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sexta-feira, 10 de novembro de 2023

Navegações de cabotagem – A Breganha de Taubaté e a indefinida loucura que insistimos em não ver

(A loucura não é mais o que pensávamos, mas ainda não é o que sabemos)

A indiferença é você ignorar o que se passa, é fingir que não vê

Daniela Arbex

Olá!

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Certos “espíritos” que não existem mais na Capital da Garoa ainda podem ser vistos nas cidades de interior, mesmo as maiorzinhas. É aquela coisa de procissões que atravessam por bairros, defuntos velados em casa, vendedores que batem de porta em porta, praças lotadas nos domingos e outras coisas que ficaram esquecidas nas metrópoles. Taubaté está entre as tais maiorzinhas, mas ainda conserva estas tradições, como já falei sobre a Casa do Figureiro. Mas existe um evento dominical que é tão célebre na região do Vale do Paraíba que chega a ser considerado uma atração turística da cidade. Trata-se da Breganha.

Breganha? Que nome é esse? É uma corruptela da palavra “barganha”, adaptada do linguajar popular para indicar trocas diretas feitas entre donos de objetos, com aquelas famosas pechinchas tentando fazer um valor mais camarada. É tradicionalíssima em Taubaté, porque existe, segundo algumas fontes, desde o século XVII, mas, na redondeza do Mercado Municipal, está há mais de um século.

Não era prática incomum no momento em que surgiu. Os tropeiros que saíam do litoral paulista rumo aos campos de minérios na região de Minas Gerais tinham pontos de parada em seus longos trajetos onde faziam pequenas compras que iam além do comércio estritamente necessário ao seu labor, e isso atraía à beira dos mercados pessoas que traziam miudezas.

A Breganha tem de tudo, novos e usados, secos e molhados, desde manufaturas para produtos tipicamente locais…

… até produtos realmente usados, mas que são vendidos a um preço tão baixo que ainda encontram compradores. Volto já, já a falar sobre isso.

Há algumas velharias, entretanto, que são de fato interessantes, com valor de coleção ou de reposição difícil. Vejam a quantidade de câmeras fotográficas analógicas. Algumas são antigas até para um cara da minha idade.

Por essa razão, a Breganha é insólita e tem valor turístico, já que escavadores podem achar artigos que, de fato, possuem uso de relevo ou raridade, a preços de fato pequenos, com a possibilidade de negociar trocas e pechinchas, como se fazia nas feiras livres até não muito tempo atrás. Mas há também toda sorte de velharia onde se tenta exercer a criatividade para conseguir utilidade. Há artesãos que passam por aqui pelo simples fato de encontrar algum objeto que os inspire, como um prego velho, uma lata enferrujada e outras coisas que só encontram proveito no engenho mental humano...



... bem como há coisas belas, históricas e úteis por si só. Tem de tudo, em resumo.


Há, no entanto, o entorno, e lá, como em qualquer cidade maiorzinha, vemos um universo inteiro de pedintes. Eles estão não somente em Taubaté, mas existem em profusão nas feiras mais conhecidas, como a popularíssima feira do Glicério ou na chiquérrima feira do Pacaembu. Aqui, estão aqueles que não conseguem estar no miolo, mas nas beiras, esperando suas migalhas. São os miseráveis, os bêbados, os drogados, os mendigos, aqueles a quem a bebida e a desgraça fizeram soltar os miolos, ou, do contrário, por não terem o juízo todo, ficaram excluídos do mundo do trabalho, não tendo forma de ganho que lhes sustente.

Mas é muito discutível que os pedintes que rodeiam os mercados e as feiras sejam chamados de loucos. Esta é uma designação genérica para aqueles que não se integram ao meio social por ter algum tipo de deficiência cognitiva. Mas vejam só como é o mundo. Enquanto a patroa negociava uma sapateira de madeira, eu vi que tinha um moço na saída da Breganha que estava sentado quieto, com um saco de tampinhas que ele parecia admirar, uma por uma. Pegava uma do saco e ficava olhando e olhando, depois outra, e mais outra. Ele ficou por lá até alguém berrar para ele, do outro lado da rua:

"Ô, doido! Sabe onde tem mais uma tampinha?" - apontando para sua genitália, naquelas brincadeiras típicas de quinta-série, e saiu dando risada sozinho. O doido meneou a cabeça e se limitou a dizer: "eu que sou o doido…", e continuou na sua atividade de doido.

Aquilo me colocou a pensar e a lembrar de algumas histórias. Não são somente contos inocentes que surgem através da cambaia definição que damos aos transtornos mentais, mas desventuras que terminam mal. Vejam só.

O nome fictício era Silvio. Era um homem em uma faixa de idade incerta, mas que flutuava entre os 30 e 40 anos. Um cidadão periférico típico dos princípios da década de 80, com as mesmas características de qualquer um. Ou quase. De externo, era portador de estrabismo divergente discreto, o famoso zarolho. Isso já lhe rendia uma pequena dificuldade de enxergar e uma grande dificuldade de se relacionar, já que ele encarou por toda a sua vida aquela velha pecha de ter um olho em deus, outro no diabo. Mais que isso, o problema de visão o afastava dos empregos mais decentes, e, em casa de oito irmãos, isso era uma questão.

Esse ainda não era seu pior problema, entretanto. Sua volumosa família, pai, mãe, irmãos, não era exatamente unida, e a lei da evolução ganhava naquela apertada casa de três cômodos um microcosmo que seria fascinante, se não tivesse seu aspecto desumano. Lá, Silvio (nome fictício) era a personificação do mais fraco. Em qualquer disputa era o errado, o que tinha que ceder, o que tinha que apanhar. Se havia alguém em posição de ser descartado, era ele.

De resto, alguns poucos hábitos marcantes. A dificuldade visual lhe fazia assistir a televisão muito de perto, e gostava de se enfiar em seu quartinho nas tardes de domingo para assistir o Silvio Santos, seu fictício xará, tomando uma garrafa de soda limonada, seu refrigerante preferido. Causava incômodo por seus arroubos e lhe construíram um quartinho do lado de fora da casa, para que por lá tivesse suas manias.

Diziam ser louco. De fato, foi parar uma vez no sanatório, aviado pelo padre da paróquia em que militava. Excesso de nervosismo, o diagnóstico, que lhe dava acessos de fúria. Mas, por tudo o que ouvi, nada mais tinha do que um transtorno de humor, algo que qualquer Ritalina resolveria. Alternava períodos de grande quietude com acessos de explosão verbal, no más. Sem quebradeiras, sem violência física, mas com momentos de muita gritaria. E este comportamento não era imotivado. Vinha do espírito belicoso da casa, sempre cheia de brigas, de todos contra todos. Todos gritavam e se enervavam, mas era nele que estava colado o rótulo: o Silvio, de nome fictício, tinha doença na cabeça. Entre todos, é o que sofria as piores consequências, porque tinha menos ligeireza de pensamento, talvez. Ou porque fosse menos desprovido fisicamente, não sei dizer, só ouvi dizer.

Das irmãs, tinha a peia nas costas; dos irmãos, os punhos mesmo. Do pai, a indiferença e da mãe o olhar complacente, embora não lhe poupasse a censura. De todos: é o doido. Família de mineiros, viviam lhe prometendo colocar no trem, mesmo que esse não existisse mais. Já falo mais sobre ele.

Numa tarde de domingo, Silvio tomou um copo de soda. Não a limonada de sua preferência, mas a cáustica. Estupidamente, deram-lhe leite como socorro, inócuo diante da alcalinidade do preparado. Foi parar no hospital e, estando com o trato digestivo todo calcinado, lá ficou por meses, em permanente alimentação parenteral. Diziam que cometeu sua derradeira loucura por um amor mal resolvido, mas que ninguém chegou a conhecer. Aliás, nunca se soube de que naquele momento estivesse a namorar ou mesmo pretendendo. Só que a narrativa ganhou unanimidade, pois trazia alívio a todos que pudessem sentir alguma culpa. Morreu seco como a figueira bíblica, e no seu enterro havia muita choradeira. Todos os irmãos bradavam por perdão. "Perdão, meu irmão, me perdoe"... Mas por que pediam perdão, se a causadora da desgraça foi uma paixão arrebatadora? Que culpa poderiam ter nisso para tantas escusas? De uma das bocas, eu ouvi que não foi por loucura que ele tivesse, mas por loucura que lhe impuseram. É a boca mais confiável de todas, e a única que eu acredito nesse imbróglio.

O tema da loucura é tabu porque é embaraçoso e espinhoso. Já se dizia que de poeta e louco todo mundo tem um pouco, e as abordagens atuais sobre saúde mental parecem corroborar cada vez mais isso. É importante que seja assim, para que se desmistifique cada vez mais os padrões de comportamento. Há momentos em que eles, por si só, já são removidos da norma pelo simples fato de causar estranheza, sem que qualquer prejuízo seja evidente, tanto à pessoa, quanto a quem a cerca. Quem de nós não tem seus momentos de esquisitice? Guimarães Rosa fala sobre isso em seu rápido conto "Sorôco, sua mãe, sua filha" de maneira brilhante. Fala da história de um homem simples, lavrador viúvo que leva sua mãe e sua filha até a estação do "trem de doido", a composição que leva os acusados de loucura até o manicômio de Barbacena, de onde nunca sairão, o mesmo trem que prometiam enfiar o pobre Silvio (nome fictício). A única loucura aparente de sua filha é uma canção suave, que ela canta de maneira meio alheada. olhando para o céu. Na hora de embarcar no vagão, sua avó, mãe de Sorôco, começa a entoar o mesmo canto. Depois que o trem parte, é a vez do próprio Sorôco retomar a melodia, o que também é feito pouco a pouco por toda a gente que veio acompanhar a partida e lhe dar solidariedade. A beleza subjacente ao conto está na repetição das mesmas ações que levaram a menina a ser encaminhada ao sanatório por todos, um fenômeno comum que é considerado loucura ou normalidade de maneira seletiva. 

Também Lô Borges, outro mineiro, captou com maestria esse espírito de exclusão com todos que caem na vala comum da loucura. Vou colocar aqui a letra de sua música "Trem de Doido":

Noite azul, pedra e chão

Amigos num hotel, muito além do céu

Nada a temer, nada a conquistar

Depois que esse trem começa andar, andar

Deixando pelo chão os ratos mortos na praça

Do mercado

 

Quero estar, onde estão

Os sonhos desse hotel, muito além do céu

Nada a temer, nada a combinar

Na hora de achar meu lugar no trem

E não sentir pavor dos ratos soltos na praça

Minha casa

 

Não precisa ir muito além dessa estrada

Os ratos não sabem morrer na calçada

É hora de você achar o trem e não sentir pavor

Dos ratos soltos na casa, sua casa.


O eu-lírico se põe na posição dupla do alheamento dos doidos que embarcam para a reclusão e na metáfora dos ratos, a praga indesejada de quem só se quer o extermínio. Fala de mercado, fala de praça, fala dos ratos. Fala da exclusão dos indesejados.

Esse trem de doido era a maneira com a qual os mineiros tratavam o deslocamento de pretensos doentes mentais para o manicômio de Barbacena, cujo nome oficial era Colônia, localizado na região do Campo das Vertentes. Por lá, existia um amplo complexo que utilizava os métodos consagrados até a segunda metade do século XX para controle de doenças mentais: eletrochoques, sossega-leões, camisas de força e outros procedimentos que visavam controlar os surtos psicóticos dos pacientes. Era o que se imaginava possível de se fazer à época.

O que havia de mais triste, entretanto, era que lugares como Barbacena se tornaram pontos de despejo dos indesejáveis, os ratos da canção de Lô Borges. Para lá iam pessoas que teriam tratamento em suas casas, em suas cidades, mas que eram consideradas irremediavelmente insanas, e que precisavam de controle permanente. Pior ainda: para lá iam não só os considerados loucos, mas aqueles que tinham qualquer atitude que pudesse ser considerada desvio de conduta, como as "meninas namoradeiras" que tinham vida sexual ativa, e que destoavam da moral da época. Iam aqueles que tinham tendências homossexuais, os que não se davam com o trabalho, os que não se enquadravam no modelo social, enfim.

Todas essas histórias estão contadas no chocante livro da jornalista Daniela Arbex, recomendado abaixo, que nos conta como inúmeras vidas foram dizimadas naquele hospital, em um período histórico que vem sendo chamado de Holocausto Brasileiro, dados os pontos de coincidência com o evento ocorrido durante a Segunda Guerra Mundial. Estima-se que 60 mil pacientes morreram no Colônia, seja pelos excessos cometidos nos “tratamentos”, seja pelas condições sanitárias abaixo de qualquer crítica, pela alimentação precária ou pelo frio. Era um imenso quarto de despejo, mais infecto que o mais ordinário dos valhacoutos. Os próprios internos eram encarregados de fazer a pouca comida disponível, acumularem-se para se proteger do frio e enterrar os mortos. Mais não conto, porque é livro de leitura obrigatória.

Hoje em dia, o modo como é encarada a doença psíquica mudou demais, para nosso gáudio. Os profissionais “psi”, em que pesem eventuais tropeços, passaram a ser vistos com mais respeito, e fazer terapia deixou de ser sinônimo de tratamento para malucos, mas de um hábito saudável de quem reconhece não ser um super homem infalível. Fala-se muito em depressão hoje em dia não porque o modus vivendi moderno a favoreça, mas porque ela é uma condição mais estudada e compreendida. Falamos em TOC, em TDAH, em transtorno bipolar porque hoje somos capazes de entender que o cérebro é uma máquina complexa e sujeita a defeitos, mas que não faz sentido jogá-los todos no senso comum da loucura, que deveria ter uma definição bem mais restrita, ou mesmo inexistente. É bom que todas as questões de saúde mental sejam adequadamente segregadas, porque a vala comum tende a produzir tratamentos comuns, mas a camisa de força não serve para qualquer coisa, se é que serve para alguma.

Um porém. Tenho alguma preocupação com essa maneira com a qual a coisa está sendo levada, e para tanto vou dar um exemplo. A atriz Letícia Sabatella, talentosíssima, de quem já vi peças de teatro dignas de meus textos (aqui), foi diagnosticada com autismo, como pode ser lido aqui. A par disso, lembro que tenho uma vizinha que também tem uma filha autista. A menina é uma graça, alegre, lépida e saudável. Quero dizer que não há nada fisicamente que denuncie sua condição, mas a dificuldade de comunicação que ela tem é digna de nota. Ela vive efetivamente em um mundo próprio, e só sai dele quando alguma condição especial e desconhecida mesmo de sua mãe faz com que ela peça água, praticamente sua única verbalização de vontade. No mais, praticamente nenhuma interação existe, e é difícil até mesmo conseguir escola para ela.

Não é possível nenhum nível de comparação entre as duas condições. Se alguém conviver com a atriz, talvez a ache um pouco estranha, no máximo. Tipo distraída, ou incomodada com coisas pequenas. Eu que vejo a menina todos os dias, compreendo que suas limitações vão muito, mas muito além disso. Não entendo que, ainda que falando de níveis diferentes, possamos colocar ambas no mesmo bojo. Uma não teve impedida uma carreira de sucesso e reconhecimento público, a outra quase que luta para sobreviver. Neste sentido, a classificação tende a ir ao sentido oposto do desejado: e de generalizar, ao invés de especificar, exatamente como se chamam os loucos da Breganha. Como não sou especialista da área, não vou ficar dando pitacos, mas é uma sensação que tenho e que gostaria de externar.

Então, se aquele moço que estava com as tampinhas na Breganha pudesse me ouvir, eu diria para ele não ligar para quem o chama de doido. A humanidade erra demais e provavelmente o faria no seu caso, que mereceria mais atenção social do que propriamente psíquica. Bons ventos a todos!

Recomendações:

Vão de trambolhão hoje. A primeira é o famoso livro de contos de Guimarães Rosa, que já continha sua peculiar maneira de contar histórias.

ROSA, João Guimarães. Primeiras Estórias. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 1969.


Depois, vai a música transcrita, uma pérola dentro de um disco fantástico, um hard rock no meio da MPB para provar todo o ecletismo do movimento.

BORGES, Márcio; BORGES, Salomão. Trem de Doido. In: Clube da Esquina. Rio de Janeiro: EMI-Odeon, 1972.


Como não poderia deixar de ser, o essencial livro-denúncia da jornalista Daniela Arbex, contendo toda a desgraça que foi a existência dessa instituição.

ARBEX, Daniela. Holocausto Brasileiro. Genocídio: 60 mil Mortos no Maior Hospício do Brasil. São Paulo: Geração Editorial, 2013.


E, finalmente, a Breganha em si, que pode ser visitada todo domingo de manhã, no endereço abaixo:

Feira da Breganha

Av. Des. Paulo de Oliveira Costa, 1030-1054

Centro

Taubaté/SP

A aproximadamente 130 Km do centro de São Paulo

terça-feira, 30 de junho de 2015

Cartas náuticas para marinheiros de terra firme - 2º relato: Poços de Caldas, um sabor de vidro e corte

Olá!

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Passando um tempo grande já, retomo as cartas náuticas. Nossa segunda parada foi na mui famosa cidade de Poços de Caldas, já aqui colocados no estado de Minas Gerais. Não há grandes transcursos, as cidades são bastante próximas, e de fato é possível chegar em menos de meia hora.

Quando eu e a patroa viemos a Águas da Prata em 1990, não tínhamos certeza se viríamos até aqui, desmotorizados que estávamos. Mas, como já mencionei na minha primeira carta, existia um trem turístico interligando ambas as cidades, o que facilitava sobejamente o deslocamento. Minha intenção era novamente chegar aqui por via ferroviária, mas o trem de Águas da Prata para Poços de Caldas não funciona mais. Desta forma, nada mais resta a não ser embarcar no meu carrinho e seguir viagem queimando gasolina.

Poços de Caldas é muito maior e agitada que Águas da Prata. De fato, basta comparar a vista que se tem do morro do Cristo Redentor de uma e de outra...

Poços de Caldas



Águas da Prata



... Cristo este que fica no mesmo lugar em que desemboca o teleférico da cidade, infelizmente inativo naquele dia. Curioso que tal equipamento não funcione em período de férias, mas enfim...

Poços de Caldas, ao contrário do que ocorreu com Águas da Prata, deu uma mudada boa nesses 25 anos. Algumas bem ruins, como a desativação do monotrilho e da estação de trem (da qual falei ainda há pouco), que acabou virando um depósito de presépio...



... mas que ainda consegue contar algumas histórias interessantes. Ao longo da parte externa da gare há, por exemplo, alguns monumentos e um xadrez gigante, bem como essa insólita maquininha a vapor. À primeira vista, pensa-se: “Oh, uma locomotiva para anões”, mas não. Trata-se de uma niveladora de macadame, os nossos escorregadios paralelepípedos, de tantas topadas matinais e entortadas noturnas.


O centro da cidade é todo bem cuidado, e isso não mudou tanto. Há exemplos belíssimos de arquitetura do auge do ciclo do café, como o Palace Hotel, situado no conjunto chamado de Parque José Afonso Junqueira:


E o prédio das Thermas Antonio Carlos, local que reúne o mais atrativo dos recursos naturais da cidade, as águas sulfurosas, com temperaturas que se mantém em torno de 45 graus Celsius, com uma construção em estilo art nouveau, combinando solidez de suas paredes detalhadas com o requinte dos vitrais que as cercam e recobrem:


Nada mal, os vitrais do teto...


O prédio ainda funciona em seu propósito original, e é “equipado” com médicos, fisioterapeutas e que-tais, além de muitos acessórios que os acompanham desde sua inauguração. Uma verdadeira relíquia. Um pouco chato o inquérito necessário para acessar as águas, mas regra é regra e não passei sobre elas, optando por cozinhar nos 35 graus disponíveis ao ar livre, senegalesco que se encontrava naquele momento.

Há ainda outros logradouros que são bastante significativos para a cidade e para a minha memória. A pracinha onde ficam as charretes possui o relógio John Canta, todo feito de flores recobrindo seus mecanismos, cujo modo de fotografar permanece i-gual-zi-nho ao de tempos atrás: um belo banco de ferro, e braços erguidos para conseguir o melhor ângulo possível. Em tempo: não tenho pau-de-selfie. Em tempo 2: A praça se chama Getúlio Vargas.


A cidade também se caracteriza por possuir duas grandes fábricas de cristais do estilo murano, além de outros pequenos estabelecimentos que fazem o mesmo serviço, à vista dos seus clientes, moldando o vidro a altas temperaturas com suas ferramentas e colorantes habilmente entrelaçados. A foto abaixo foi capturada meio de soslaio, porque a fiz clandestinamente. Não sei por que cargas d’água o dono não deixa fotografar as peças (até mesmo por isso, prefiro não identificar a loja. Pena).


Um pouco retirado do centro, há o Recanto Japonês, um jardim nipônico que fica na encosta de um morro da Serra de São Domingos. A ideia é concentrar em um só local o contato com a natureza e a paz reflexiva típica da cultura oriental. Há muitos lampiões e veredas que encaminham a uma mata cada vez mais fechada, onde, com um pouco de sorte, consegui avistar uns macaquinhos e até mesmo um quati. Também há quantidade considerável de borboletas de porte médio, muito bonitas:


O ponto central do conjunto é a Fonte dos Três Desejos, monumento que escoa três filetes de água que recaem sobre um pequeno tanque, representando as necessidades espirituais e materiais do ser humano: amor, saúde e inteligência. Há uma passagem sob o pórtico, onde é possível se assentar e meditar. Um lugar para vir com tempo.


O local disponibiliza gratuitamente quimonos para tirar fotos. Como nem eu, nem a Mimi achávamos que caberíamos em algum deles, resolvemos não arriscar e passar carão.

Bom, mencionei as charretes da praça GV. Elas percorrem não apenas os pontos turísticos urbanos, mas também algumas quedas d’água do Ribeirão das Antas, cuja mais famosa é, sem sombra de dúvida, o Véu da Noiva:


O local, além da beleza que a foto traduz, possui bastante artesanato local, baseado em trabalhos de madeira, palha, cordoaria e outros.

Prosseguindo rio abaixo, chega-se à Cascata da Lua de Mel. Cascata no sentido figurado mesmo, porque queda d’água não há, somente alguns desníveis. Mas há o mérito de ser um local com bastantes pedras, o que permite chegar ao meio do rio com certa segurança, e daí pudemos molhar adequadamente as costas.


Finalmente, passamos pela represa Bortolan, já no caminho de regresso a Águas da Prata, para matar a saudade de andar de pedalinho. Em outros tempos, os coletes eram desnecessários, o que é particularmente agradável em tempos de sol a pino. Mas, como em questões de segurança é bom não dar mole, vamos embutir a reclamação no bolso e sair pedalando e navegando de escuna.


Apesar de estarmos numa pontinha do estado de Minas Gerais, é inegável que há um quê diferente. Certos aromas se intensificam, alguns sotaques aumentam de frequência e, mesmo com os mais de 400 km que separam Poços de Caldas de Belo Horizonte, e com os pestilentos acordes do sertanejo universitário espoucando nos meus tímpanos, há algo entre atávico e espiritual que me traz Clube da Esquina a cada canto em que eu olhe.

Não deveria ser assim, já que o Clube da Esquina foi um fenômeno e uma corrente urbana, e eu estou no meio do mato. Pensando bem, estou falando bobagem, há muito de campestre nesta escola que se formou já há tanto tempo, e muito de urbano em uma cidade com mais de 140.000 habitantes. Bom, é melhor eu discorrer sobre o tema.

O movimento começa a fazer pipocar seus primeiros brilhos em meados dos anos 60, mas é na década de 70 que podemos considerar que ocorre seu período áureo. Tem muito a ver com o considerável sucesso de seu membro mais ilustre, o cantor e compositor Milton Nascimento, que se reunia com um pessoalzinho assentado na esquina da Rua Divinópolis com a Rua Paraisópolis, no bairro de Santa Tereza. Não adianta procurar o clube, ele não existe. O que há é uma placa na parede da casa que ladeia as duas ruas, indicando que naquele local se concentravam os jovens que impulsionariam uma nova escola da música popular brasileira, com seus violões e poesias.

Esses mineiros deram início a um estilo musical que combinava a complexidade harmônica da bossa nova, o lirismo do folk e a multiplicidade do rock progressivo.  Muitos nomes estão inscritos no Clube. O mais afamado é Milton Nascimento, sem dúvidas. Mas o movimento segue agregando o clássico Wagner Tiso (músico erudito de formação), os compositores Tavinho Moura, Ronaldo Bastos, Fernando Brant, Toninho Horta (também guitarrista), Márcio e Telo Borges, e os cantores Lô Borges, Beto Guedes (que trouxe muito do “ar do campo” da tendência), e que teve suas últimas referências com o grupo 14 Bis e com Tavito, bem mais tardiamente.

Quando digo que o estilo musical do Clube remete à bossa nova, imediatamente podemos incluir aí toda a carga jazzística que esta já tem. Isso significa que, mesmo com um ritmo sincopado e um andamento moderado, não são músicas “facinhas” de tocar, como eram as coetâneas canções da Jovem Guarda. Para quem toca um pouco de violão, é fácil de entender. Há uso profuso de acordes incomuns, cheios de sextas, diminutas, nonas aumentadas e etc, que exigem dedos longos e propensos à contorção. São aqueles acordes que, ouvidos isoladamente, chegam a ser desagradáveis. Sua eufonia está justamente no contexto musical em que se encaixa, a tal da harmonia.

As letras das músicas possuem muita subjetividade. Estávamos em plena época da ditadura militar. Os artistas ligados à música de protesto, como Edu Lobo e Geraldo Vandré, já tinham sido colocados para correr pelo aparato repressivo, e aqueles que ficaram tomaram a atitude de continuar sua tarefa de oposição através de letras cada vez mais intrincadas e metafóricas. Chico Buarque, por exemplo, foi um grande mestre nessa arte. “Apesar de você” e “Cálice” são bons exemplos de como usar os desvios e desvãos da linguagem para se dizer o que se quer sem dar conta a quem não pode saber. Neste caso, a censura.

Os membros do Clube da Esquina utilizavam alguns subterfúgios interessantes para carregar sua poesia de referências. Em primeiro lugar, foram precursores dos grunges (leiam mais aqui) na fuga como atitude ("em meio a tantos gases lacrimogêneos ficam calmos, calmos, calmos"), através de temas intimistas ou de histórias internas. E também usavam enredos quase herméticos, com um lirismo crivado de referências internas, desconhecidas das pessoas de fora de seu círculo. Mas isso não impediu que a “redentora” chegasse aos seus pés. Dois exemplos:

Primeiro: Marcio Borges precisou andar escondido por uns tempos, por conta de seu envolvimento com o movimento estudantil. Qualquer letra sua era vista como um fantasma que carregava mensagens ocultas, prontas para incitar à sublevação. Claro que é muito mais difícil produzir em um ambiente onde há uma espada sobre a sua cabeça, o que ajuda a explicar a hermenêutica restrita mencionada anteriormente. 

Segundo: Milton Nascimento, ao contrário de outros artistas, recusou-se terminantemente a deixar o Brasil. A consequência foi que, mesmo permanecendo contratado das gravadoras, teve as portas das rádios e da TV fechadas. Sua obra ganhou a pecha oficial de música para intelectuais, o que, bem entendido para o jargão da época, significava subversão. Se isso lhe salvou o couro, prejudicou a carreira e a mensagem. Para se ter uma base, a música Ponta de Areia, do álbum Minas (1975), é repleta de vocalizações. Estas foram introduzidas na música para suprimir partes da letra censuradas. Mais explícito ainda é o álbum Milagre dos Peixes (1973). Quem ouve este disco, pensa: “Olha, o Milton Nascimento está querendo ser exótico! Um disco praticamente todo instrumental!”. Nada disso. O que houve ali foi um veto quase total, mas Milton resolveu investir em vocalizações, e o álbum foi gravado assim mesmo. A censura prestou ótimo serviço: um álbum instrumental de sucesso, algo raro, principalmente para um artista notabilizado pela voz.

Também mencionei a influência do rock progressivo. Este é um estilo que estava em voga no final da década de 60 e início da de 70, e é caracterizado por alta vanguarda, com a utilização abundante de toda a tecnologia disponível, algumas risíveis para os dias de hoje, mas que eram o máximo da genialidade humana para a época.

(Vou exemplificar com o mellotron, um aparelho de teclas que acionava um conjunto de fitas magnéticas onde estavam gravados os timbres de qualquer instrumento. Cada fita correspondia a uma nota, e, se quiséssemos ter um som de violino, por exemplo, era necessário gravar uma por uma – uma trabalheira imensa. Mas o resultado era a possibilidade de ter uma orquestra inteira ao dispor de um único músico. Qualquer programinha de computador comprado na feira hoje em dia faz melhor, mas ainda tem quem seja apaixonado pelo processo analógico).

Como toda grande tendência, o rock progressivo possuía várias vertentes, e aquela que foi utilizada com mais afinco por músicos do Clube da Esquina foi o folk prog, eternizado por bandas como o Jethro Tull.

Mas, peraí... O som do Jethro Tull não tem nada a ver com o Clube. Não mesmo, cara-pálida. O folk prog utiliza as raízes musicais da pátria que representa. O Jethro Tull é oriundo de Blackpool, uma cidade inglesa, e, naturalmente, busca nas ilhas britânicas as origens de seu som. Um músico que faça folk prog no Brasil buscará raízes brasileiras, ok? Por isso mesmo, ao lado de músicas complexas, há um toque de pesquisa nacional em sua obra, como pode ser bem observado, em especial, em músicas como Página do Relâmpago Elétrico, do Beto Guedes. De certa forma, portanto, o Clube deu origem a outros movimentos de vanguarda brasileiros, como é o caso da Lira Paulistana, porque ajudou a dar início nestes usos inusitados dentro da música. 

Influência dos Beatles? Não preciso nem falar. Quem não foi influenciado pelos Beatles?

É isso. Já gostava de Poços de Caldas, continuei gostando. A vinculação que fiz com o Clube da Esquina é um tanto exótica, mas, no final das contas, isso não apareceu à toa na minha cabeça. Espero que vocês tenham gostado e que lancem mão de uma escola da MPB que costumo utilizar muito quando sinto que estou perdendo a razão.

Recomendação de audição:

A masterpiece deste movimento é o álbum chamado (oh!) Clube da Esquina. Praticamente todas as suas músicas se tornaram clássicos da MPB, o que faz com que muitas pessoas pensem se tratar de uma coletânea. Vale a pena de ponta a ponta. Se você não gostar, não curte música nem poesia. Vá procurar outra praia (exagero completo).

BORGES, Salomão; NASCIMENTO, Milton. Clube da Esquina. Rio de Janeiro: EMI-Odeon, 1972.