Olá!
Conforme solicitado a mim anteriormente, vou retomar o tema deste post, sob outra ótica. Nele, menciono um texto de Robson Fernando, estudante de gestão ambiental que trata do tema do especismo. O autor o trata como um novíssimo preconceito, que se refere à questão da superioridade da espécie humana com relação aos demais animais. A pergunta central é: O que legitima a posição humana de domínio no mundo? A racionalidade é suficiente para embasá-la? Ou ainda: é racional colocar-se em um plano superior?
A questão é difícil, e confesso que ainda hoje não consegui firmar uma posição definitiva sobre o assunto.
Os argumentos dos anti-especistas são bons. Em primeiro lugar, eles têm razão ao dizer que os preconceitos surgem sem que percebamos. Eles não são criados, são descobertos. A história conta-nos que em determinadas épocas, algumas posturas que hoje reputamos por inaceitáveis estavam perfeitamente sedimentadas no senso comum. O autor do texto menciona as diferentes formas de escravidão para justificar suas posições.
(Se bem que é preciso raciocinar se todas as formas de escravidão estão verdadeiramente extintas. Ao atribuir um baixo salário à classe trabalhadora, a elite tira de si a responsabilidade pela tutela de seus empregados - que os senhores de escravos tinham - sob o dissimulado escudo da liberdade, e mantém seus ganhos em alta. Bom, isso é marxismo. Deixemos o assunto para outro momento).
O preconceito, desta forma, instala-se no organismo social na forma de ideologia, e, imperceptivelmente, é tomado por natural e desejável, sendo desta forma perenizado (lá vem Marx de novo). O comércio de animais é hoje tão admissível quanto o tráfico negreiro foi um dia. E se hoje o racismo, o sexismo e a xenofobia são condenáveis, o especismo também deve ser. Não há nenhum sentido em desrespeitar os animais se queremos ser respeitados em nossa condição humana.
Concordo em boa parte com as razões colocadas pelo anti-especistas. Práticas como rodeios, touradas, caças predatórias e utilização de animais em circo são abomináveis. Quanto a isso, ponto final. Toda vida merece um mínimo de dignidade. Usá-la para satisfazer um instinto perverso não tem justificativa. Também a comercialização de animais para fins meramente estéticos pode ser entendida como abusiva. O problema é quando chegamos na questão da sobrevivência. E então, finalmente, podemos encontrar algumas contradições nas justificativas anti-especistas.
Em primeiro lugar, não é verdade que os homens não se vendem mais. Fazem-no sob o nome de "força de trabalho" (sai, Marx!), como mencionei nos primeiros parênteses. Ficamos comovidos com a situação dos bolivianos no Brás*, mas se eles tivessem carteira assinada e situação civil regularizada, nem perceberíamos a sua presença - a não ser para notar que eles tomam postos de trabalho, como se este país não tivesse sido constituído basicamente de imigrantes. Também creio que sua situação de miséria não estaria tão melhor. Portanto, antes de observar se somos especistas, é preciso ver o quanto ainda somos racistas, xenófobos, elitistas.
Depois, é preciso achar uma chave para a solução, e esta encontra-se, mais uma vez, na consciência ética. Tudo começa por um olhar não fundamentalista. Significa que não podemos repudiar pura e simplesmente o comércio de animais por dois motivos básicos:
1º - A sociedade ESTÁ constituída desta forma. Simplesmente TUDO é comercializado. Não se trata aqui de defender o comércio indiscriminado de animais, mas lembrar que desde o mais sagrado até o mais profano é objeto de valor. Vendem-se corpos, vendem-se ideias, vendem-se bênçãos, vende-se conhecimento, apropriam-se de nomes utilizados a séculos, tudo isso aceito com naturalidade. Não estou fazem nenhum juízo purista, esta é apenas uma constatação;
2º - Como mencionei anteriormente, há uma questão de sobrevivência. E nesse momento, é impossível não se tocar na questão alimentar. Não acho indigno que se use os animais para consumo. Muito pelo contrário. O mundo tem imensos bolsões de miséria, não se pode menosprezar as fontes animais de alimentação.
A conduta ética é, como sempre, baseada no respeito. O leão não me desrespeita se matar para comer. Ele está atendendo uma necessidade, e não o fará se não tiver fome ou se sentir ameaçado. A recíproca é verdadeira. É justificável abater um animal para consumo, mas de maneira a causar-lhe o menor sofrimento possível. Voltando ao leão, ele não me matará com requintes de crueldade. Vai me matar e me engolir, pronto. Portanto, o mínimo que se pode fazer é aplicar a tecnologia para mitigar um ato traumático.
Se eu souber que um determinado animal foi morto de maneira indigna, começarei pelo básico: não consumirei estes produtos. Enquanto eu estiver nestes limites, imagino que não estarei fazendo nada de errado, nada de anti-ético. Mas, como disse anteriomente, não tenho ainda uma posição definitiva sobre a questão, o que quer dizer que estou aberto a sugestões de leituras e argumentos contrários.
* Para quem não conhece, o Brás é um dos bairros mais tradicionais da cidade de São Paulo. Formado por famílias operárias vindas de toda parte do mundo (principalmente italianos e sírio-libaneses), na região central da cidade, teve sua história radicalmente transformada com a construção da estação de metrô e expansão da estação de trem, que derrubou a maior parte da área residencial, conforme eu já havia observado aqui. O resultado foi a sua desnaturação. Em outros bairros tradicionais, como a Moóca, o Bexiga, a Barra Funda e o Bom Retiro, ainda é possível encontrar muitos pontos que contam o transcurso do tempo e as suas modificações. Isso quase é imperceptível no Brás. O que sobrou foram as lojas, pequenas tecelagens e seus porões, onde ficam alojados imigrantes andinos (principalmente bolivianos), e que trabalham em regime de semi-escravidão, em especial sob a ameaça de denúncia de suas situações ilegais. É uma pena que sejam mal vistos; são famílias unidas, bastante religiosas. Os pais sempre estão juntos dos filhos, com quem costumam brincar pelas ruas apertadas do bairro. A pobreza não os desnaturou, como ocorreu com o bairro onde hoje vivem.
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quinta-feira, 29 de setembro de 2011
terça-feira, 17 de maio de 2011
Sobre estações de metrô e a opção preferencial do poder público
Olá!
Bem, tivemos problemas na maquininha de blogs neste final de semana. Com isso, acabei perdendo dois posts, que eu vou ter de reescrever (saco! como eu vou lembrar de tudo?).
Uma questão típica da organização de uma cidade acabou ganhando as primeiras páginas dos jornais na última semana: o governo (ou a empresa contratada - ninguém quis assumir a culpa - AVÁ) cedeu às pressões dos moradores do bairro de Higienópolis para mudar de lugar uma estação de metrô que seria construída por lá. Para quem não é de São Paulo, explico: Higienópolis é um dos últimos bairros valorizados nas cercanias do centro da cidade, que sobreviveu (e bem) à degradação de outros, como os Campos Elíseos, o Bom Retiro, a Vila Buarque e o Arouche.
A história pegou fogo por conta de um contra-senso: há décadas que os paulistanos escutam a mesma cantilena - que a salvação para o trânsito virá com o metrô. De fato, e aqui registro um pouco da minha história pessoal, morar próximo a uma linha de metrô é uma benção. Tanto é verdade que o aluguel de moradia nessa condição é impraticável. Soube disso quando me enchi de perder 3 horas diárias dentro de um ônibus para ir do centro (quando eu era pequeno, chamávamos o centro de "cidade". -Olha, amanhã tenho que acordar cedo, vou na cidade!) para casa e vice-versa, e fui correr atrás de alugar algo perto de uma estação qualquer. Achei preço decente apenas no próprio centro, onde vivo hoje, que é perto do metrô e é desvalorizado por outros motivos - falaremos sobre isso em outro momento.
Ora, e os moradores de Higienópolis não querem metrô? Por que?
A alegação é a de que já há estações suficientes na região e que a construção de novas traria pessoas indesejáveis para a região. Uma das moradoras as chamou de "diferenciadas": mendigos, camelôs, gente da periferia; pobres, enfim. Essa foi a senha para a revolta dos "diferenciados", que no último final de semana fizeram no lugar onde seria construída a estação um autêntico churrasco de laje, com direito a farofa e cachaça, ao som de pagodões. A quantidade de gente que compareceu ao evento é difícil de determinar. Em pesquisa na internet, observei números que iam de exageradas 5.000 pessoas até mentiras deslavadas como os apenas 300 gatos pingados que a Record dizia estarem lá (cuidado com essa emissora - ela consegue ser PIOR que a Globo no quesito manipulação de notícias. Claro, o pastiche é sempre pior que o original - se quer fazer o malfeito, faça benfeito).
Há algumas coisas a observar nesse imbroglio todo.
O primeiro: até que ponto a preocupação dos moradores não é legítima? Não estou aqui pensando na mesquinhez de quem não quer ver gente feia na porta da sua casa, mas na degradação que aconteceu bem perto, nas proximidades da Santa Cecília. Lá, uma obra pública monstruosa (o Minhocão) simplesmente DESTRUIU os bairros pelos quais ele passa, outrora aprazíveis e valorizados. Outro exemplo: quando se fala no Brás, pensa-se imediatamente em um bairro perigoso, cheio de moradias irregulares e atividades ilícitas. Boa parte dessa situação se deve, pasmem, justamente à construção do metrô na região. Isso porque a linha e a estação foram construídas exatamente na parte mais residencial do bairro. Com isso, o Brás virou meio que uma "cidade fantasma".
Portanto, os higienopolitanos (existe isso?) tem razão em se preocupar com o que será construído em seu bairro, e com as consequências que isso irá trazer. O meio adotado (abaixo-assinado) é civilizado e democrático, e, para mim, o problema todo não é esse. O direito de reivindicar deve ser assegurado.
Na verdade, o centro da questão é a prontidão do poder público em atender uma reivindicação que partiu de moradores de um bairro de elite. Será que os moradores do Brás não pediram para preservar suas casas? Claro que pediram! Mas acontece que eram POBRES! Derrubaram suas casas, o lugar em que viviam. Em Higienópolis, o projeto previa a desapropriação de um supermercado, e só. No caso do Brás, jogaram a origem e o repouso das pessoas no lixo, décadas de história dos habitantes e da própria cidade. Seus pedidos não foram ouvidos. A voz de Higienópolis vale mais. Eles não terão gente feia perto deles, e com isso chegamos à conclusão de que o valor das pessoas é, este sim, diferenciado.
Assisti um documentário no aniversário da cidade de São Paulo chamado Sotaques e Desmemórias, dirigido por Marta Nehring e baseado em um livro homônimo de Lourenço Diaféria, que conta algumas histórias do Brás. Recomendo os dois para quem gostaria de conhecer algo de um dos bairros mais tradicionais e descuidados da cidade.
Por fim: toda esta história demonstra o novíssimo poder de mobilização da internet. A churrascada da gente diferenciada foi um evento criado sem lideranças, de uma boa ideia que apareceu ninguém mais sabe onde, e que conseguiu a adesão de pessoas que não se conhecem, mas que tem interesses e objetivos comuns. Nesse sentido, a internet é uma GRANDE ferramenta da cidadania e da democracia, e, no limite, da aproximação das pessoas.
Recomendação de leitura e de filme:
DIAFÉRIA, Lourenço. Brás: Sotaques e Desmemórias. São Paulo: Boitempo, 2002.
NEHRING, Marta. Brás: Sotaques e Desmemórias. Filme. Brasil, 2006. 26 min.
Bem, tivemos problemas na maquininha de blogs neste final de semana. Com isso, acabei perdendo dois posts, que eu vou ter de reescrever (saco! como eu vou lembrar de tudo?).
Uma questão típica da organização de uma cidade acabou ganhando as primeiras páginas dos jornais na última semana: o governo (ou a empresa contratada - ninguém quis assumir a culpa - AVÁ) cedeu às pressões dos moradores do bairro de Higienópolis para mudar de lugar uma estação de metrô que seria construída por lá. Para quem não é de São Paulo, explico: Higienópolis é um dos últimos bairros valorizados nas cercanias do centro da cidade, que sobreviveu (e bem) à degradação de outros, como os Campos Elíseos, o Bom Retiro, a Vila Buarque e o Arouche.
A história pegou fogo por conta de um contra-senso: há décadas que os paulistanos escutam a mesma cantilena - que a salvação para o trânsito virá com o metrô. De fato, e aqui registro um pouco da minha história pessoal, morar próximo a uma linha de metrô é uma benção. Tanto é verdade que o aluguel de moradia nessa condição é impraticável. Soube disso quando me enchi de perder 3 horas diárias dentro de um ônibus para ir do centro (quando eu era pequeno, chamávamos o centro de "cidade". -Olha, amanhã tenho que acordar cedo, vou na cidade!) para casa e vice-versa, e fui correr atrás de alugar algo perto de uma estação qualquer. Achei preço decente apenas no próprio centro, onde vivo hoje, que é perto do metrô e é desvalorizado por outros motivos - falaremos sobre isso em outro momento.
Ora, e os moradores de Higienópolis não querem metrô? Por que?
A alegação é a de que já há estações suficientes na região e que a construção de novas traria pessoas indesejáveis para a região. Uma das moradoras as chamou de "diferenciadas": mendigos, camelôs, gente da periferia; pobres, enfim. Essa foi a senha para a revolta dos "diferenciados", que no último final de semana fizeram no lugar onde seria construída a estação um autêntico churrasco de laje, com direito a farofa e cachaça, ao som de pagodões. A quantidade de gente que compareceu ao evento é difícil de determinar. Em pesquisa na internet, observei números que iam de exageradas 5.000 pessoas até mentiras deslavadas como os apenas 300 gatos pingados que a Record dizia estarem lá (cuidado com essa emissora - ela consegue ser PIOR que a Globo no quesito manipulação de notícias. Claro, o pastiche é sempre pior que o original - se quer fazer o malfeito, faça benfeito).
Há algumas coisas a observar nesse imbroglio todo.
O primeiro: até que ponto a preocupação dos moradores não é legítima? Não estou aqui pensando na mesquinhez de quem não quer ver gente feia na porta da sua casa, mas na degradação que aconteceu bem perto, nas proximidades da Santa Cecília. Lá, uma obra pública monstruosa (o Minhocão) simplesmente DESTRUIU os bairros pelos quais ele passa, outrora aprazíveis e valorizados. Outro exemplo: quando se fala no Brás, pensa-se imediatamente em um bairro perigoso, cheio de moradias irregulares e atividades ilícitas. Boa parte dessa situação se deve, pasmem, justamente à construção do metrô na região. Isso porque a linha e a estação foram construídas exatamente na parte mais residencial do bairro. Com isso, o Brás virou meio que uma "cidade fantasma".
Portanto, os higienopolitanos (existe isso?) tem razão em se preocupar com o que será construído em seu bairro, e com as consequências que isso irá trazer. O meio adotado (abaixo-assinado) é civilizado e democrático, e, para mim, o problema todo não é esse. O direito de reivindicar deve ser assegurado.
Na verdade, o centro da questão é a prontidão do poder público em atender uma reivindicação que partiu de moradores de um bairro de elite. Será que os moradores do Brás não pediram para preservar suas casas? Claro que pediram! Mas acontece que eram POBRES! Derrubaram suas casas, o lugar em que viviam. Em Higienópolis, o projeto previa a desapropriação de um supermercado, e só. No caso do Brás, jogaram a origem e o repouso das pessoas no lixo, décadas de história dos habitantes e da própria cidade. Seus pedidos não foram ouvidos. A voz de Higienópolis vale mais. Eles não terão gente feia perto deles, e com isso chegamos à conclusão de que o valor das pessoas é, este sim, diferenciado.
Assisti um documentário no aniversário da cidade de São Paulo chamado Sotaques e Desmemórias, dirigido por Marta Nehring e baseado em um livro homônimo de Lourenço Diaféria, que conta algumas histórias do Brás. Recomendo os dois para quem gostaria de conhecer algo de um dos bairros mais tradicionais e descuidados da cidade.
Por fim: toda esta história demonstra o novíssimo poder de mobilização da internet. A churrascada da gente diferenciada foi um evento criado sem lideranças, de uma boa ideia que apareceu ninguém mais sabe onde, e que conseguiu a adesão de pessoas que não se conhecem, mas que tem interesses e objetivos comuns. Nesse sentido, a internet é uma GRANDE ferramenta da cidadania e da democracia, e, no limite, da aproximação das pessoas.
Recomendação de leitura e de filme:
DIAFÉRIA, Lourenço. Brás: Sotaques e Desmemórias. São Paulo: Boitempo, 2002.
NEHRING, Marta. Brás: Sotaques e Desmemórias. Filme. Brasil, 2006. 26 min.
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