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segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Uma casca de nós

“Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó* que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.”


Álvaro de Campos (Fernando Pessoa) – Trecho d’A Tabacaria – Na minha humilde opinião, um dos melhores (senão o melhor) poema de todos os tempos


* Dominó: espécie de fantasia semelhante a um grande paletó
Olá!

A feira de orgânicos do parque da Água Branca (oficialmente: Parque Fernando Costa), onde me encontro neste momento, é um lugar curioso. Seus consumidores, no todo, buscam alimentação saudável e saborosa, mas que costumam fazer mal a um órgão especialmente suscetível a cólicas e espasmos, que é o bolso. Munido de espírito crítico, tenho a tendência a não aceitar fácil o preço das feiosinhas maçãs e dos esquálidos abacates; mas que eles são mais saborosos, isso são. Posto isso, acabo por me conformar. As pessoas costumam vir para cá paramentadas meio que a caráter, numa mistura algo insólita de saias indianas, mocassins, sandálias de couro cru, camisetas com slogans e faixas na cabeça – nossa, como gostam de faixas na cabeça. Dificilmente estas mesmíssimas pessoas utilizam estas indumentárias em seus quotidianos. Não imagino o rapaz em seu escritório de advocacia com uma calça de algodão cru, nem a menina indo prá faculdade embrulhada num sári, ou as senhoras indo ao bingo com aquelas pedras brilhantes coladas no meio da testa. Mas, entre mortos e feridos, percebo que as pessoas que frequentam o lugar têm uma boa média de cultura, conversam de assuntos um pouco mais elevados que a média geral, têm preocupações ambientais sinceras, que fogem um pouco do individual – não raro, há palestras interessantes sobre ecologia, biodiversidade e outras bossas do gênero, ou há escritores do assunto fazendo lançamentos e autografando suas obras. Isso tudo dá um ar meio hippie a estes eventos, o que me agrada. Por isso mesmo, tenho trazido meu caderno e fico sentado nas mesinhas do lado de fora da feira, enquanto aguardo, cercado de abelhas (leiam aqui), as aflitivas aquisições de minha esposa e filha – não, elas não usam faixas na cabeça (só às vezes) – e acabei por gostar do lugar, onde logo pela manhã tomo um ar fresco e sinto o agradável cheiro do café orgânico sendo passado. Acontece que, neste exatíssimo instante, estou sendo expulso do local onde estava sentado porque há pessoas que estão consumindo e não tem cadeiras disponíveis para sentar. Como eram idosos os que estavam aguardando, não criei caso, até mesmo porque, como é natural nas pessoas que escrevem, eu estava de cabeça baixa e não vi ninguém esperando. Mas, a partir de agora, passei a detestar o lugar que a 30 segundos atrás me agradava. Como a vida é dinâmica, não?
Mas isso tudo me levou a refletir. Por que as pessoas têm indumentárias diferentes nos diferentes lugares? Mais que isso: por que as pessoas têm comportamentos diferentes em diferentes locais e situações? Haverá uma verdade pública e outra privada? A multiplicidade de características é algo que devemos encarar como normalidade ou somos todos falsos?

Em primeiro lugar, precisamos ter consciência de duas coisas: existem diferentes ângulos de visão e também a diferença entre algo que é visto em seu todo e algo que é visto em suas partes. Sobre esse segundo aspecto, vejam o estudo de caso (absolutamente informal) que segue:
Peguemos como exemplo a própria cidade de São Paulo. Grande, multifacetada, costumam dizer que é a cidade dos negócios. Pode ser mesmo. Aqui, temos uma enorme quantidade de ruas com atividades especializadas, e em cada delas temos um volume de compras, vendas e escambos que seriam dignos de qualificar e nomear qualquer cidade que praticasse as mesmas atividades. Como podemos considerar a cidade em seus aspectos mais particulares?  Ela é suntuosa como os lustres da Consolação ou espartana como os uniformes da Tiradentes?  É moderna como os eletrônicos da Santa Ifigênia ou arcaica como os antiquários da Dom Orione? É rica como as boutiques da Oscar Freire ou popular como as “lodgínias” da Oriente e da José Paulino? É idealista como os vestidos de noiva da São Caetano ou realista como as máquinas usadas da Piratininga? Tem o cheiro forte das madeiras da rua do Gasômetro ou a fragrância suave das essências da Silveira Martins?  Tem a sisudez dos bancos da Quinze ou a descontração das fantasias da Porto Geral? É de labor masculino como as ferramentas da Florêncio de Abreu ou feminino como as máquinas de costura da Rua da Graça? Tem a cara de quem está por ser preparado dos cereais da Santa Rosa ou da tarefa realizada nas panelas da Paula Souza (claro que me refiro a comida)? Tem sorriso de criança como nos enxovais infantis da Maria Marcolina ou a compenetração da caça e pesca da Brigadeiro Tobias? É arte para os ouvidos como a dos instrumentos musicais da Rua do Seminário ou é arte para os olhos como a que sai dos equipamentos fotográficos da Conselheiro Crispiniano?  É limpa como as casas médicas da Borges Lagoa ou empoeirada como os móveis usados da Marechal? Trafega nos sonhos como as agências de viagem da São Luiz ou trabalha a realidade dura como as cordoarias da Senador Queiroz? É ágil como os telefônicos da Gusmões ou leve como os artigos orientais da Galvão Bueno? É multicolorida como as flores do Arouche ou monocromática como o ouro da Barão de Paranapiacaba? Anda célere nos carros das agências da Anhaia Melo ou lentamente nos calçados da Rua Cavalheiro? Aponta para o futuro como as auto-peças da Barão de Limeira ou remete ao passado das mãos das avós e seus tecidos da 25? Adere ao chão como os panos de saco da Bresser ou pensa que vai para o céu como as comércio sacro da Sarzedas? É milionária como os carrões da Avenida Europa ou miserável como a feirinha de rolo da Rua do Glicério?


Veja que a cidade é uma e também são várias. Quem olha o todo, vê uma cidade grande, pujante; quem vê o detalhe, percebe o quanto ela é diversificada, e que se coloca em posição de paradoxo com relação ao que foi citado para o todo. A cidade é grande, mas ainda tem área rural; é opulenta, mas tem enormes bolsões de pobreza; é moderna, mas possui um restinho de memória no casario antigo dos primeiros bairros; é mal estruturada, mas tem setores invejáveis e verdadeiramente funcionais; é, ao mesmo tempo, uma cidade com um colapso educacional na base e com o maior número de universidades do país; oferece ao visitante a melhor gastronomia do mundo e os piores índices de violência urbana. Tudo isso é verdadeiro, e as pessoas também são assim.

Se as pessoas são várias em seus aspectos, é porque o ser humano é uma espécie em constante adaptação ao meio em que vive. Recebe influências externas e percebe que, a cada uma delas, há algo a temer, que afeta sua sobrevivência, e daí luta para se adaptar.

Certa vez, assisti a uma palestra do historiador Leandro Karnal, e ele dizia sobre o contraponto do pensamento de três importantes pensadores dos séculos XVII e XVIII. Olhem só como teorizavam os pensadores contratualistas.
Para Thomas Hobbes, o homem era essencialmente um átomo de egoísmo. Isso significa dizer que cada homem é único e se reconhece como tal. Todas as relações humanas não se baseiam em um consenso natural, como ocorre com os animais, por um motivo muito simples: ele não existe. Como o homem é movido por egoísmo e por interesse próprio, a situação típica de uma relação é de guerra de todos contra todos. Enquanto os animais, quando se debatem entre si, tem como pano de fundo a preservação da espécie, no homem se configura a preservação de si mesmo. Daí a famosa utilização hobbesiana da frase de Plauto: “homo homini lupus - o homem é o lobo do homem” . Neste estado de coisas, e como o egoísmo do homem é extremo, ele reconhece o risco de perder seu bem maior, que é a própria vida. Desta forma, o homem estabelece acordos não escritos com os outros homens, de maneira que todos reconheçam entre si esse direito maior, e assim nasce a sociedade e o Estado, que implica no reconhecimento consensual de uma autoridade maior. Hobbes chamou o Estado de Leviatan, que é o nome de um monstro bíblico encontrado no livro de Jó, e representa o poder invencível. Em resumo, o homem é mau por natureza e necessita do Estado para controlar sua barbárie.

Em Jean Jacques Rousseau, o pensamento vai para o polo oposto: o homem era naturalmente bom. A natureza era um reflexo da divindade, e o ser humano inserido neste meio teria todos os elementos necessários para exercer sua harmonia e liberdade, em um princípio filosófico que foi fortemente identificado na literatura como bom selvagem. Só que o meio social acabava por distorcer suas virtudes originárias através da supressão da liberdade, daí sua célebre frase: “O homem nasce livre, e por toda a parte se encontra acorrentado”.  Segundo o filósofo genebrino, o homem perdeu sua pureza e bondade natural a partir do momento em que cercou um pedaço de terra e disse: “Isso é meu”.  Como os demais homens, ao invés de admoestá-lo a parar de falar bobagens, trataram de fazer o mesmo, estabeleceu-se o princípio da propriedade, e, por causa dele, todo tipo de guerra e discórdia floresceu. Essa é a triste gênese da sociedade. Para se tornar possível a vida em comum, estabeleceu-se que a vontade individual deveria ser suprimida a favor de uma vontade coletiva, o que, naturalmente, desagrada muita gente. Sumarizando: o homem é bom, mas se torna mau por influência social.
Já para John Locke, o homem era tabula rasa. Sua mente era um papel em branco no qual seria escrito tudo aquilo que sua experiência pudesse captar. Ele se tornaria aquilo que fosse escrito em sua alma, seja para o bem, seja para o mal. Não há aqui nenhuma predisposição inata, o homem não carregaria bondade nem maldade do berço. Aliás, Locke dava grande valor à educação como formadora da personalidade das crianças, e atribuía ao educador papel vital em exercitar no aluno o uso de sua razão. A sociedade se forma, ao contrário do que dizem Hobbes e Rousseau, não da necessidade de cerceamento dos instintos selvagens, mas do próprio uso da razão, na medida em que deve garantir que a liberdade de uns não seja restritiva para a liberdade de outros. Desta forma, nasce a ideia do Liberalismo, que reduz a necessidade do Estado como ferramenta de coerção e aloca-o como guardião da lei. No final das contas: o homem não é nem bom, nem mau; ele é o que fizerem dele.

Conclusão geral: não há consenso (se esses três, que são colocados na plêiade dos principais filósofos da história não chegam a um acordo entre si, não chegam a um denominador comum, que poderei fazer eu, pobre filósofo de porta de botequim?). E o consenso não existe porque as pessoas são formadas pelos mais variados aspectos, reagindo diferentemente em cada uma de suas situações. Tendemos a indicar a falsidade como um defeito, e ela é mesmo, mas é preciso compreender porque o comportamento humano nem sempre é legítimo.
A pessoa tem uma tendência óbvia de maximizar suas qualidades e mascarar os seus defeitos até mesmo como mecanismo de defesa. Um mundo onde se vive em constante espírito de competição tem a tendência de fazer com que as pessoas se munam com todas as armas que tem ao seu dispor.  E isso se enraíza de maneira tão profunda que dificilmente as pessoas se desnudam completamente. Estão sempre como uma noz: envolvidas por uma casca impenetrável, mesmo quando desnecessário, porque é-nos muito duro reconhecer a falibilidade, a fraqueza, a incoerência...

Incoerência! Quantas vezes não nos obrigamos a suportar o que detestamos, só por uma questão de conveniência. Quantas vezes fazemos em casa o que jamais faríamos na rua. Quantas vezes repreendemos em nossos filhos o que elogiamos nos filhos alheios. Quantas vezes debochamos de uma etiqueta que nunca deixamos de usar. Ou, pior ainda, quantas vezes condenamos preconceitos dos quais nunca conseguimos nos livrar no foro íntimo.
Sim, o homem se adapta às mais diversas circunstâncias, e usa tudo para isso, e dá bela ênfase à mentira e à falsidade, por um motivo absolutamente simples: ela é muito mais moldável do que a verdade. Mas não devemos nos colocar no exílio por causa disso – é também uma questão de sobrevivência. Afinal, a mimetização e a camuflagem nos animais não é, de certa forma, uma mentira necessária à vida?

Não estou erguendo um estandarte à falta de caráter do ser humano. Muito pelo contrário. Estou reconhecendo que o homem usa armas que fogem a qualquer compromisso ético. Apenas estou constatando uma característica nossa: a de moldar uma face para cada tipo de luz que ilumina seu ambiente, sem que isso seja um motivo essencial para condenações. Somos, para o mundo, uma casca de nós. A aparência que se extrai de nossas atitudes não denuncia, necessariamente, o que se pode observar de dentro.
Dessa forma, o aspecto que apresentamos ao mundo depende essencialmente do aspecto de cada uma de nossas relações. Não há uma verdade por inteiro. Que isso não nos desnature também por inteiro.

Recomendações de leitura:
São os contratualistas que eu citei. É muito interessante analisar as discrepâncias entre suas teorias.

HOBBES, Thomas. Leviatan ou Matéria, Forma e Poder de um Estado Eclesiástico e Civil. São Paulo: Abril Cultural, 1983.
LOCKE, John. Ensaio Acerca do Entendimento Humano. São Paulo: Nova Cultural, 1997.

ROUSSEAU, Jean Jacques. Do Contrato Social. São Paulo: Saraiva, 2011.

PS: Resolvi acrescentar as palavras do Pedro Debs Brito no Facebook, para enriquecer ainda mais este texto:

" E se puder adicionar algumas poucas palavras, essas seriam as seguintes: do Riobaldo, lá do grande sertão: "este mundo é muito misturado" e aí uma consideração do Edgar Morin, filósofo: o ser humano é complexo, do sentido original do termo, complexus significa aquilo que é tecido junto; tece e entretece... são os vários fios e as diversas partes que se unidas formam uma casca. Dessa maneira a questão pra mim se concentra no olhar; ou melhor, na forma como olhamos. Se buscarmos olhar de uma maneira compreensiva, de natureza complexa, conseguiremos - acredito eu - enxergar melhor, não enxergar mais, mas enxergar melhor. Ter em conta que não olhamos coisas, mas pessoas, fenômenos dinâmicos e nada integrados: ao contrário, espalhados. "Vou mostrando como sou, e vou sendo como posso. Jogando meu corpo no mundo, andando por todos os cantos e pela lei natural dos encontros: eu deixo e recebo um tanto" disseram os Novos Baianos.

Tudo isso pra dizer que vejo que somos feito casca de nozes compostos por diálogos infinitos e compreensões plurais; são essas coisas que ficam em nós das nossas relações que formam nossas identidades (no plural mesmo)."

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

O eterno retorno como alegoria e como ferramenta do auto-questionamento

“E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: ‘Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes: e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indivisivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e sequência – e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio. A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez – e tu com ela, poeirinha da poeira!’ Não te lançarias ao chão e rangerias os dentes e amaldiçoarias o demônio que te falasses assim? Ou viveste alguma vez um instante descomunal, em que lhe responderias: ‘Tu és um deus e nunca ouvi nada mais divino!’ Se esse pensamento adquirisse poder sobre ti, assim como tu és, ele te transformaria e talvez te triturasse: a pergunta diante de tudo e de cada coisa: ‘Quero isto ainda uma vez e inúmeras vezes?’ pesaria como o mais pesado dos pesos sobre o teu agir! Ou, então, como terias de ficar de bem contigo e mesmo com a vida, para não desejar nada mais do que essa última, eterna confirmação e chancela?” (aforismo 56 – Gaia Ciência – Nietzsche).

Olá!
Em geral, as redes sociais são permeadas de besteiras, mas tem seus lados agradáveis também, dispondo ao pretenso filósofo várias oportunidades de ostentar (tal qual uma passista na escola de samba) seus bandeirosos conhecimentos. Dia desses, estava pululando prá lá e prá cá em uma delas e deparei com um comentário de uma amiga chamada Eliana, que dizia o seguinte: “Quem nunca se imaginou voltando ao passado e fazendo sua vida de outra maneira?”. Não titubeei nem por um segundo e tasquei o famoso aforismo nietzschiano reproduzido acima, na íntegra, que é o axioma de sua doutrina do eterno retorno, uma das mais conhecidas.


Já tratei de Nietzsche por aqui, quando tratei do tema dos feriados sem significado, e também já falei do eterno retorno, que não é uma criação do bigodudo, mas dos estóicos. No entanto, como tenho percebido que o tema é tratado por alguns de forma quase mística e esotérica, colocando o nosso caríssimo filósofo e filólogo alemão em uma espécie de altar (o que, creio eu, desagradá-lo-ia bastante), achei por bem dar uma pincelada um pouco mais apurada nessa doutrina, para que meus leitores possam discutir comigo qual é a extensão de sua validade.
Quando começou a escrever, Nietzsche já era um leitor de Schopenhauer, o filósofo do pessimismo (de quem já falei aqui). O núcleo de sua filosofia voluntarista era a centralização da vontade como entidade única e inobservável, e da representação que cada um tinha dela. Se relembrarmos de Kant, veremos que o mundo é dual: temos a coisa-em-si, identificada com a essência, chamada de noumeno, e as coisas em suas contingências e acidentes, chamadas de fenômenos. O que está disponível para nossa percepção são apenas os fenômenos, as coisas tais como são apresentadas a nós, porque apenas podemos apreender através dos sentidos. Explicação ultra-rápida: não temos como visualizar a essência do céu, por exemplo; o que enxergamos são aspectos circunstanciais dele – límpido ou nublado, claro ou escuro, estrelado ou vazio. Schopenhauer identificou o noumeno kantiano com a vontade, e os fenômenos com as representações.

A vontade (que mais tarde Freud identificou com as pulsões e os desejos) era o motor do mundo, incessante, inesgotável, eterna. Schopenhauer tirou da razão o estatuto de identificador humano prioritário e a arrancou dos pedestais. O verdadeiro comando, o verdadeiro guia era a vontade.

Tudo era movido por essa estranha entidade, mas como cada homem possui um conjunto orgânico próprio, um aporte intelectual exclusivo e uma história particular, a vontade era diferentemente manifestada para cada um deles. Então, esse mundo constituído em seu substrato pela vontade una, tomava diferentes aspectos e diferentes representações. Resumindo: a vontade é uma só, o que mudam são suas representações, já que estas são tomadas a partir de uma determinada e irrepetível perspectiva.
Só que a vontade não se exaure nunca. A cada vez que um homem a persegue e não realiza, se angustia. Por outro lado, se a vontade é realizada, imediatamente toma corpo outra representação, com um outro desejo, e também aqui surge a angústia. A vontade plena nunca se realizará, e o homem continuará eternamente a ser presa dela. Desta forma, a vida se torna vazia de sentido: é um eterno movimento entre as representações da vontade, que nunca é atingida, mas está sempre presente. A única alternativa é uma atitude ascética – um autêntico “não ligo”. E isso pode ser obtido através da contemplação artística, do isolamento, etc.

Nietzsche concorda com quase tudo o que teoriza Schopenhauer com relação à vontade, mas discorda em um ponto tão central que acaba por tornar sua tese totalmente oposta, que é sua perspectiva moral. Para ele, a vontade não tem esse aspecto negativo que fez pousar um urubu sobre a efígie do mencionado filósofo. Muito pelo contrário.
Para Nietzsche, a vontade é vontade de poder (ou vontade de potência, de acordo com alguns tradutores). E o que esse termo implica? Se para Schopenhauer a vontade é baseada em um instinto de auto-preservação, este só pode ser baseado no medo, e, consequentemente, na covardia e na apatia. Já se a vontade se baseia em um desejo ardente de se tornar sempre o maior, o melhor, o mais potente, o mais poderoso, ela naturalmente impulsionará o homem para além de si mesmo. Essa vontade de poder é ativa quando domina e quando resiste. Não só aquele que ataca a tem, mas também aquele que se defende renhidamente é movido por esse princípio. Dessa forma, a vontade de potência é chave da combatividade, da intensidade e do desejo de viver no mundo, e deveria fazer com que a vida dos homens fosse um paralelo com a vida dos animais: uma espécie de seleção natural com um adicional, onde haveria o domínio dos melhores, dos mais fortes, dos mais bem preparados, daqueles que fossem além de sua própria humanidade. A vontade de poder é uma busca pela superação dos limites.

Mas por que eu disse “deveria” no parágrafo anterior? Porque, segundo Nietzsche, há uma força em sentido contrário à vontade de poder que ele denominou “moral de rebanho” ou “moral de escravos”, cujo principal inoculador era a religião, em especial o Cristianismo. É um tipo de moral que subverte a ordem natural e inverte a plenitude obtida pelo forte. As chaves do sucesso para que os mais fracos consigam inverter os valores e colocar o forte na defensiva são exatamente aquilo que lhes restam de armas diante do inimigo melhor preparado: seu instinto gregário – o rebanho; e o seu discurso, a linguagem. Através dela, o rebanho fustiga aquelas qualidades que fazem com que o homem se sobressaia individualmente – que se destaque do rebanho. Tudo aquilo que não é encontrado no seio comum ganha um atributo de mau, perverso, demoníaco. Assim, a coletividade se sobrepõe ao indivíduo e o oprime, de modo a imputar o valor de mentira a tudo aquilo que lhe escapa. Por exemplo: dificilmente vemos alguma pessoa assumir que é ótima em uma determinada área. É raro alguém dizer: “Sou bom músico”, “não conheço ninguém que faça poemas como os meus”, “sou fera no meu trabalho”. As pessoas se trancam em uma humildade irreal, e dizem: “Eu me esforço”, “meu trabalho não seria nada sem ajuda”, “dou o melhor de mim”, “é um dom que me foi dado”. Reconhecer-se a si mesmo como bom é ruim, é tido como arrogância, como imodéstia. Essa construção do rebanho impede que o indivíduo colocado em relevo seja tido como coisa boa, e este se sente culpado por aquilo que ele tem de melhor, e tende a se igualar ao rebanho como um todo. Torna-se um ser humano comum, como qualquer outro; não se diferencia de um animal como outro qualquer, como a ovelha no rebanho.
Nietzsche propõe o eterno retorno como metáfora para que o indivíduo avalie se sua vida vale a pena. A pergunta é simples, e tive a oportunidade de fazê-la em classe, quando estava substituindo o professor Arnaldo Zaki na ETE Carlos de Campos: você está satisfeito com a sua vida? Você certamente gostaria de renascer após sua morte, mas você gostaria que ela fosse absolutamente idêntica ao que ela foi até hoje? A resposta foi uma surpreendente unanimidade: não, ninguém gostaria que suas vidas fossem idênticas ao que já tinham vivido. Uma menina inclusive disse que, se fosse para assim ser, preferiria que a vida não se repetisse.

Pois é exatamente esse ponto que Nietzsche quer tocar. Os homens SUPORTAM suas vidas, quando deveriam, na verdade, amá-las. Deveriam pautar sua existência em realizações nela própria, ao invés de esperar pelos prêmios de uma suposta vida futura. Nietzsche aceita com regozijo e sobrevaloriza exatamente aquilo que Schopenhauer amaldiçoa e que as religiões ensinam a aceitar compassivamente: amor fati, o gosto pelo destino, seja da maneira que vier, como consequência de nossos atos, como casualidade inevitável, como o destino trágico que o herói grego sofre. Portanto, o eterno retorno não é um dogma de equilíbrio do universo como imaginavam os estoicos. Em Nietzsche, ele está mais para uma alegoria, como é o mito da caverna platônico, e que serve para indicar um caminho para a constatação do que estamos fazendo de nossas vidas, um exame de consciência que permite estabelecer se nossa existência vale a pena ser vivida.
Não vou, neste momento, fazer juízos de valores sobre estas ideias de Nietzsche, bastante controversas, por sinal. Muito já se reclamou da sua doutrina da vontade de poder, principalmente por causa da expansão do nazismo, mas é precisa advertir, antes de mais nada, que seu uso é indevido. Vontade de poder é uma guerra de equilíbrios universais que transcendem motivações meramente políticas, que está presente em qualquer situação de confronto, vinda de ambos os lados, desde uma onda que colide na rocha e esta resiste, até a mais elaborada criação humana e seus paradoxos intelectivos.

Recomendação de leitura:
A maior parte do que me concentrei em explanar neste texto encontra-se n’ A Gaia Ciência, livro que já recomendei anteriormente. Por esse motivo, vou recomendar outro livro, que trata com mais afinco da doutrina da moral de rebanho.

NIETZCHE, Friedrich. Genealogia da Moral: uma polêmica. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Sobre o modo como o Black Sabbath usa os demônios para colocar o dedo nas nossas feridas

Olá!

Quando eu era menino novo, morava junto dos meus primos em uma casa velha da Vila Ema. Isso era nas décadas de 70 e 80. Para situar um pouco meus leitores no tempo, naquela época a hoje Avenida Luiz Ignácio de Anhaia Melo (conhecida pelo intenso comércio de veículos usados) era um longo rosário de chácaras, serpenteado em seu meio pelo então descoberto e já mal cheiroso Córrego da Moóca. Meu primo mais velho e compadre, infelizmente in memorian, tinha alguns discos de hard rock, que costumava colocar em volume considerável, e que contrastava com o então em voga John Travolta e seus meneios e visagens disco.
Não tínhamos uma rádio lendária como a Eldopop em São Paulo (somente na segunda metade da década de 80 surgiram a rádio 97 de Santo André e a ilegal Ladrão do Mar, com programação voltada exclusivamente para o rock – a 89 veio um pouco depois), os lançamentos de discos tinham uma diferença de meses ou anos entre o exterior e aqui (isso quando eram lançados) e baixar música... Bom, isso não existia nem em sonho, nem nos mais otimistas prognósticos. Shows de artistas internacionais era outra coisa impossível, porque os pobres tupiniquins não faziam parte do roteiro das turnês. Malemá me lembro das passagens do Queen, do Van Halen e do Kiss. O Brasil só começou a entrar na rota dos grandes eventos a partir do Rock in Rio, de 1985. Por conta disso, o grande intercâmbio se dava pelo trânsito das fitas cassete e rodízio de LP’s feito entre os amigos. Desta forma, tomávamos conhecimentos dos lançamentos, das novidades e das notícias de uma forma que se aproximava da tradição oral, tão cara aos nossos antepassados. Lojas de disco que traziam novidades, como a Woodstock ou algumas pérolas da Galeria do Rock viviam lotadas até a tampa.
As coisas eram um pouco diferentes do que são hoje em dia. Costumávamos acompanhar o mais de perto possível a carreira de nossos ídolos, mas sem se importar com detalhes tão pessoais, como as cores preferidas, as boutiques mais frequentadas e outras efemérides. O que importava mais eram as tendências que cada álbum seguiria, o acolhimento das excursões, as datas dos próximos lançamentos. Tanto fazia se guitarrista tal era homossexual, se baixista X era religioso ou se baterista Y traía a mulher. O que mais importava era o produto entregue. Mas era possível detectar algumas características comuns e algumas sutilezas que diferenciava determinada banda de todas as outras.
Havia um tripé que sustentava toda a cena hard rock de então: Led Zeppelin, Deep Purple e Black Sabbath. Do primeiro, tínhamos as raízes blues e o misticismo contrapostos a uma seção rítmica poderosa. Do segundo, um ar mais de pesquisa (era o única das três que tinha um tecladista de ofício, o excelente Jon Lord) e velocidade. Do terceiro, a atmosfera macabra e o peso, digno de estourar crânios. Ao todo, em suas formações clássicas, eram treze músicos, doze deles exímios. O único que não era um virtuoso executor era o Ozzy Osbourne. Mas, longe de qualquer dúvida, era o mais essencial de todos, porque sintetizava todo o pensamento daquela juventude que aflorou nos fins da década de 60. E esse era permeado pela revolta e pela violência.
O que tínhamos naquela época? Um mundo na premência da guerra. Lembremo-nos que aqueles eram os anos do pós-guerra mundial e da guerra fria. Estados Unidos e União Soviética espalhavam seu imperialismo pelo mundo e colocavam a humanidade sob constante ameaça de um combate nuclear. Eram tempos da guerra do Vietnã em pleno curso, onde milhares de soldados foram enviados a uma terra totalmente desconhecida, onde um povo absolutamente distinto procurava dar um rumo para a sua vida. Eram os anos do apartheid, e a minoria branca não só exercia o poder discricionariamente, mas também transformava a África do Sul em um imenso gueto.
Uma boa parte da juventude, na verdade a esmagadora maioria, era contrária à guerra. A luta entre os sistemas gerava um sentimento de medo e vontade de fuga, e nasce com isso uma série de movimentos de contestação, dos quais os hippies provavelmente foram os mais conhecidos.

Acontece que os hippies eram movidos por um pacifismo que chocava pelo comportamento coletivista, pelo sexo livre e pelo consumo de drogas, mas ainda não havia chegado ao âmago do stablishment. Flower Power significava um desejo de paz e liberdade, mas não era uma denúncia aberta; era uma fuga, um não-enfrentamento. Faltava algo mais.
Quando o Black Sabbath resolveu falar de inferno e de demônios, acabou atingindo a base da construção moral da ocidentalidade, e atirou na cara dos senhores da guerra que a sua atitude belicista era algo que gerava contra si mesma as armas erigidas por seus maiores medos. Os demônios, nesse libelo acusatório, nada mais são do que metáforas e consequências deste modo de agir, mas que incomodam demais. Vejam o que diz uma parte da letra de Wicked World:

“The world today is such a wicked thing
Fighting going on between the human race
People give good wishes to all their friends
While people just across the sea are counting the dead”

Traduzindo…

“O mundo hoje é como algo perverso
A luta continuará entre a raça humana
As pessoas desejam boa sorte para todos os seus amigos
Enquanto as pessoas do outro lado do mar estão contando os mortos”

A atitude da sociedade ocidental é paradoxal, e o Sabbath deixa isso claro. Enquanto apregoa uma religião judaico-cristã que se baseia na tríade fé, esperança e amor, também lança bombas, napalm e agente laranja na cabeça dos coreanos e vietnamitas. E tomam um cacete exemplar. Essa mesma filosofia religiosa garante punição ao mal, e mesmo que a manutenção do sistema sangrento seja justificada como uma defesa da própria vida, lá no seu íntimo sabe-se que haverá uma penalidade a ser remida. Esse fardo era pesado de arrastar, e o Sabbath soube compreender e explorar isso.
Mas o fato é que a sociedade ocidental, ao menos no que se refere a uma visão global, funcionava bem. Tanto é verdade que ela existe até hoje, talvez com uma ferocidade mais dissimulada (mas não extinta – que se lembre rapidamente da invasão do Iraque). Isso quer dizer que tanto o pacifismo do flower power quanto a ferocidade do Sabbath estavam errados? Eram, de fato, desajustados sociais que não compreenderam o funcionamento da máquina política? Hmmmmm... Vamos ver. E, para ver, vamos convocar Erich Fromm, que manjava bem dessas coisas.

Erich Fromm era um psicanalista alemão que divergia em alguns pontos do grande mentor desta ciência, Sigmund Freud, e que trazia uma inédita visão marxista sobre a psicanálise. Ele acreditava que a grande contribuição de Freud foi a descoberta do inconsciente, mas que tal descoberta se deu de maneira limitada. Isto é algo típico do desenvolvimento de novas ciências, mas o ideário freudiano foi tão encantador que seus seguidores tiveram dificuldade em confrontá-lo. Já tematizei a questão da consciência freudiana por aqui, mas vamos fazer uma rápida retomada. A mente humana opera em três níveis de consciência, chamados de instâncias: o id irracional, o ego consciente e o superego censurador. O primeiro e o último se opõem radicalmente. Enquanto o id é a sede dos instintos e das reações imediatas, o superego é constituído pelas amarras morais que refreiam as ações instintivas. Para Freud e seus seguidores, esta disposição mental, quando em desequilíbrio, denota o transtorno do indivíduo.
De forma mais ou menos intensa, Freud e seus seguidores acreditavam que a sociedade tinha mecanismos de acomodação que faziam com que suas virtudes fossem exaltadas e seus defeitos amainados. O que provava essa tese era o fato de que, de uma forma ou de outra, a sociedade funcionava de maneira adequada: havia uma ordem estabelecida, existiam regras nas relações e seus componentes sabiam razoavelmente bem os scripts a serem seguidos para viver sob sua égide. E aí surgiam aqueles indivíduos que não se enquadravam adequadamente a esses esquemas, e temos com isso os desajustados – os criminosos, os mendigos, os neuróticos – sendo que esses últimos interessavam grandemente à psicanálise, incluindo aí o estudo sobre os seus desajustes ao chamado “mundo normal”. O ego destas pessoas não conseguia equilibrar os limites impostos ao superego pelos mecanismos sociais. Ou seja, tentava-se responder à seguinte pergunta: Por que há indivíduos que fogem de um determinado padrão social?

Fromm foi radicalmente contrário a essa visão. Para ele, a existência de indivíduos desajustados não denota simplesmente um erro pessoal, mas uma doença da sociedade: ela não deve prover e se preocupar unicamente com as necessidades físicas do cidadão, mas também suas necessidades psíquicas. Os homens não tem sua consciência formada de modo meramente biológico, comprimida pelo instinto de preservação e pelo imperativo dos instintos sexuais. Por consequência, Fromm entende que a psicanálise, como praticada até então, era mecanicista e determinista, além de não se prestar a esclarecer nada sobre a psicologia dos grupos, das etnias, das comunidades.
Para dar conta desta última característica, Fromm acreditava na existência de um influenciador de atitudes, que era o inconsciente social. É uma forma aproximadamente semelhante ao inconsciente coletivo preconizado por Jung (do qual falei neste post), ou seja, existe um tipo de estrutura mental que atinge as pessoas coletivamente, extrapolando os limites dos indivíduos. A diferença básica entre os dois tipos de inconscientes é que no coletivo temos estruturas universais e permanentes, denominadas arquétipos, enquanto no social o que temos é a repressão de partes da consciência pela própria sociedade, causadora de alienação. E uma diferença consequente é que os arquétipos são muito mais difíceis de florescer na consciência, porque são atávicos e inerentes à espécie, enquanto a alienação é mais fácil de ser trazida à consciência e combatida, como todo bom marxista acredita.

Mas como o inconsciente social se forma? Os homens se relacionam entre si e com o mundo com diferentes níveis de interesse. Fazem-no para obter conforto, proteção, afeto, segurança e outros. Neste ciclo, alguns indivíduos revelam-se mais aptos ao exercício do poder e passam a formar um comportamento em que as atitudes prejudiciais a eles passem a ser reprimidas. Essa repressão se expande e se torna tão habitual que passa a ser interiorizada e recalcada, de modo que as pessoas adotam hábitos que nem sabem mais por que o fazem. Qualquer semelhança com a teoria da alienação de Marx não é mera coincidência. Fromm a estendeu ao mecanismo psíquico, nada mais que isso.
Só que esse inconsciente não está em um nível tão profundo quanto o inconsciente individual ou o coletivo. Isso porque há transformação de interesses e um impulso a se formar novos inconscientes sociais, o que faz com que os indivíduos consigam reagir. É aí em que enquadramos a revolta tipicamente juvenil, que, via de regra, se volta contra os pais, porque são estes a porta de comunicação com a sociedade como um todo. Os mecanismos que preenchem o superego não são constituídos meramente por influência dos pais. Estes são apenas os vetores de uma construção social. São os agentes autorizados pela sociedade a impor as rédeas comportamentais.

Desta forma, toda atitude de confronto com os pais não está conscientemente voltada contra eles. A reação é contra a sociedade, e é possível investigar e mensurar o quanto a própria sociedade é adoecida. Um jovem tem os pais como parâmetro, mas estes são também um produto social. Quando a menina quer colocar um piercing ou o rapaz quer fazer uma tatuagem (bom, isso já nem é mais uma contestação – já é uma moda) para contrariar os pais, querem na verdade contrariar a sociedade inteira. Quando o Sabbath ou outra banda qualquer grita nomes de demônios e profere sacrilégios, na verdade contestam os estados de coisas vigentes e buscam uma quebra da aceitação cega dos ditames de uma sociedade que, na sua concepção, é injusta. E quanto mais neuróticos existem em uma sociedade, mais ela é doente, porque deixa de atender uma determinada camada populacional em seus anseios e expectativas a ponto de causar um desequilíbrio emocional a um número significativo de componentes. Não é a toa que a reação da crítica na época foi a de considerar sua obra como música feita por e para macacos.
Por fim, devo dizer que, no começo de outubro, fui ao show do Black Sabbath realizado no Campo de Marte. Olha que gracinha o ingresso:



No geral, alguns problemas sérios: o local não tá legal prá receber shows dessa monta. Milhares de morrinhos impediam que as pessoas se espalhassem uniformemente, o que dificultou a vida de pessoas de estatura mediana, como eu. A abertura foi feita pelo ótimo Megadeth, digno de uma turnê como atração principal – lembrando que não é vergonha nenhuma para qualquer banda, mesmo medalhões como o Metallica e o Anthrax, abrir uma apresentação do Sabbath. O som, nesta parte do show, estava vergonhoso. Parecia uma mistura de Olodum com aqueles festivais de taikô tão comuns nos eventos japoneses, tal era a altura do som dos bumbos. O baixista poderia sair confortavelmente para tomar uma boa quota de cervejas que ninguém iria perceber. Mas na hora do “vamuvê” estava tudo em seu devido lugar (os caras da mesa devem ter sido trocados, graças a Deus). Não é a toa que os caras chegaram onde chegaram.
É bem verdade que faltaram vários clássicos no repertório. Músicas como a precitada Wicked World, Supernaut, The Warning, The Wizard, After Forever, Sabbra Cadabra, alguma coisa do Sabotage, como Sympton of the Universe e Hole in the Sky, além de muitas outras, poderiam ter sido encaixadas, mas creio que já seria muito para a garganta bastante dilapidada do malvadinho Ozzy. Mas não deixou de ser uma catarse aquela reunião de vovôs despirocados com a rapaziada sedenta pela busca dos ídolos que lhes faltam hoje em dia (Fui no show com meu filho e minha nora). Vão ser bons assim lá no inferno!

God bless you!


Recomendações:
A primeira e mais essencial: Não morram sem ver um show do Sabbath. Quer dizer, isso se os caras não morrerem primeiro e vierem novamente para o Brasil.

 
Quanto a Erich Fromm, sua obra é vasta. Mas como tocamos no tema do inconsciente social, deixo como dica uma obra póstuma, composta de uma série de textos coligidos em torno do tema.
FROMM, Erich. A descoberta do inconsciente social. São Paulo: Manole, 2011.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Sobre textos bem decorados e a correspondência entre frase e fato

Olá!

Nos últimos tempos, tenho feito um trabalho com um grupo cujas atividades incluem algumas pequenas incursões teatrais amadoras. Nenhuma pretensão a enraizar nessa nobre arte e sair em turnê pelo mundo afora, mas sim de exercitar um pouco nossa capacidade de articular textos e de dar nossa interpretação sobre eles. A coisa é verdadeiramente simples. Para se ter uma ideia da despretensiosidade da proposta, resolvemos encenar um singelo auto de Natal, história conhecidíssima. Texto pronto, papéis atribuídos, roteiros distribuídos e o verdadeiro drama: decorar as falas. Meu Pai do céu!
Tem alguns anos que eu não consigo lembrar nem o nome da minha rua (flagrante exagero) e o número onde habito (isso é verdade!). Consigo, é bem verdade, compreender adequadamente um texto e interpretá-lo a minha moda. Faço isso desde priscas, militares e ditatoriais eras, quando procurava mais entender um texto do que fotografá-lo. Isso me gerou algum problema com professores que queriam descrições ipsis litteris, mesmo que as respostas estivessem corretas (e ainda tem gente que diz que AQUELES eram bons tempos... ),  mas no caso do texto cênico a decoreba é essencial.  Muitas falas são motes para a entrada de cenas, para outras falas, para início ou término de ações. Em resumo, é necessária uma disciplina e memorizar o texto é, para a minha aflição, obrigatório.

Andei buscando alguns métodos para entender como os atores conseguem guardar textos por vezes longuíssimos, como é o caso dos monólogos As mãos de Eurídice, de Pedro Bloch e a Valsa nº 6, de Nelson Rodrigues, mas não achei nada muito mais produtivo do que as recomendações de ler, reler e reler, se possível em voz alta. Houve um único conselho que me chamou verdadeiramente a atenção, mais por curiosidade do que por correção metodológica. Indicava um sistema em que se deveriam sublinhar palavras chaves no texto e associar estas a algum objeto concreto. Algo como pegar a seguinte frase...
“E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música.” – Nietzsche
... e transformá-la em figuras. Então eu pego os elementos mais importantes da frase e vou atribuindo objetos para eles: ”E aqueles que foram visto dançando”, penso em uma dançarina; “foram julgados insanos”, lembro-me de alguém em camisa de força; “por aqueles que não podiam escutar música”, imagino um velhinho com uma corneta acústica. Junto as três definições em uma sequência correta e pronto – decorei minha frase.

Não testei o método. Parece que ele pode ser eficaz apenas em orações curtas, já que em uma longa sequência seria mais difícil de lembrar dos objetos do que da fala em si. Talvez não tenha o compreendido direito, mas me interessei pela exposição. Afinal de contas, de modo rudimentar, ele trabalha com a associação de imagens mentais, ou seja, tendemos a formar um ambiente completo em nossas cabeças diante de um relato, por exemplo. Imaginamos uma determinada situação pegando elementos espalhados em nossa memória, já que não estamos diante do fato descrito, e essa característica nos permite compreender fatos passados ou longínquos, distantes de nossa presença, seja física, seja temporal. É como se nossa mente fosse capaz de desenhar as situações que lhe são apresentadas.
Taí, lembrei de Wittgenstein...

Ludwig Wittgenstein foi um filósofo austríaco que se ocupou principalmente da linguagem e de sua relação com o mundo ao redor, ou seja, em sua capacidade de representá-lo. No seu entendimento, os limites do mundo são idênticos aos da linguagem, porque sem essa identificação não há como se atribuir significados.
Wittgenstein apresenta-se a nós carregando duas dificuldades: a primeira é a própria constituição de suas teorias de linguagem, bastante complexas e herméticas. E a segunda é o fato de que ele é seu principal crítico. Ele mesmo se encarregou de destruir suas teses. Por isso, falamos em um primeiro e em um segundo Wittgenstein. Para não tornar este texto muito longo e sacal, vamos nos dedicar mais ao primeiro. Vamos apenas pincelar o segundo, e tratar dele com mais profundidade em momento oportuno. Andiamo.

O processo de funcionamento da linguagem, para nosso caro austríaco, possuía um encadeamento lógico semelhante ao que acontece com a própria realidade. Mais ou menos assim: Temos uma cidade física, e temos sua representação, que é um mapa. A ideia do mapa é transpor em dimensões manuseáveis algo que é muito maior que ele próprio – a área da cidade que representa.  Como o mapa segue a mesma lógica da constituição física da cidade, contendo as ruas, as praças, os semáforos, as mãos de direção, os pontos turísticos, os meios de transporte, os serviços públicos e assim por diante, tendo como diferença unicamente a sua escala, então essa representação é adequada, e por isso conseguimos nos guiar pelas ruas, vielas e becos através dessa miniaturização. O mesmo se aplica no caso de uma paisagem que é representada por uma foto; a foto não é a própria paisagem, mas possui o mesmo esquema lógico: em ambas há o sol, as montanhas, as praias, as construções, a noção espacial e climática, e assim por diante. Portanto, através da foto eu consigo refletir adequadamente a paisagem, e posso deduzir se será um bom lugar para viajar ou se será uma belíssima roubada.
A grande sacada de Wittgenstein é que esse processo se repete também entre fatos e palavras: é a teoria pictorial da frase, ou teoria pictórica do significado, dependendo do tradutor. Para ele, a linguagem se estrutura e se codifica de modo a reproduzir simbolicamente, com a maior exatidão possível, os entrelaçamentos lógicos do mundo que busca representar. Então, temos o seguinte: se eu vejo um vagalume na janela, tenho diante de mim um fato concreto. Para transformar esse fato concreto em linguagem, opero mentalmente por substituições – vejo aquele bicho com uma luz no traseiro e aplico-lhe um nome: vagalume. Também observo a estrutura montada na parede e a nomeio “janela”, e assim sucessivamente. Ao cabo do processo, tenho uma situação totalmente codificada em palavras, e estas palavras conseguem fazer com que se desenhe mentalmente todo esse quadro. Se eu digo a alguém que vi um vagalume na janela, essa pessoa consegue também ela desenhar mentalmente essa paisagem, mesmo que não a presencie. Exatamente porque a linguagem possui a mesma estrutura lógica do fato.


A frase é, portanto, algo como a miniatura do fato, da mesma forma que o mapa é a miniatura da cidade, e a foto é a miniatura da paisagem. Uma palavra não diz; uma palavra mostra. Essa é a chave da teoria de Wittgenstein. Absolutamente sensacional.

(Achei então que, tendo isso em mente, conseguiria um pouco mais de facilidade para decorar textos, sendo que a linguagem é a descrição de fatos. Na verdade, essa memorização exige uma leitura completa, para estabelecer os contextos que rodeiam tais fatos e sua correta pontuação e enfatização. É necessário que haja o maior número possível de elementos para que as palavras possam desenhar o quadro completo, e a cada nova leitura é possível agregar novas nuances. Claro que há fatos mais marcantes que outros, e isso facilita deveras a memorização. É como observar a sua sala de casa. Há nela um sofá, uma televisão e um quadro na parede.  Este sofá pode estar arrumado ou bagunçado; a televisão pode estar ligada ou desligada; o quadro pode estar um pouquinho torto ou perfeitamente reto. São circunstâncias prosaicas, que não afetam nossa percepção. Se quando acordo o sofá está arrumado e à noite bagunçado, provavelmente terei dificuldade de perceber a mudança. Agora, se por ventura o sofá não estiver mais lá, aí sim perceberei a alteração e lembrarei com facilidade que ele estava presente pela manhã. Se houver um quadro novo, é a mesma coisa. Se a televisão cair em cima de mim quando eu passar, mais ainda me darei conta de sua presença. A existência desses objetos são fatos, basta que eu os marque bem para otimizar minha recordação. Talvez isso possa me ajudar na decoreba).

Se parássemos por aí, teríamos uma bela descrição do funcionamento da linguagem. Só que a filosofia de Wittgenstein é muitíssimo mais complexa. Não é qualquer frase, nem qualquer ideia que pode ser aplicada à teoria pictórica do significado. Somente às proposições essa regra pode ser aplicada. Vamos trocar em miúdos.
O que é uma proposição? É a descrição de um fato. Não importa se ele é verdadeiro ou falso. O que importa em uma proposição é que ela declare algo sobre alguma coisa. Um exemplinho: “Este texto é longo”. Nesta frase, podemos concluir que há verdade ou falsidade, atribuindo-lhe um valor. Ou seja, se é possível afirmar que uma declaração é verdadeira ou falsa, podemos chamá-la de proposição. Além disso, uma proposição não tem meios-termos – ou ela é verdadeira, ou é falsa. Não há um terceiro status.

Como a qualquer fato existe uma correspondência linguística com uma proposição, Wittgenstein entende que a totalidade das proposições verdadeiras corresponde à totalidade da ciência natural. As proposições vão se entrelaçando umas nas outras, tornando-se cada vez mais complexas, da mesma forma que o desenrolar dos fatos vão se ampliando cada vez mais. Os limites da linguagem, por extensão, são os limites do mundo. Isso se torna um grande problema quando saímos da esfera empírica e científica e tentamos mergulhar em questões como a ética, a estética e a religião. Como pode, por exemplo, a linguagem dar conta de algo que não possui correspondência com um objeto a ser descrito? Para ele, todas essas questões são absurdas. E o que é mais interessante: não são absurdas porque não existem, mas porque a linguagem não dá conta de representá-las. Por isso, sua famosa frase: “Sobre o que não se pode falar, deve-se calar”.
Há ainda outro aspecto. O nome dos objetos, as perguntas e as frases imperativas não são proposições. Os nomes sozinhos não conseguem compor uma asserção completa. Se eu digo “futebol”, não estou dizendo nada de significativo; se digo “gosto de futebol”, aí sim há algo a ser analisado. As perguntas também não possuem sentido lógico, já que elas nada afirmam sobre um fato, apenas levantam um questionamento. Já as orações do modo imperativo exprimem pedidos, ordens, conselhos, e não podem ser tomadas com valor de verdade ou falsidade. Se eu digo, por exemplo: “Por favor, apague a luz”. Há como atribuir um valor de verdade para essa frase? A resposta é não. É um pedido que pode ou não ser atendido, mas é absurdo dizer se meu pedido é verdadeiro ou falso. Isso porque não é possível reduzi-lo a uma fórmula lógica.

Em sua segunda filosofia, Wittgenstein assume uma postura crítica com relação às suas deduções descritas no Tractatus. Diz que se encontrava em completo engano, e que sua tentativa de descrever a linguagem estava fadada ao fracasso, principalmente por haver descoberto que não existia apenas uma linguagem, mas um conglomerado delas, que se relacionam na forma de jogos. Mas esse é tema, como falei anteriormente, para outro texto.

Recomendação de leitura:
O Tractatus é a grande obra do Wittgenstein da primeira cepa, do qual falamos neste texto. É um livro curto e intrincado, mas, se bem compreendido, encantador.

WITTGENSTEIN, Ludwig. Tractatus logico-philosophicus. São Paulo: Edusp, 2001.

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Discussões sobre nossa capacidade de legislar adequadamente sobre a maioridade penal

Olá!

Nos últimos tempos, estamos assistindo uma nova onda de debates sobre a redução da maioridade penal em nosso país. Isso se deve à utilização cada vez mais frequente de menores de idade na execução de crimes violentos por motivos totalmente fúteis, como foi o caso de um rapaz que foi assassinado em um roubo de celular, por uma pessoa a poucos dias de completar 18 anos. A fórmula é simples: como a pena destinada ao menor de idade é muito mais modesta que aquela imputada ao adulto, o “menino” é colocado nos bandos para receber as culpas mais escabrosas, sendo-lhe atribuída a liderança da quadrilha, o porte da arma ou do entorpecente, o tiro fatal, etc.
País estranho, esse tal de Brasil. Há um bom tempo os índices de desemprego são baixos (os economistas consideram que um índice de 5% de desempregados representa a circulação normal de empregados de um país – é o que se chama de “pleno emprego”), há programas de redistribuição de renda e a economia como um todo não vai mal, mas os índices de violência teimam em não baixar, até mesmo pelo contrário. É preciso procurar outros motivos, porque o buraco parece ser bem mais embaixo.

Bem recentemente, deparei com uma frase pichada em bom português no muro que fica de frente onde moro: “Enquanto não houver justiça para os pobres, que não haja paz para os ricos”. Frase boa, perdida em meio a outras garatujas ilegíveis. Inteligente, ameaçadora, e que lembra os protestos estudantis de 1968 espalhados pelo mundo. E, no final das contas, é mais verdadeira que as questões colocadas sobre qual a idade ideal para se punir.
A redução da maioridade pena de 18 para 16 anos é uma das balelas mais estúpidas que ouvi nos últimos tempos, e é elemento representativo da crise intelectual que grassa e desgraça em nosso país. É uma cortina de fumaça que parece destinada a ocultar quatro fatos fundamentais que são ainda mais feios de se observar: nossa indefinição política, um sistema prisional medieval, órgãos de coerção ineficientes e especialmente um ethos adoentado. Vamos tratando de cada um, aos poucos e não necessariamente nessa ordem.


Para entender porque reduzir a maioridade penal é algo ineficaz e perigoso, vamos pegar alguns conceitos do brilhante educador suíço Jean Piaget, o principal papa da escola construtivista da aprendizagem, através de sua teoria da epistemologia genética. Antes da gênese do ideário piagetiano, a psicologia da educação dividia-se basicamente em duas correntes: a visão inatista, que via os processos de aprendizagem como algo hereditário e dependente exclusivamente da capacidade individual, o que explicaria as diferenças de desempenho entre duas pessoas expostas à mesma fonte de conhecimento; e a visão ambientalista, onde se cria que o conhecimento é derivado direto da experiência com o ambiente com o qual se vive, o que explicaria a diferença de aptidões a certas atividades entre os indivíduos. Piaget concorda com ambas, mas não de maneira isolada. Na verdade, elas interagem entre si e se complementam. Desta forma, a criança traz em si um conhecimento que herda e agrega à experiência que obtém do seu ambiente e de seus relacionamentos. A argamassa que solidifica essa construção é a maturação.

O que significa a maturação? É a capacidade de tornar cada vez mais sofisticados os processos de ligação do ambiente que nos rodeia com o nosso aporte cognitivo. Isso se dá aos poucos, na medida em que adquirimos experiência e aperfeiçoamos nossos esquemas mentais. Para citar um exemplo, uma criança muito nova aprende o que é um cachorro, definindo-o através de poucos parâmetros, como o fato de ter pelos e quatro patas. Qualquer outro animal que se encaixe nessa característica, seja um gato, seja uma vaca, seja um cavalo, é, para essa criança, um cachorro. Aos poucos, o contato com outros ambientes e pessoas agrega tijolos à construção, e a criança aprende a estabelecer diferenciações entre os animais de pelos e quatro patas. A aprendizagem é um processo constante de assimilação, acomodação e equilibração.

Na medida em que progride no seu processo de aprendizagem (e aqui não estamos falando apenas no ensino formal), o indivíduo muda de estágios de maturação. Piaget estabeleceu quatro deles:
- Sensório-motor: inicia-se com as ações reflexas típicas de um bebê, como o ato de chorar quando se tem fome, e vai evoluindo para o alcance de objetivos. O processo de absorção de informações e memorização é intenso nessa fase;

- Pré-operacional: intensificação do uso da linguagem e caráter egocêntrico. A criança tem dificuldade em compreender o ponto de vista do outro;
- Operacional-concreto: uso da lógica na resolução de problemas concretos, mas ainda sem compreensão plena da alteridade e com pouca capacidade para lidar com uma lógica abstrata;

- Operacional-formal: consegue lidar com a abstração. Adquire sentido de identidade, o que faz com que se situe no mundo e, consequentemente, lide com limites.
Pois então. Se compreendermos que as teses de Piaget são corretas, podemos começar a entender porque a redução da idade penal é inócua e até mesmo arriscada. A lógica que rege a utilização de jovens criminosos baseia-se, como já falei, em uma punição mais discreta ao menor. Um rapaz de 18 anos tecnicamente sabe usar um revólver, e um de 16 também, assim como um de 14 e até mesmo um de 12. Se hoje se utiliza alguém de 17 anos para servir de vidraça na consumação de crimes, utilizar-se-á alguém de 15 doravante, ora pois. Isso porque a lógica não muda, mui simplesmente. Continua existindo um determinado cidadão punido menos rigorosamente pela lei. E daqui a pouco teremos uma campanha para reduzir a idade penal para 14 anos, 12, 11, 10...

A brincadeira vai se tornando cada vez mais cruel porque, na medida em que se diminui a idade, aumenta-se a inconsequência derivada da falta de maturidade. Quanto mais nova a pessoa, menos critérios ela possui para deter seu dedo no gatilho, ou fazer outro tipo de bobagem. Corremos o risco de chegar ao ponto de atingir indivíduos que somente articulam bem no sentido concreto, e que tem maior dificuldade em lidar com a alteridade.
A solução? Claro que não há fórmula a seguir. Mas não há como fugir do questionamento incômodo: se o direito penal existe, pressupomos a existência da transgressão à lei. E é preciso pensar em como o brasileiro se coloca diante da lei, a maneira como se dá a relação da sociedade brasileira com suas disposições jurídicas. Mas é crucial que tentemos entender esse posicionamento para que possamos deduzir se é acertado ou não baixar a idade penal. E, no meu entender, não há motivos para otimismo.

Tenho percebido que há uma completa dissonância entre o que pensamos coletivamente e o que queremos individualmente. As pessoas em geral querem a aplicação de penas duríssimas para os transgressores da lei. Não se conformam com a progressão do regime, nem com a concessão de indultos. Também não costumam apreciar exclusões elitistas, como é o caso da prisão especial para as pessoas que possuem curso superior. Mas procuram salvaguardar um certo esquema de exceção, para quando elas mesmas, enquanto indivíduos, necessitarem da burla à legislação. A pena é dura para os outros, mas para mim ela deve ser amenizada, em uma explicitação de um processo de egoísmo. Pode parecer que a análise é um pouco pontuda demais, mas pense em pessoas que burlam o imposto de renda, que não respeitam vagas reservadas, que cantam o guarda para não aplicar a multa, que adiantam os minutos da zona azul, que se valem de aplicativos para celular para localizar blitzes, que multiplicam pontos de acesso de tv a cabo, que pagam um “quebra” para tirar a carteira de motorista, que mentem na renda para ganhar bolsa escola, que “perdem” a carteira de trabalho para não denunciar uma demissão rápida, que usam passe escolar no dia em que não tem aula, que marcam o ponto para os colegas e que pedem para que os colegas lhe marquem o ponto (o mesmo valendo para as listas de chamada das escolas), que subornam fiscais para aprovar os puxadinhos, que usam materiais do escritório em que trabalham nas suas casas; cadastramos apólices para pessoas mais velhas – com o objetivo de reduzir o valor do seguro, compramos produtos piratas e falsificados, baixamos músicas e filmes sem pagar direitos autorais, compramos atestados para faltar no trabalho, tungamos cinzeiros dos motéis, pegamos troco a mais e não nos manifestamos, pagamos oficiais de justiça para não nos achar, omitimos os defeitos daquilo que vendemos, fingimos dormir nos assentos reservados, e, principalmente, damos estatuto de otário para quem não se reserva o direito de transgredir (desde já excluo aqueles que transgridem para licitamente contestar uma situação de injustiça).
Tudo isso é relativamente comum, e é difícil atirar a primeira pedra, porque é improvável que nunca tenhamos cometido nenhum desses pecados. São todas pequenas indulgências que costumamos utilizar com a desculpa de que a sociedade é injusta. Mas o grande problema é que o brasileiro é desonesto no miúdo, em coisas onde não haveria a menor necessidade de sê-lo, e habituamo-nos a utilizar destes expedientes. Vivemos em uma cultura da vantagem que nos impede de enxergar claramente os limites de nossa ética social. Nosso modo de ser é um tanto distorcido, no que diz respeito ao viver democrático.

Uma boa parte disso se deve à indefinição dos rumos políticos adotados pela nossa sociedade. A mesma Constituição que defende a propriedade como um dos direitos fundamentais do cidadão também garante o acesso à moradia como direito social, para dar um exemplo entre tantos. Ora, são princípios discrepantes enquanto o Estado não garantir este último direito a todos aqueles que estão sob seu guarda-chuva. Não sabemos bem se vamos à direita ou à esquerda, e o resultado é que tanto aqueles que invadem edifícios sem uso quanto aqueles que querem ver salvaguardados seus direitos à posse e propriedade tem razão. Dessa forma, toda a sociedade se coloca em uma posição de confronto permanente, com cada classe erguendo suas bandeiras e suas indignações.
Essa contraposição é gênese de um mal que insistimos em não reconhecer como originário de nossa propensão à exclusão social: um sistema carcerário no qual podemos incluir qualquer qualificativo, menos o fato de ser eficiente. Também aqui temos uma visão dual e indefinida: não sabemos se queremos punir ou recuperar. Uma das tendências que dificilmente vemos ser assumida em público, mas que bombam nas redes sociais, é de ampliar o escopo punitivo, fazendo-se cumprir penas mais rigorosas, com um processo legal mais ágil e com menos benesses aos detentos. É a pena imputada como castigo e vingança – uma posição legítima como qualquer outra, desde que racionalmente defendida, o que é incomum. É mais corriqueiro vermos aqueles ambíguos arroubos de defesa da violência para combate da violência. Isto está na raiz das reações humanas porque a insegurança lida diretamente com nossa psique, perturbando-a. E isso gera indignações fáceis e mentirosas, como aquela que está famosinha no Facebook, que diz que todos os presos têm direito a uma bolsa de algo em torno de R$ 800,00 por filho (o valor varia). A informação é completamente falsa, mas como o ódio e o medo das pessoas está à flor da pele, elas replicam estupidamente essa mentira, sem se preocupar minimamente em conferir a sua veracidade, o que pode ser feito em segundos, nestes tempos de internet (veja este folheto do Ministério da Previdência explicando sucintamente como funciona o auxílio-reclusão – só os presos segurados têm direito, sendo que o cálculo do benefício é baseado no seu salário e possui um teto, que será dividido entre TODOS os seus dependentes).

Por outro lado, temos um discurso mais público, de que as instituições penitenciárias devem promover a reeducação e recuperação dos encarcerados. As condições sociais desfavoráveis acabam por empurrar o cidadão para o crime, e ele acaba não se tornando o único responsável por sua condição; por isso devem ser propiciados a ele mecanismos de reinserção, como a aprendizagem de um ofício, a paulatina redução de suas penas de acordo com seu progresso e et cetera. O busílis é que, aqui também, a sociedade e seus representantes eleitos não conseguem definir um rumo adequado, e com isso as penitenciárias são um misto de indutores da inutilidade e quarteis generais do crime organizado, como tão bem temos visto nos noticiários. O norte dado ao judiciário é desanimador, as leis são dúbias e já nascem com esse escopo. Fala-se muito: a polícia prende e a justiça solta. É fato, mas essa é a lei. A lei permite isso. A culpa não é nem da polícia, nem do judiciário. Penso que uma das piores causas do não arrefecimento da violência no Brasil está justamente no fato de que as regras penais não são claras, e isso permite que grandes criminosos estejam soltos, enquanto ladrões de galinha, que deveriam cumprir penas alternativas, sejam presos por bagatelas.

No final das contas, quem defende a maioridade penal aos 16 anos nada mais faz do que empurrar mais um contingente para esse sistema, sem solucionar o problema. Antes de se pensar nisso, é preciso ter um pensamento de duas vertentes:
- Evitar que as pessoas cheguem ao crime, e a chave disso é a presença do poder público onde ele é mais necessário;

- Para as pessoas que praticaram crimes, garantir que CUMPRAM penas, que conheçam com exatidão sua cominação e que os presídios sejam entidades de recuperação e integração.
Por estes motivos todos, penso em algo ousado: os órgãos judiciários devem ser providos de recursos (não apenas financeiros, mas de dispositivos legais) que se permita pensar em uma ação transformadora sobre o sujeito passivo em um processo penal. Que sejam disponibilizados assistentes sociais em número suficiente para descrever o ambiente em que vive o réu, suas dificuldades e limitações. O mesmo se aplique a psicólogos, para traçar perfis adequados, as angústias e expectativas dos detentos. Que sejam detectadas, através de especialistas vocacionais, as aptidões e conhecimentos dos acusados, para que o juiz possa decidir qual a instituição mais adequada a cada perfil. Que a educação profissional não se limite a “costura de bolas”, mas se volte à efetiva formação do detento. Que se formem convênios com empresas, se necessário através da concessão de incentivos fiscais, para que os ex-detentos tenham acesso a emprego, e que o juiz tenha suporte para decidir qual é a melhor para seu encaminhamento. Que os professores possam trabalhar com pequenos grupos e possam relatar ao juiz sobre o desempenho e comportamento dos recuperandos. É preciso, portanto, que se abandone a generalização e se possa investigar o indivíduo. Afinal, nosso sistema social é efetivamente voltado para o indivíduo. Se isso for obtido, provavelmente não precisaremos da arbitrariedade de uma idade penal preestabelecida, porque será possível, com maior precisão, identificar a penalidade necessária (e se é necessária), e com isso termina essa inútil discussão sobre qual a idade ideal para as imputações penais. Custa caro, mas vale a pena, podem ter certeza. Não vivemos reclamando que o gasto público é mal dirigido?
Recomendação de leitura:
Jean Piaget elaborou uma teoria educacional que é seguida por inúmeras escolas hoje em dia (muitas delas apenas no nome). É muito interessante para aquele que se interessa por educação dar uma boa lida em sua obra, em especial na seguinte:

PIAGET, Jean. A epistemologia genética. Petrópolis: Vozes, 1971.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Sobre abelhas e a criminalidade como vício social gerador de faturamento

Olá!

Vocês conhecem o Parque da Água Branca? Ele nasceu como uma antiga escola de práticas agrícolas, o que, convenhamos, tornou-se totalmente anacrônico em uma cidade onde só florescem prédios e violência, mas que foi transformado em um interessante atrativo, porque há algumas características que o distanciam de um parque convencional. Por exemplo: não há amplos gramados e quadras, mas um enorme picadeiro onde é praticada equitação. A quantidade relativamente pequena de árvores é compensada por pérgolas e bambuzais, além de uma infinidade de galinhas, patos, marrecos, gansos e até mesmo alguns pavões. Seus espaços recebem clara intervenção humana, e muitas feiras são realizadas em seus galpões, incluindo uma de produtos orgânicos, na qual me encontro defronte, neste exato momento, enquanto aguardo em um misto de contemplação e angústia ao término das compras de minha patroa e de minha patroinha.

Por falar nela, devo dizer que se chama Deborah, que significa “abelha” em hebraico. Não quis homenagear nossas simpáticas himenópteras nem a juíza cujas aventuras foram narradas na Bíblia, apenas gostei do nome. Mas há uma coincidência contingencial: enquanto aguardo a Deborah, estou rodeado de abelhas, atraídas pela barraca de doces mascavos aqui ao meu lado. Olhem só essa humilde, certificada e mal fotografada jataizinha...

 

... que batalha incansavelmente por algumas poucas e deliciosas partículas de pólen. Diante disso, resolvi falar sobre elas, ou melhor, usá-las como ponte para falar sobre outra temática.

Imaginem uma pujante, vanguardista, altaneira, vigorosa, venerável, álacre, denodada, auspiciosa, sobranceira, proeminente, altiva, egrégia, insígne, colenda, notável colmeia. Esta é habitada por expressivo enxame de laboriosas abelhas, com os mesmos qualificativos e predicados já mencionados. Vista de uma perspectiva externa, a colmeia é o máximo do sonho positivista de ordem e progresso (do amor nem tanto, não há tempo para isso em ambiente tão célere). Uma peça arquitetônica de perfeição modelar, um verdadeiro ideal que habita na forma aristotélica que a define não como um amontoado de cera, mas como legítima obra de engenharia natural. Todos os sistemas parecem funcionar a contento, porque a abundância era evidente, dando mostras de que todo aquele universo era tremendamente bem governado.

No entanto, ao deslocar o olhar para as abelhas como indivíduos, percebia-se algo inusitado: imperava entre elas a inconstância, a inquietação e a insaciedade. Todo o trabalho destes milhares de seres era insuficiente para abastecer de benesses uma pequena cúpula formada por abelhas privilegiadas.

Havia lá uma inaparente divisão social ao observador externo. Essa divisão era muito bem marcada, mas todas as classes viviam com um mesmo objetivo: a ascensão social. Para as abelhas mais ricas, a meta era alcançar um conforto cada vez maior, enquanto para as camadas de baixo a esperança consistia em galgar a escada para a camada rica, e, aí sim, almejar o mesmo conforto e inoperância. Só que a penúria destas classes mais baixas era mantida a ferro e a fogo pelas camadas superiores, cientes de que o bolo monetário mais dividido traria um pouco mais de felicidade para as mais pobres e muito menos regalias para seus membros. Desta forma, as abelhas proletárias se viam condenadas a conviver com as parcas disponibilidades que o suor de seu rosto conseguia obter, enquanto as nababescas irmãs afortunadas viviam no ócio e no luxo.

Havia ainda aquelas que viviam em uma espécie de submundo, se alimentando de toda espécie de miséria para obter ganho e status. Viviam de atividades subversivas e transgressivas da ordem emanada pelo governo da colmeia: aproveitavam de jovens e viúvas, usavam das viciadas em jogos, iniciavam muitas abelhas em atividades sujas e exploravam seu trabalho até ultrapassar os limites da dignidade apícola. É bem verdade que, desta forma, traziam o benefício de ofertar trabalho àquelas que foram expurgadas pelo sistema trabalhista daquele local, dando-lhes algum tipo de “ocupação”, mas o faziam apenas porque os líderes da colmeia faziam vistas grossas (e às vezes até mesmo usufruíam) às tais atividades.

Em uma categoria correlata, havia aquelas abelhas que viviam da ilusão do povo, como as abelhas-sacerdotes, que através da fé cega de certo séquito obtinham rendas e ócio suficiente para poderem ser inúteis à vontade. Sua tarefa básica era inculcar culpa nas fiéis para que a vida delas se tornasse um constante expurgo de pseudo-pecados, que eram basicamente compostos de reparações devidas a seus deuses através da prestação de serviços aos lídimos representantes, ora, as próprias abelhas-sacerdotes. Desta forma, ao redor da instituição religiosa, formava-se um autêntico feudo sustentado pela dor.

Todas as abelhas que possuíam algum nível que as retirassem da base da pirâmide social agiam de forma a obter maior proveito próprio. As abelhas-advogadas, por exemplo, cuidavam não de obter justiça para suas clientes, mas de estender as causas ao máximo das economias disponíveis; as abelhas-médicas não procuravam curar as pacientes, mas tão-somente prolongar as doenças até os limites de suas forças, receitando remédios inócuos; e, mesmo quando os remédios eram receitados com seriedade, as abelhas-boticárias tratavam de encher suas pílulas com farinha, seus xaropes com açúcar e seus elixires com aguardente ordinária - princípio ativo, que é bom, muito pouco; as abelhas-soldado, ao invés de buscar a defesa da lei e da ordem no interior da colmeia, preferiam viver de surrupiar e extorquir justamente aquelas que deveriam defender, a coletividade; haviam abelhas-soldado sérias, é bem verdade. Mas estas invariavelmente se viam mutiladas pelo combate e pela defesa do território, e eram sepultadas sem grandes honras ou aposentadas com baixo ganho. Mas os postos de comando eram ocupados por aquelas mesmas abelhas que mencionei anteriormente, que nunca souberam o que era uma frente de batalha e a quem era granjeada imensa láurea, com medalhas e comendas, dentre outras honrarias.

Apesar disso, o crime era punido com exemplar rigor pelas abelhas-magistradas. Quer dizer, os crimes cometidos pela prole, a quem eram imputadas as principais causas das mazelas. Uma abelha-operária que ousasse subtrair uma pequena porção de alimento por incapacidade de obtê-la através de seus meios legais era levada à forca. Isso para defender a propriedade da nata (em uma colmeia, poderíamos chamar de geleia real? – argh!), que deve ser defendida com eficácia pelo Estado, com o fim de evitar a desordem. Já os crimes cometidos pelas abelhas de escol... Bem, não se pode ser perfeito em tudo. E, no final das contas, é preciso levar em conta o status psicológico do acusado, suas atenuantes, seus atos falhos... Tudo isso é digno de perdão, não é mesmo?

Mas é preciso observar tudo por um outro lado. Mesmo com todos estes desajustes individuais, a sociedade da colmeia formava uma máquina que operava muitíssimo bem. Se é verdade que os comandantes viviam em um luxo quase sórdido, também é verdade que esse mesmo luxo fornecia trabalho para muitas abelhas. As abelhas-artesãs tinham na elite verdadeiros mecenas que financiavam suas obras, e estas se tornavam cada vez mais criativas, tentando superar a obra umas das outras. Os aposentos cada vez mais chiques empregavam abelhas-marceneiras, abelhas-tapeceiras, abelhas-costureiras. O serviço das madames fazia com que as abelhas-mordomo, abelhas-camareiras, abelhas-cozinheiras e outras tivessem seu sustento. As abelhas-sacerdote reuniam um sem-número de abelhas-auxiliares para manter o serviço dos templos. Os emaranhados de leis a partir das quais as abelhas-magistradas julgavam e as abelhas-advogadas litigavam traziam trabalho para as abelhas-escribas, abelhas-carregadoras-de-processos, abelhas-editoras, abelhas-revisoras e muitas mais. Assim, mesmo as abelhas mais humildes ainda podiam se regozijar de possuir um meio de vida, ainda que muito simples.

Desta forma, todos estes vícios privados constituíam virtudes públicas, porque faziam girar as engrenagens desta máquina social. Lidando com a vaidade das abelhas, o desejo do luxo e do conforto gerava uma indústria que se retroalimentava, gerando mais vícios e mais ocupações, e, claro, mais riquezas!

Mas eis que algo de estranho acontece. Em uma espécie de insight, um pequeno grupo de abelhas se tornou consciente de que toda a riqueza da colmeia era constituída pela maldade e pela iniquidade, e essa ideia passou a ser cada vez mais difundida, a ponto de uma abelha-comerciante, conhecidíssima como solerte praticante desta mesmíssima maldade e iniquidade, velhaquíssima usuária da malandragem de falseamento de pesos e medidas, e dos juros exorbitantes disfarçados de benesse ao comprador, proferiu a seguinte imprecação:

- “Que os céus nos mandem somente a probidade!”

A reação inicial do séquito celeste constituiu-se em uma imensa e retumbante gargalhada, mas Júpiter, o maior deles, aborreceu-se com a desfaçatez do apelo e resolveu atendê-lo, eliminando todo o sentimento de roubo e fraude daquela comunidade.

Deste momento em diante, houve uma transformação no espírito da colmeia, com as consequentes manifestações externas. Imediatamente, os produtos viciados foram retirados do mercado e os preços sofreram uma baixa nunca vista. Os credores passaram a remover as usuras de seus direitos, e os devedores começaram a quitar suas dívidas. Os tribunais passaram a se esvaziar, já que as abelhas buscavam acordos antes de realizar qualquer demanda. O reflexo imediato foi o esvaziamento do papel das abelhas-advogadas, que ficaram sem serviço. A desnecessidade das prisões suprimiu na necessidade de muitos funcionários, como oficiais de justiça, carrascos, carcereiros. Estes não achavam justo aproveitar de carreiras estáveis para garantir seus ganhos, e preferiam ficar desempregados.

Despojadas da vaidade, as abelhas-médicas passaram a se preocupar efetivamente com o seu ofício e, naturalmente, com seus pacientes, que passaram a receber cuidados necessários a qualquer momento do dia. O mesmo se aplicou às abelhas-sacerdotes, que passaram a cuidar efetivamente da religião, vivendo em simplicidade austera, atendendo os fiéis dia e noite, dispensando a agora desnecessária ajuda de suas abelhas-ministros.

As abelhas estavam despidas de seus vícios anteriores. O luxo e ostentação passaram a ser mal vistos, eram frívolas ligações ao mundo material. A suntuosidade dos palácios passou a ser indesejada, e estes foram abandonados, assim como todo o pessoal necessário para mantê-lo. Toda a arte foi abandonada, e a que ainda existia estava deteriorada, ao relento.

A consequência direta disso tudo foi um desemprego sem precedentes, o que levou a um imenso êxodo daquela colmeia, e mesmo as abelhas que insistiram em ficar viviam na miséria. A prostituição, o puxa-saquismo, as malandragens em geral estavam extintas naquela nova moral. Quem não se adaptou, resolveu partir; quem permaneceu, não lançou mais mão desses recursos. As fábricas de artigos supérfluos, ante a nova austeridade, a nova modéstia e a falta de vontade de aparecer, precisaram fechar suas portas, que ficaram enferrujadas, seus pátios sujos, suas máquinas - outrora produtivas -  totalmente empoeiradas. O comércio só vendia materiais essenciais à sobrevida, mas mesmo esse era afetado: as porções de consumo se tornaram tão diminutas que pouquíssima coisa era disponível para comprar e vender.

E o resultado não poderia ser outro: desprovida de suas principais fontes de circulação e emprego, a colmeia assumiu um aspecto que era a exata contradição de sua condição anterior: um local feio, miserável, sujo e decadente. As ruínas de sua outrora grandiloquente civilização restavam apenas como um monumento e um registro histórico do torvelinho de desgraça que se abateu sobre este povo. Sua honestidade era o último refúgio para dar razão à sua atual existência.

Essa historinha não é de minha autoria, mas é uma livre leitura de uma fábula de Bernard de Mandeville, holandês de origem francesa, radicado em Londres tão logo concluiu seus estudos em Medicina. Sua obra mais famosa é exatamente essa “Fábula das abelhas”, que sofreu muitas reedições e acréscimos. Nesta fábula, o sentido e a moral que o filósofo quer atingir é que há sempre algo de bom nos mecanismos que consideramos injustos, e isso deriva da natureza humana. Ao observar a sociedade ao seu redor, Mandeville percebeu o quanto a vaidade dos homens se imiscui em seu modus vivendi, a ponto de se tornar o eixo central de todo o mecanismo social. O homem não tem como se livrar disso porque esses defeitos são fruto de impulsos naturais e de seu congênito egoísmo – toda a sociedade é moldada de forma a prever e a encapsular no seu interior essas características.

A análise é aguda. A sociedade é refém de seus defeitos, e toda tentativa de realizar uma humanização das suas relações pode resultar em desastre. Parece uma crítica ao marxismo, que preconiza uma sociedade mais igualitária, mas não é esse o foco, até mesmo porque Marx e Engels nasceriam e trariam suas ideias muitos anos depois. No entanto, Mandeville é um defensor da divisão do trabalho, porque entende que o homem já não tem mais contato com uma pureza originária. Este estado de coisas é irreversível, a não ser que todas as estruturas sociais sofram um desmonte, com as consequências danosas que procura expor.

Evidentemente, o pensamento de Mandeville pode ser objeto de exacerbadas críticas, principalmente por não levar em conta que o desenvolvimento humano não tem a obrigatoriedade de se dirigir ao vício e que causas nobres são possíveis e desejáveis, mesmo sob o signo do lucro e do conforto. Mas não deixa de ser interessante observar o quanto sua crítica pode ser dirigida aos dias atuais. Pensemos, por exemplo, no que aconteceria se o crime fosse extirpado de nosso pobre mundo. Toda uma macroestrutura existe para dar combate a ele. E isso não se dá só por órgãos governamentais, mas por muitos e muitos agentes privados, entre empresas e pessoas físicas. Um país sem crime faria supor a desnecessidade de policiais militares, policiais civis, guardas municipais e que-tais; as empresas de escolta poderiam ser desmontadas, os vigilantes perderiam seus empregos; fabricantes de alarmes para carros e prédios teriam que procurar outra atividade, assim como os produtores de arames farpados e cercas de segurança; as empresas que fabricam chaves e cadeados, assim como grades e portões seriam relegadas à inutilidade; também as empresas de seguro passariam por forte abalo, já que o ramo mais crítico e lucrativo estaria encerrado; os noticiários seriam bastante diminuídos, os Datenas e Resendes da vida teriam que procurar outros temas para suas bravatas – que tal receitas de bolo? Interfones e porteiros eletrônicos seriam os novos companheiros das maria-fumaças e dos relógios de areia nos museus; idem com câmeras de segurança e outros dispositivos para detectar presenças indesejadas. Tem também a extinção da indústria bélica e suas correlatas; os prontos socorros poderiam se prepara para receber bem menos casos; psicólogos que lidam com os traumas da violência teriam esse tópico a menos para lidar; a indústria de vidro blindado e a blindagem de veículos iriam mandar mais alguns desempregados para o bolo geral. Isso tudo entre outras atividades que já nem lembro mais, e da própria atividade criminal, que movimento uma grana impossível de medir.

Para se ter uma ideia da brincadeira, apenas em empresas legalizadas, o faturamento do setor de segurança, em 2005, foi de 12 bilhões de moedas. R$ 12.000.000.000,00!!! Quem nos informa isso é a Fenavist (Federação Nacional das Empresas de Segurança e Transporte de Valores – quem quiser acessar o site, o endereço é http://www.fenavist.com.br), que congrega o setor a nível nacional. Temos de convir: O crime é um grande negócio, e isso deveria ser encarado com mais seriedade. O que esses números querem dizer para nós? Qual é o impacto deles em nossas vidas? A que rumos vamos levando nossa sociedade e de que maneira vamos amarrando-nos sem poder nos desvencilhar, talvez para sempre?

E desta forma podemos compreender um pouco mais sobre como nossas pequenas abelhinhas ajudam a explicar a infelicidade de se reconhecer que os nossos vícios particulares acabam por se transformar em grandes virtudes públicas, necessárias ao funcionamento social nos moldes com os quais lidamos hoje, em um ambiente liberal e capitalista. Essa é principal advertência de Mandeville para os nossos dias.

Recomendação de leitura:

MANDEVILLE, Bernard. The Fable of the bees or Private Vices, Public Benefits. Oxford: Claredon Press, 1966.