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segunda-feira, 15 de setembro de 2025

Sobre o destino manifesto e o falso espírito democrático de quem o proclama (Pequeno guia das grandes falácias – 76º tomo: a alegação especial)

(Dá-lhe, tarifaço... E depois são os paladinos da democracia)

“Democracia são dois lobos e uma ovelha decidindo sobre o que comer no jantar”

Benjamin Franklin 

Olá!

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Meninas e meninos, vivemos tempos insanos, como vocês podem perceber. Na verdade, nunca saímos deles, mas de vez em quando vem uma lufada de vento fresco e parece que vamos ter um pouco mais de sensatez, para logo em seguida tudo voltar ao que era. O mundo gira, a lusitana roda e não há nada de novo debaixo desse sol escaldante do Vale do Paraíba.

A novidade é a guerra comercial que o mandatário estadunidense resolveu empreender contra o mundo. Parte do princípio geral de que os seus cidadãos vêm sendo prejudicados em suas relações de mercado e quer chantagear os demais países na base das imposições tarifárias. Recentemente, lançou seus olhos vorazes contra a pobre Ilha de Vera Cruz, e uniu interesse financeiro com suposta injustiça legal para impor uma alíquota extorsiva. Evidentemente, foram colocadas na mesa outras questões, maquiadas como defesa da liberdade e da democracia (que se foda o livre mercado). Esse é o resumo da ópera, que não preciso levar muito adiante porque todo mundo sabe o que está acontecendo.

Não é de hoje que os poderosos vizinhos fazem valer seu poderio econômico e militar para pressionar outros países. Isso não muda nunca. O fato de termos um desequilibrado no poder ianque atualmente apenas tira a vaselina da relação conosco, terceiro-mundistas, porque ele me faz lembrar daqueles molecões de pouco brilhantismo, mas muito fortes, e que conseguem o que querem na base da porrada. Os democratas no poder são diferentes no sentido cortesia, mas não no resultado. Tem mais tato, mais jeito, oferecem flores, mas te comem dominam as ações ao seu bel-prazer do mesmo jeito.

Isso tudo acontece porque há no substrato ideológico gringo uma ideia de que eles são diferenciados em relação aos demais povos. Eles são os detentores das virtudes mais magnânimas, mais sublimes, mais excelsas, e tem o dever de propagar essas ideias para o mundo todo, especialmente onde for possível ganhar um dinheirinho. Ou dinheirão.

Mas não vamos ficar nesse discurso de esquerda latino-americana, e vamos olhar mais de perto o fenômeno da distinção dos ianques perante todos os outros povos do mundo, América Latina em evidência.

Todas as vezes em que vemos jogos de poder, observamos que há um certo ingrediente religioso por trás dos discursos. Podem até mesmo ser ateíssimos regimes comunistas, mas a autoridade atribuída a um líder tem a mesma característica messiânica que o mais empedernido dos reinados islâmicos: há uma ideologia da missão salvífica por trás das personalidades. Isso funciona muito bem, porque faz perdoar medidas que, na sua estrutura, não são favoráveis às massas populacionais, mas que precisam de algum tipo de argumento para serem aceitas, ou então da necessidade de alguma forma de amálgama que una as opiniões. Nada melhor que um portador do propósito divino.

Isso deveria acontecer nas democracias? Em tese, não, porque ela favorece o Estado laico, abre mais possibilidades para posições divergentes, protege a liberdade religiosa, mas como este regime é mais aberto, não há como impedir que essas teses da missão divina acabem imbuindo seu espírito. Afinal de contas, não é necessário que haja uma declaração explícita de religiosidade, mas um protocolo de benesses, como a confiabilidade das instituições religiosas que apoiam uma causa, ou a ideia de submissão a uma entidade externa doadora de moral. Lembrem-se, crianças: as religiões são elementos culturais, oriundas e formatadas para se adequar às sociedades onde surgem, e não o contrário. Com isso, adequações à religiosidade de uma comunidade correspondem a adequações à moralidade que aquela própria comunidade construiu. Qualquer democracia que se encaixe nesse contexto tem um elemento religioso em seus fundamentos.

E nos Estados Unidos? Bom… eles se autoproclamam como a terra da liberdade, mas os fundamentos religiosos estão lá, até mais fortes do que em Terra Brasilis, que somente mais recentemente vem adotando esse paradigma, especialmente pelo crescimento da população evangélica e da penetração de seus líderes na política. Se hoje os EUA constituem um território imenso, e ainda buscam espalhar seus tentáculos para o mundo que os interessa, é porque suas placas tectônicas se movem à base dos fenômenos ideológicos sustentados pela religião. Falo do Destino Manifesto.

A doutrina do Destino Manifesto (Manifest Destiny) é uma ideologia que aproveita um fundo religioso para justificar a política expansionista dos Estados Unidos no século XIX que dizia, fundamentalmente, que era inevitável que as terras da América estavam divinamente reservadas para os puritanos refugiados da Inglaterra. Por que chegaram a essa conclusão?

Bom, aí tem uma boa dose daquilo que sabemos ser o uso religioso das manipulações de convicções. Os puritanos eram uma corrente dentro do Anglicanismo que visava afastá-lo ainda mais dos ritos católicos. Esta corrente do Cristianismo era uma dissidência do Catolicismo menos pela discordância com seus dogmas e doutrinas, e mais pela questão de comando. A estrutura hierárquica católica era muito semelhante à anglicana, com a diferença crucial de que o mais alto comando nesta última era do rei da Inglaterra, que assume o lugar do papa no topo da hierarquia. Dentro dessa nova realidade, os puritanos surgem com a ideia de um retorno ao Cristianismo primitivo, sem os vícios e desvios derivados dos anos de luta pelo poder e modificações impostas pelo clero, de forma a atingir a purificação dos seus membros. Era uma derivação da vertente calvinista do Protestantismo, que chegava à Grã-Bretanha após seu surgimento na França. É de rigor que tratemos um pouquinho do dogma da predestinação, portanto.

Segundo acreditavam os calvinistas, a realização de boas obras não era o que salvava uma pessoa, como indicava as doutrinas católica, luterana, anglicana e ortodoxa, mas uma livre eleição do próprio Deus. Afinal de contas, a ação humana não poderia suplantar ou ser mais decisiva do que a vontade divina. Sendo assim, a pessoa ser salva ou não, não era um critério dela, mas do seu senhor.

Isso causa um problema. Se tanto fazia ser bom ou não, como seria possível saber se uma pessoa estava na categoria dos salvos ou dos condenados? Deus era indireto, e dava certas indicações aos seus eleitos durante a sua vida. Uma delas eram as provas de resistência na fé, que seriam bem suportadas pelos escolhidos. Um impulso psicológico e tanto. Outra era a prosperidade: Deus não garantia apenas uma vida eterna prolífica, mas o conforto na própria vida terrena. A lógica vinha da ideia de que toda a criação divina era perfeita, e não somente o plano espiritual da eternidade era bom e valoroso para a vida, mas também a própria vida terrena já havia sido construída pela divindade para ser igualmente boa e valiosa. Dessa forma, os eleitos tinham posses e benesses que fugiam da doutrina escapista dos católicos e outras designações protestantes, que criam que esse é um mundo de sofrimento, e que todas as recompensas viriam a posteriori, já passando pelo filtro das boas ações. Dessa forma, os crentes não precisariam ter vergonha de amplas posses e de lucros, porque também esses eram manifestações divinas, em um perfeito casamento com o emergente Capitalismo, como bem notou o sociólogo Max Weber. Vejam mais neste texto.

A migração dos puritanos da Inglaterra para os Estados Unidos pode ser facilmente acomodada à narrativa calvinista. Com a divergência de entendimento bíblico (e uma boa dose de conveniências políticas), os anglicanos viam os puritanos como infiéis ao rei, chefe supremo não só da religião, mas também, e principalmente, da nação. A perseguição ocorrida no âmbito do Anglicanismo é um dos mecanismos de resiliência propostos por Deus aos eleitos, que são obrigados a deixar sua terra para povoar um ambiente novo, incerto e potencialmente inóspito, enquanto o tamanho das terras, a presença de minérios, a fertilidade dos meios são inequívocas demonstrações da prosperidade oferecida, uma nova Israel, uma nova terra prometida. A licença para a ocupação é idêntica: da mesma forma que Deus permite e incentiva a ocupação de Jericó, faz o mesmo com as populações originárias além-Apalaches e com os colonos espanhóis da região da costa oeste. O destino manifesto proclama a dominação legítima por um povo escolhido do Atlântico ao Pacífico.

Não é fácil justificar uma sanha exploratória de um território que já se encontrava habitado por autóctones ou mesmo que já se encontrasse dominado por outros povos sem se usar o argumento da ganância. A conquista do oeste norte-americano não se deu pacificamente, mas à custa de sangue indígena e de guerras contra espanhóis e mexicanos, e isso não é bonito de se assumir unicamente pela riqueza que isso tudo traz. A justificativa divina não dava apenas uma resposta para o mundo, mas para os próprios executores das invasões. A guarida de uma ordem divina é perfeita como licença para avançar sobre terras alheias.

A questão é que o destino manifesto teve derivações que vivem até hoje, como as falas que aquele senhor alaranjado proclama de vez em quando. Ele serviu de justificativa para que a área de influência gringa se estendesse para muito além da imensa faixa de terra que liga os dois oceanos.

Existe a doutrina Monroe, derivada de um dos primeiros presidentes daquela terra, James Monroe. Ela diz que não é aceitável que potências coloniais europeias queiram expandir suas esferas de influência na política dos países da América, e, caso isso aconteça, será considerada como uma ameaça aos próprios Estados Unidos. Ademais, a doutrina procura demonstrar aos demais países americanos a superioridade dos regimes republicanos em relação às monarquias. Até aí, nada demais.

Os dois fenômenos, destino manifesto e doutrina Monroe, foram mais ou menos concomitantes, e acabaram se entrelaçando, naturalmente. O direito divino de se expandir vinha ao encontro do direito político de se defender, ainda que os EUA não fossem ainda potências militares à época. Ocorre que o desenrolar da história assim os tornaram, chegando ao ápice no pós-guerra, fortalecidos pelo fato de estarem do lado vitorioso sem que uma única bomba tenha chegado ao seu território. Com tanto poder nas mãos, eles foram ficando mais e mais “folgados”, e, a partir do corolário Roosevelt, assumiram o papel de polícia do mundo. O intervencionismo estadunidense veio em um crescendo desde então, litigando fronteiras que não são as suas, certificando governos nem sempre legítimos e financiando a oposição a regimes que os desagradam, de maneira nem sempre explícita. O corolário adiciona à doutrina Monroe o direito de intervenção direta onde quer que os EUA achem que exista uma ameaça. O problema é que isso é extremamente aberto, e que muitas vezes avilta a autoafirmação dos povos, a origem da própria doutrina.

A questão é que essa expansão não é somente física ou geográfica, o que já é uma imensa intrusão na vida dos povos, mas também cultural. Não está apenas nas músicas e nos filmes, ou nas roupas que se usam, mas especialmente nos valores. Se fosse só a calça jeans e o rock’n’roll, nada mais seria do que uma cultura que agrada outra gente, mas os estadunidenses acham que sua cultura é superior às outras não só por mera arrogância, mas pelo destino manifesto. Certos valores são, de fato, aplicáveis de modo universal, como o formato republicano e a democracia liberal, mas o problema não é efetivamente esse. Se é verdade que os povos devem ter autoafirmação, então não faz sentido o intervencionismo proclamado pelo corolário Roosevelt. Defender a democracia inclui aceitar o regime alheio, reconhecer o direito de outros países de dar a guia que queiram aos seus destinos e, principalmente, demover-se da ideia de povo escolhido. Não no sentido de se sentirem especiais, eleitos por Deus ou coisa que o valha. O diabo é que, se eu sou um escolhido, o resto é escolho. Se eu sou eleito, todos os outros são condenados, e não é possível arrogar isso a si próprio. Os Estados Unidos são poderosos demais para abrir sua carga pesada contra países claudicantes como o Brasil, que não representam ameaça real à sua existência, principalmente à sua poderosa economia. Eles mesmos são seus principais adversários.

Evidentemente, foi possível perceber pelo exposto até agora que as regras estabelecidas pelos Estados Unidos servem para todos os países, menos para eles mesmos. Como se dizem cobertos pelo destino manifesto na teoria, e tendo os mais poderosos meios de guerra na prática, alegam ser os guardiães de uma democracia que, preto no branco, eles mesmos não praticam. A democracia é fácil de retorcer, justamente por sua maleabilidade, e sempre tem como servir mais a quem tem mais poder, como Benjamin Franklin tão bem detectou na frase da epígrafe. Além de toda a hipocrisia que há por trás disso, há também um uso falacioso da linguagem, distorcida para fazer crer que traz argumentos válidos. É a falácia da alegação especial.

Essa falácia diz que algo que é aplicável para todos não é aplicável para alguém específico, sem que haja algum motivo justificável para a exceção. Essa invocação nunca é voltada para algum ponto desfavorável, mas como justificativa de algum privilégio. Dessa forma, abre-se um desvio apropriado para uma pessoa ou grupo específico sem um imperativo lógico. Se os EUA são defensores exacerbados da democracia e de todos os seus princípios, deveriam, eles mesmo, ser os primeiros a praticá-la, e não evocar ideologias de fundo religioso para justificar sua ação.

Outro exemplo gritante vem das próprias religiões. Alega-se que todas as religiões são mitos, porque são constituídas por deuses e entidades vindas do folclore das diferentes populações, que surgiram de maneira intuitiva e pouco corroborável, e que, portanto, representam modos de formações de culturas, mas não de uma realidade. Nada disso vale quando aplicável à religião adotada por quem profere a alegação: essa, sim, é expressão da verdade, mesmo que seja formada a partir dos mesmíssimos elementos culturais que circunscrevem as demais culturas.

Uma boa parte da explicação vem da intenção da religião em ser expressão da verdade, o que motiva esse fenômeno do nós contra os outros, da mesma forma que as adesões patrióticas seguem lógica semelhante.

Alegações especiais, entretanto, podem ser justas e lógicas, e, obviamente, não falaciosas. Qualquer ação inclusiva, por exemplo, está enquadrada nesse caso: não se pode exigir de alguém que possua alguma limitação que realize ações fora de seu alcance. Nestes casos, a alegação especial é justificativa plenamente válida.

Enquanto isso, crianças, vamos tentando sobreviver com as atitudes pouco republicanas do democrático vizinho poderoso. É uma boa chance de se desvencilhar um pouco mais de sua esfera de influência e, quem sabe, chegarmos a uma independência mais plena. Patriotas deveriam gostar disso. Bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

Um livro e tanto para entender se a democracia nos Estados Unidos é realmente tudo aquilo que eles proclamam:

LEVITSKY, Steven; ZIBLATT, Daniel. Como as democracias morrem. Rio de Janeiro: Zahar, 2018.

terça-feira, 13 de agosto de 2024

Democracia: o que ela é e o que ela não é

(A democracia parece tão óbvia... mas nada mais é óbvio nos dias atuais)

“É assim que tendemos a pensar na morte de democracias: nas mãos de homens armados (...) porém, há outra maneira de arruinar uma democracia. É menos dramática, mas igualmente destrutiva. Democracias podem morrer não nas mãos de generais, mas de líderes eleitos – presidentes ou primeiros-ministros que subvertem o próprio processo que os levou ao poder”.

Levitsky e Ziblatt

Olá!

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Quando nós vamos ficando mais velhos, vamos ficando também um pouco mais desatentos com certas particularidades do mundo que nos rodeia. Provavelmente isso aconteça (pelo menos é o que percebo no meu caso) porque, à medida que vamos ganhando conhecimento e experiência, achamos intuitivamente que todo mundo dança o mesmo xaxado, e que, ao mencionar um fenômeno qualquer, todos saibam perfeitamente bem do que estamos falando. Com isso, tendemos a achar que tudo é elementar, e que todos compreendem bem o que estamos falando.

Bem, não é assim que a banda toca. Um exemplo bem simples aconteceu dia desses, quando eu perguntei se algum dos estagiários queria uma mariola. Uns olharam estranhos, outros desconfiados, como se eu estivesse oferecendo um ilícito. Ah, leitor, você também não sabe o que é mariola? Nada mais é do que aqueles tabletinhos de banana cozida no tacho, coisa comum nesses botecos da vida, mas para quem ia a eles na fase de infância. Hoje, essas coisas são conseguidas no mercado ou na internet.

As coisas mudam, e os valores são coisas abstratas, e mudam também. Há diferenças entre o que as coisas valiam para meu pai, para mim, e para meus filhos, e para os estagiários também. Meu pai viu o golpe de 64, eu nasci em plena ditadura, meu filho já tinha um país democrático. Os estagiários, mais jovens ainda, às vezes confundem a democracia, assim como não sabiam quantas vezes já tinham comido mariola sem saber. Por isso, há valores diferentes em jogo para cada um de nós, e, por isso, nem sempre se tem uma dimensão exata do que é a democracia. Vamos falar dela então.

O que é democracia?

Começando pela palavra em si: democracia vem da combinação das palavras gregas demos (povo) e kratia (poder), ou seja, o poder exercido pelo povo. É um sistema de governo onde o poder central é exercido por governantes escolhidos de alguma forma pela população. Naturalmente, é uma definição muito singela, já que muitas características devem ser levadas em conta para que um regime possa ser considerado de fato democrático. Por exemplo, um regime democrático autêntico garante isonomia entre seus cidadãos, ou seja, que todos sejam tratados com igualdade e equilíbrio pela lei. Isso significa que todos devem ser tratados pelo mesmo conjunto de regras jurídicas. Além disso, é preciso que a população como um todo tenha acesso à participação política efetiva.

 

Mas por que certas pessoas desfrutam de privilégios?

É preciso sopesar o que estamos falando. Quando há, por exemplo, um concurso para juízes, há restrições para a inscrição. Há a precondição de haver formação em Direito, pelo fato da especialização do cargo. Entretanto, todos aqueles que preenchem o requisito são candidatos hábeis para o concurso, e isso é o que se espera da condição democrática. Em outros casos, o favor da lei existe justamente para propiciar algum tipo de possibilidade de equilíbrio social para cidadãos que, apresentando certas limitações, têm sua oportunidade de exercício da cidadania igualmente limitada. É o caso clássico do velhinho no ônibus, que tem muito mais necessidade de ficar sentado do que outra pessoa mais jovem. Isso tudo não é privilégio. Estes acontecem quando uma situação de posição social permite que alguém se livre do ônus que recai sobre todos. O exemplo mais simples que posso pensar no momento é a prisão especial, que é aplicada pelo simples fato de um cidadão ter formação superior. Este era um grande problema de isonomia porque não havia explicação para sua adoção: não há correlação atenuante ao fato de alguém ter diploma além do privilégio social.

 

Ok. Mas a democracia é só isso?

Não. A democracia inclui a garantia da participação política direta de todos os cidadãos que compõem a república, com o mais baixo nível possível de restrições. Isso inclui não somente o direito de votar e ser votado, mas o de se manifestar publicamente sem restrições, a não ser, é claro, as que redundem em crimes. Não é porque eu sou livre para me manifestar que eu possa xingar as genitoras de quem me é divergente. O nome disse é isegoria e esse palavrão designa algo que vem desde os gregos: o direito à expressão das posições políticas.

 

Falando nisso, como foi o nascedouro da democracia entre os gregos? O modelo lá criado persiste até hoje?

A democracia grega tinha um modelo bem diferente do que costumamos ver hoje em dia. Os historiadores dão a ela o nome de democracia direta, porque os cidadãos se expressavam diretamente nas assembleias, que eram realizadas nos grandes espaços públicos conhecidos como Ágora. Obviamente é impossível realizar esse modelo modernamente, pensando como rápido exemplo a cidade de São Paulo. Onde seria possível dar voz simultânea a mais de 9 milhões de eleitores, mesmo com o espaço virtual da internet?

 

Então a democracia não é só eleição?

Não. Vai muito além disso, e, por vezes, o voto não alcança decisões democráticas. O próprio critério de utilização de concursos para o provimento de funcionários públicos é um exemplo. Na verdade, o que melhor define uma democracia é o Estado Democrático de Direito, uma conformação social onde se estabelece que ninguém, seja o rico ou o pobre, o gordo ou o magro, o bonito ou o feio, o patrício ou o plebeu, estará fora das determinações da lei, incluindo o próprio Estado. Se é fato que todo o poder emana do povo, como está descrito nas principais constituições do mundo, é preciso que haja sistemas que impeçam o Estado de exercer poder ilegalmente sobre as pessoas. A tripartição de poderes é um mecanismo que procura limitar mutuamente os componentes estatais de produzirem exercício indevido na sociedade. Isso está mais na raiz da democracia do que a própria eleição.

 

Por que países de notórias ditaduras se autoproclamam repúblicas democráticas?

Vamos lembrar que democracia é, no plano linguístico, uma palavra, pronta para ser usada da forma que der na telha do usuário. Eu posso dizer que sou um exímio surfista sem nunca ter feito mais que mascar parafina. Esses países, que se apresentam como democracias revolucionárias, nada mais são do que encarniçadas ditaduras, normalmente das mais sanguinárias. Mas há um sentido (e não uma justificativa): como o teórico pano de fundo dos regimes comunistas é um governo que não pertence às elites, o comitê gestor que administra o Estado seria, em tese, de representantes populares, que trariam as necessidades dos diferentes estratos através de escolhas entre seus membros, para que os rumos governamentais fossem decididos pelos comitês centrais. Na prática, entretanto, o que se viu foram ditaduras cuja maneira de agir se baseia na vontade própria de poucas pessoas.

 

Uma escolha popular não justificaria uma tirania? Não é democrático escolher não ser democrático?

Aqui podemos falar em duas questões. A primeira é de um daqueles jogos de palavras, do tipo “um deus onipotente pode criar uma pedra que nem ele mesmo pode carregar”. O sentido de democracia não está em se colocar totalmente desprotegida em nome de uma liberdade absoluta de escolha pelo povo, senão as leis não fariam sentido. E a outra é que, sim, a democracia carrega consigo mesma as suas contradições, como ocorre com tudo na vida. Todo sistema democrático maduro, sabendo-se disso, possui predisposições que evitam danos ao sistema.

 

O que vale mais em uma democracia? A liberdade ou a igualdade?

Se nós formos um bocado concessivos, em outros tempos poderíamos dizer que esta era a diferença de base entre direita e esquerda, mas isso já se foi, já que hoje o embate é entre pacotes prontos. Entretanto, o mais importante é saber que uma não exclui a outra. É possível ser livre dentro de determinados parâmetros, e é possível perseguir o máximo possível de igualdade nas oportunidades.

 

Como a democracia pode ser positiva se nem no seu nascedouro ela foi consensual? Gênios como Aristóteles eram críticos à ideia.

Há uma confusão aí. É verdade que Aristóteles criticou a democracia como forma degenerada da politeia, essa sim o poder exercido por grandes camadas de cidadãos. Porém, nosso nobre patrono não trabalhava sob o conceito atual de democracia, e sim com algo que estaria mais próximo de uma anarquia ou, pior ainda, de uma anomia, ou seja, uma sociedade sem lei.

 

A democracia é de fato a ditadura da maioria?

Não, de forma alguma. Mas é muito fácil inserir essa assertiva em um discurso. Quando há uma eleição, de fato a maioria dá um ditame. Mas que tipo de ditame? Um que decide um rumo político, econômico, social, trabalhista e etc ou que remova direitos? Uma das características mais caras da democracia é exatamente garantir que minorias preservem seus direitos, mesmo que difiram do que pensa a maioria.

 

Quem é representado na democracia representativa?

Para suplantar as dificuldades da democracia direta grega, foi criado um sistema onde os interesses comuns eram segregados dentro das diferentes camadas em uma sociedade e eleitos representantes que catalisassem esses pontos de coalisão. Os atuais partidos políticos nada mais são do que grupamentos que congregam esses representantes, e, em países mais sérios que o Brasil, já são, por si só, designativos dos interesses das parcelas populacionais que se alinham a esses.

 

A democracia permite que presidentes sejam eleitos tendo menos votos que seu oponente. Como esse pode ser considerado um sistema perfeito?

Não é, aí é que está. Regimes perfeitos são tão utópicos quanto uma verdade absoluta ou um fato irrefutável. A democracia se apresenta como melhor que outros regimes porque, nela, os governos têm fim. A alternância no poder é a garantia de que, ao longo do tempo, os próprios mecanismos políticos se regulem, e não se eternizem malefícios insanáveis. O caso citado na pergunta diz respeito aos Estados Unidos, que, por duas vezes nas últimas décadas, tiveram presidentes eleitos com menos votos que seus adversários diretos. É um modelo entre outros, e pode ser considerado democrático porque há uma lei que o estabelece e é cumprida à risca. Se favorece uma distorção, cabe a eles, estadunidenses, reformá-lo.

Obviamente essas perguntas e essas respostas mal começam a dar cobertura para um assunto tão cheio de nuances, mas serve para iniciar a conscientização da necessidade de se questionar coisas que achamos muito evidentes, mas que não são. Bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

Pode parecer que a democracia, com seus mecanismos de autorregulação, seja capaz de se manter indefinidamente como melhor sistema político. Só que não. É possível corroê-la ao ponto de extingui-la, como está bem explicado no livro abaixo, a quem recomendo fortemente:

LEVITSKY, Steven; ZIBLATT, Daniel. Como as Democracias Morrem. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2018.