados “tabernáculos”. Suas naves são espaços celebrativos, portanto são áreas de uso antropológico, e arquitetônicos por excelência.

Acontece que meu conhecimento arquitetônico se aproxima do rasteiro e tenho imensa dificuldade em reconhecer estilos. No caso da igreja de Sant’Ana, sei se tratar de um colonial tardio, pela época em que foi erigida, mas não consegui distinguir corretamente a qual escola pertence. Dada à simplicidade de suas linhas, não se trata de mais uma dentre tantas igrejas barrocas espalhadas por nossas cidades históricas. O Barroco prima pela quantidade de detalhes, onde o entorno é tão importante quanto o foco principal. O nicho de um santo, por exemplo, será tanto ou mais ornamentado que a própria imagem, dando um efeito cenográfico ao conjunto. Já o Rococó, a exacerbação do Barroco, chega a causar náusea de tantos penduricalhos. O excesso no detalhe praticamente extingue a compreensão do contexto que busca retratar. Está muito longe de ser o que vemos aqui.

Outra escola colonial largamente utilizada no Brasil, o Neoclassicismo, também parece não se aplicar aqui. Esta escola se caracteriza por uma simplificação dos desvarios barrocos, e que acaba por transparecer mais solidez. No caso, parece que voltamos a perceber que a igreja é um prédio, enquanto no Barroco há o entendimento de que é um suporte para outras manifestações artísticas. O Neoclássico traz de volta as colunas gregas, encimados por capitéis jônicos ou dóricos, com preocupação focada na ocupação frontal, o que dá sensação de privilégio na largura da obra. Não é o caso da igreja que tenho à minha frente.
Ecletismo e Art Noveau também são comuns em terra brasilis, mas são posteriores à construção da matriz de Sapucaí-mirim, e, a não ser que tenhamos um exercício de profetismo arquitetônico, não são possíveis de serem aplicadas.

A escola da qual mais encontrei semelhanças com esse templo é o Maneirismo. Considerado a princípio uma degeneração do estilo clássico, o Maneirismo dá mais importância ao estilo peculiar do projetista do que a um cânon preestabelecido. Importa aqui a maneira pessoal de se manifestar (maniera, em italiano), daí o nome. No entanto, ao contrário do que essa característica poderia fazer supor, o Maneirismo possui alguns elementos básicos, que, em geral, batem com a igreja de Sant’Ana.

O estilo é bem mais simplificado que os demais, privilegiando os aspectos exteriores, enquanto a decoração interna é bastante espartana. Os frontões são geométricos, com o uso de estruturas triangulares. O jogo de luzes das janelas faz com que a iluminação interior seja contrastante, o que é facilmente perceptível na boa entrada de luz do altar e na precariedade da passagem imediata do pórtico. Há uma tendência em dar mais ênfase no eixo longitudinal, justamente para tornar mais factível essa composição de iluminações.

Percebi algumas discrepâncias, porém. A torre alta e centralizada não me parece típica, e os reforços das arestas, apesar de presentes, não tem o aspecto de dupla coluna que é relativamente comum na escola maneirista. Repetindo: apesar de seguir uma linha-mestra, o Maneirismo dá mais liberdade ao autor, não possuindo um “manual de instruções” tão rígido quanto nos demais estilos.

Mas eu não tenho conhecimento suficiente para enquadrá-la. Como não há nenhuma informação no site da prefeitura ou da diocese, resolvi fazer esse exercício. Se algum leitor versado nessa arte puder destrinchar o frango da minha ignorância, farei questão de adendar este texto, penhorada e antecipadamente agradecido, ainda que não seja costume meu fazer alterações pós-publicação.

Recomendação de visitação:


Aqui na cidade de São Paulo, é realizada, ano sim, ano não, a Bienal de Arquitetura. E este é ano sim!!! Deverá ser realizada, segundo seus organizadores, de outubro a dezembro. Mas ainda há muitas coisas por fechar. Portanto, recomendo que vocês acompanhem as notícias e visitem os espaços disponibilizados. 

sexta-feira, 30 de junho de 2017

Navegar é preciso viver - 3ª ancoragem: São Bento do Sapucaí, por uma Filosofia do azeite

Olá!

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Vamos dar continuidade ao périplo. Após Monteiro Lobato e São Francisco Xavier, eu e a patroa nomeamos a cidade de Santo Antonio do Pinhal como porto seguro para nossas estadias. Como pegamos um hotel bastante razoável a preço amigável, resolvemos fixar âncoras por lá mesmo, ao invés de caçar pouso aqui e ali, como é consuetudinário fazermos. Óbvio que isso acabou por nos levar a muitos endereços do retro citado município, e em diferentes momentos, o que me levará a deixá-lo por último (mas não em último). Então passarei para o próximo passo, a cidade de São Bento do Sapucaí, lugar onde se habituou a construir capelas de mosaicos.


Em primeiro lugar, vamos dar a situação geral. Ao contrário do que ocorreu nos quatro primeiros dias de viagem, o tempo deu uma fechada geral, ficando nublado e garoento (existe essa palavra?). Para quem queria visitar a célebre Pedra do Baú e suas vizinhas, trata-se de um brochante acidente. Vejam a situação da dita cuja:


O mesmo se aplica ao Bauzinho e à Ana Chata, as outras duas formações que compõe o conjunto, do ponto de vista da apícola em que nos encontrávamos:


Estando tudo invisível e indistinguível, nada a fazer senão buscar alternativas. Enquanto a precipitação ainda não estava no nível do encharcante, fomos visitar a parte mais rural da cidade, onde podem ser encontradas muitas trilhas e cachoeiras, dentre as quais a Cachoeira dos Amores.


Ela é subsidiária ao Ribeirão do Paiol Grande, e fica em uma propriedade particular, que cobra (pouco) pela entrada. É uma das mais tranquilas de todas para levar crianças, tendo em vista sua pouca altura e grande piscina natural, com várias pedras para servir de assento.


Quando a chuva apertou, o único rumo a ser seguido era o da região urbana. Seguindo o costume desta região que se ligava no passado às trilhas que levavam às Minas Gerais, há um padrão semelhante às localidades de tropeiros, sendo que, especialmente aqui, há a influência das bandeiras que partiam do universo então habitado, mais próximo ao litoral. Para rememorar este fato, logo no pórtico de entrada de São Bento, encontra-se a estátua de um bandeirante, figura polêmica sobre a qual debateremos oportunamente.


A área possuía todas as características de cidade fundada entre os séculos XVIII e XIX, incluindo a atividade agrícola suportada por mão de obra escrava. Um dos bairros mais célebres é justamente o Quilombo, cujo nome é autoexplicativo. No local onde se situava o dito cujo, foi montado nos dias de hoje um complexo de venda de artesanatos. Na sua entrada, há a reprodução de uma capelinha de pau-a-pique, com os seus simples paramentos.


O lugar é um galpão bastante amplo, de pé direito alto, e é gerido por uma espécie de cooperativa de artesãos, que dividem o espaço em si, mas que possui um caixa centralizado e partilha de gastos para o bem comum dos cooperados.


A principal matéria-prima utilizada é a palha de bananeira, que permeia flores, imagens de santos estilizadas, presépios, recobrem bandejas, guarnecem cortinas, arquitetam cestos e ornamentam caixas de bijuterias, e constituem o casco de inúmeros barquinhos votivos, daqueles que carregam promessas para os santos.


Por falar em artes, no mesmo bairro temos mais duas curiosidades interessantes: a igreja da Imaculada Conceição, em estilo colonial, toda construída em adobe (os famosos tijolos de barro misturado com palha, para dar mais leveza à estrutura), com o característico mastro do Divino cravado logo ao lado ...


... e o atelier do artesão Ditinho Joana, provavelmente o artista mais conhecido da municipalidade, com renome a nível nacional na utilização de esculturas de madeira. Naquele dia nublado, infelizmente fechado.


Em regresso ao trecho central da cidade, chegamos às capelas de mosaicos, de onde se originou o costume local de se produzir obras de arte revestidas pelas coloridas partículas. A primeira delas fica à beira da estradinha que leva ao pé da Pedra do Baú, dedicada à Santa Cruz.


Já a outra fica na porção mais central da cidade, em uma rua do fundo de um quarteirão, colocada ao lado de um atelier, de autoria dos mosaicistas Ângelo Milani e Claudia Villar.


Ambas não são compostas apenas de peças aleatórias. Os mosaicistas aproveitaram a superstição popular de não jogar cacos de imagens de santos no lixo, sob pena de sacrilégio, e agregaram ao revestimento toda sorte de pedaços de estátuas. O resultado final é curioso e belo, apesar de um pouco lúgubre.


E a moda pegou de tal forma que é possível ver mosaicos pela cidade inteira. Como era de se esperar, eles estão nos ateliers...


... nas praças...


... nos estabelecimentos comerciais (como o bom restaurante Sabor da Serra – não estou ganhando um tostão pela propaganda... rá, rá, rá)...


... também nas placas e faixas das ruas...


... e até mesmo nos marcos da via sacra que levam às proximidades da igreja matriz, de forma a terem serventia nas solenidades e procissões da Semana Santa.


Por falar nela, a igreja matriz é dedicada, como não poderia deixar de ser, a São Bento, que fundou a Ordem dos Beneditinos, rigorosa com seus claustros. A igreja em si possui as típicas estruturas em arcos abobadados, o que confere ar magnânimo à obra.


Um dos seus mais conhecidos párocos foi o Monsenhor Pedro do Vale Monteiro, cuja estatua fica situada na praça de mesmo nome. Dizem que foi intensamente dedicado à educação das crianças, em especial as mais carentes.


Fomos embora após um sorvete de queijo. Mas resolvemos voltar no dia seguinte, com a melhora das condições do clima. Novamente fomos amassar barro com nosso pobre carrinho, já devidamente amarronzado. Ainda impossibilitados de buscar as alturas das pedras, fomos caçar algo diferente: uma fábrica de azeite situada no meio dos campos. Trata-se da Oliq (também não estou ganhando nada aqui).


Fomos recebidos pelo Ademilson e pela Natália, que recebem os visitantes com fatias de pão italiano e muitos goles de azeite puro, divididos entre azeitonas de origem espanhola, portuguesa e italiana, além dos óleos de abacate. Eles têm a paciência de demonstrar todas as etapas da produção, que no mês de abril não está ativa. O motivo disto é a sazonalidade do negócio. As azeitonas ficam prontas no fim do ano, e a colheita e prensagem ocorrem por essa época.


Eu sempre tive curiosidade de ver as oliveiras. Há tantos significados por trás delas e de seu produto principal que não resisti à vontade de lidar com elas filosoficamente.


Esse é o tema, portanto. Tenho um livro chamado “A Filosofia na Cozinha”, escrito pela professora italiana Francesca Rigotti, muito interessante e fácil de ler. É daqueles que, abaixo de uma boa árvore e acompanhado de um queijo com um fio de azeite, é possível ler de uma só sentada. Um dos tópicos do livro diz respeito aos alimentos filosóficos. A professora inclui quatro na lista: leite, ovos, pão e vinho. Vou adicionar mais um – o tal do azeite.

Lipídeos. Isso é o que buscamos, basicamente, quando abrimos uma garrafa de bom óleo. Em geral, não estamos aqui muito preocupados com sua composição molecular, mas com aquilo que se pode extrair de seu imo. De fato, ao pensar no azeite de oliva, o mais tradicional de todos, temos uma espécie de correspondência metafísica com uma anima, ou até mesmo de uma arché, uma essência que explica a sua existência. Quem conhece um lagar certamente sabe do que estou falando.

Uma azeitona, vista individualmente e por fora, não faz supor nada mais do que uma fruta pequena, pouco apetitosa se comparada a uma ameixa ou uma manga. Só que a aparência modesta precisa ser descortinada para que se chegue ao paroxismo do azeite. Vejam: a mesma ameixa ou a mesma manga citadas, uma vez premidas, gerarão um sumo e basta – algo efêmero, tão passageiro quanto uma estrela cadente.  Já a azeitona passa por um processo que se assemelha a um rito de passagem – da destruição de sua forma perfeita no processo de moagem ao estertor da prensagem a frio que lhe rouba a essência, um líquido extraído como se extrai uma verdade, com dor. Mas deste parto o sumo resultante fará com que a mágica aconteça: os químicos dirão se tratar de uma diferença de polaridades entre substâncias, mas os estetas pensarão se tratar de uma espécie de epifania, como se o próprio produto do esmagamento pudesse dizer: “Se queres minha substância autêntica, se queres minha característica distintiva, se queres aquilo que me torna único, eu vos darei sozinho”. E eis que óleo e água se isolam sem intervenção, como se a legitimação do processo se desse por essa manifestação volitiva – da oliva, claro. E da desnaturação da moagem e da prensagem, desprendida da água da vulgaridade, nasce a essência mais pura, mais original, mais espontânea e franca – o fruto da oliveira tem agora sua verdadeira natureza exposta – o azeite.

Processo análogo ocorre com os demais óleos, embora de outros seja necessário ainda o cozimento, o refino, a filtragem, mas o objetivo é sempre o mesmo: retirar o cerne do vegetal. Só que o azeite de oliva é ainda mais delicado. Sob pena de alterações na sua acidez e na oxidação, o processo precisa ser, paradoxalmente, delicado e rápido. Não se pense em acrescer aditivos para mantê-lo estável, isso não é coisa de azeite. No máximo, pondere espécies diferentes de azeitona para se chegar ao melhor sabor – todas elas de alma entregue.

Diferentemente da água que cai célere, o azeite escorre. Ele reluz e brilha como se fosse um verniz pelo qual o alimento precisa passar para se tornar ainda mais nobre. Enquanto Heráclito usava a água dos rios para simbolizar o devir, Parmênides perdeu a excelente oportunidade para trazer ao azeite o privilégio de representar a permanência. Qualquer um que precise lavar a louça sabe bem do que estou falando. Um suco, um vinho ou outro líquido privado de viscosidade causam um resíduo que basta uma boa enxaguada para resolver. Vá fazer isso com algo impregnado de azeite. É preciso água quente e saponificação adequada para que desprenda do objeto em que se instalou. O azeite (e gorduras em geral) se agarra tenazmente em seus invólucros e recipientes, e por isso mesmo é tão utilizado em medicina e ritos religiosos.

Peguemos o exemplo da liturgia cristã. Enquanto nos batizados a água representa uma limpeza dos pecados, do azeite se espera representar a graça divina que para sempre se funde ao fiel. É também fármaco que aquece os ungidos em seu leito de morte. Aliás, os unguentos e pomadas aproveitam justamente essa característica de adesão para que sejam mantidas no corpo do enfermo as mezinhas que lhe darão efeito curativo.

Além disso, o azeite doa seu pendor lubrificante para o quotidiano dos homens. Espalhado pelo corpo é proteção e estratégia de luta. Os antigos gladiadores se besuntavam de azeite para dificultar o agarre pelos seus adversários. Se o azeite quase se funde amorosamente com o que se toca, também o faz com o guerreiro que lhe busca o socorro.

E a noite... O azeite é o combustível das lamparinas que nossas avós e todas as enfermeiras buscavam para cuidar de seus entes. Não é por ventura a lamparina acesa o símbolo do cuidado solidário? Que vale a lamparina sem seu azeite para queimar? A candeia nada é sem seu azeite; já o azeite permanece o que é. O azeite, aqui mais uma vez, é símbolo de persistência e da paciência, da chama que queima lentamente, consumida aos poucos por um pavio que parece inerte, como se fosse seu dever não ser notada. Uma espécie de desafio ao próprio tempo.

O azeite é tudo isso e muito mais que possamos pensar. Ele se agarra à nossa mente da mesma forma que à nossa pele. Lembro ainda hoje dos dias em que não havia muita coisa para entreter o estômago, como hoje em dia podemos encontrar em nutellas e cream-cheeses. A copa pouco cheia não chegava a exaltar o ânimo, mas uma bem imiscuída garrafa de bom azeite parecia reluzir quando encontrada. Eram poucas as coisas de qualidade máxima adquiridas pela minha operária família. O arroz precisava de escolha, a carne nem sempre servia para bife, os ovos dependiam do bel-prazer das galinhas da redondeza; economizava-se em tudo isso para que se pudesse ter o melhor azeite. Um pouco de sal, um fio de azeite e um pão honesto: era isso o necessário para aplacar a ira estomacal com um prazer um tanto raro de encontrar.

No final das contas, fiz mais poesia do que filosofia, mas quem disse que essa última precisa ser desprovida de emoção e boas lembranças? É isso que espero de meu azeite e da minha visita a São Bento do Sapucaí, a quem espero rememorar nos dias em que estiver mais contando histórias do que propriamente as vivendo.

Recomendação de leitura:

Como mencionei acima, a professora Francesca teve uma boa ideia ao reunir os princípios filosóficos que podemos encontrar ao redor de um fogão e à beira de uma mesa. Segue a referência.


RIGOTTI, Francesca. A Filosofia na Cozinha. São Paulo: Ideias e Letras, 2016.