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quarta-feira, 12 de junho de 2019

Navegações de cabotagem - A praça da matriz de Itu: as desmedidas e a assimetria de quem age e de quem observa

Olá!


Vocês, meus cada vez mais raros leitores, devem estar meio admirados pela quantidade de vezes que já mencionei neste espaço alguma viagem para fins de concursos públicos. Não deixa de ser resultado dos tempos difíceis em que vivemos, quando abandonamos os sonhos de realização profissional para abraçar a causa da estabilidade e do salário pago em dia. Não posso reclamar disso. Passei tantos aperreios na vida, em especial na década de 90, que neste ponto da existência vejo isso como solução, e não como opção. Falta de espírito combativo e de objetivos maiores? Sim, mas lascar o foda-se é tudo o que resta quando há bocas a alimentar.

No entanto, há uma diferença primordial no evento em tela: não conduzo agora o filho mais velho, que se arranjou no interior do Paraná, mas a filha mais nova, que tenta partir para a turma dos barnabés. E o começo da trajetória se dá em grande estilo. Grande mesmo. Estamos em Itu, terra dos exageros. Enquanto a moçoila testa seus conhecimentos, aproveito com a patroa o sol escaldante para visitar o seu logradouro mais célebre, a Praça da Matriz, oficialmente praça Padre Miguel, onde se encontra a famosa série de objetos superdimensionados.


É bem verdade que há outra praça, feita exclusivamente para enaltecer os exageros, que tem muito mais atrativos em tamanho XG, como os lápis, o jogo de xadrez, a garrafa, et cetera. Só que a mesma se encontra fechada para reforma, já há um bom tempo. Sendo assim, fui para a já bem antiga praça da matriz, dedicada a Nossa Senhora da Candelária, construída em 1780. Possui um estilo barroco tardio típico, com muita semelhança de outras igrejas contemporâneas que podem ser vistas no centro de São Paulo.


Sua decoração interior é uma amostra bem característica do período, com um altar-mor ao fundo do presbitério em formato piramidal, como uma escada que leva aos céus, e dois altares laterais enviesados, tudo guarnecido por atavios entalhados típicos do rococó. Um certo exagero na feitura causa grandes problemas na reforma, mas a culpa não é de ninguém – reflete o espírito de uma época que deve ser bem conservada. Falaremos mais disso adiante.


Itu é uma cidade bem antiga, fundada ainda nos tempos dos bandeirantes, e que conserva uma boa parte de seu estilo colonial, o que inclui o conjunto arquitetônico de casas baixas com porão e anteparos adornados sobre portas e janelas, um capricho pouco visto hoje em dia, além das vidraças invertidas, que ficam para o lado da rua, enquanto a parte escura abre para dentro do imóvel.


No entanto, o epíteto de cidade dos exageros levou a uma série de intervenções que, se por um lado são divertidas e lhes dá marca registrada, por outro destoa do conjunto historiográfico. O próprio coreto já não condiz diretamente com a matriz e o casario, apesar de seu estilo sóbrio e suas linhas rebuscadas.


Não criemos celeumas, entretanto. Os objetos supercrescidos são vários, sendo que o mais evidente deles é o renomado orelhão. Outrora, ele era uma reprodução daqueles mantidos pela Telesp, hoje atualizado para a empresa privatizada. Com o advento e o barateamento do celular, creio que dentro em breve as jovens populações não terão mais referências para comparar, já que são aparelhos em plena extinção (como, de resto, já são extintas as fichas que se usavam para fazer as ligações).


Outro equipamento da praça é o semáforo gigante. Ao contrário do orelhão, temos aqui uma peça que é funcional e que de fato é utilizada para controlar o trânsito. Contaram para a gente que tem motoristas que acham que o artigo é decorativo, e acabam não o respeitando. Questão de bom senso e prudência, penso eu.


Para quem gosta de lembrancinhas (!!!), a praça é repleta de lojas que dão continuidade à brincadeira do gigantismo, que não está só nas suas mercadorias, mas em passatempos nos quais o pessoal adora fazer suas graças, como é o caso deste par de chinelos...


... ou desta “xicrinha”. Toda sorte de produto é vendida em modelo maximizado, como os chaveiros que eu adquiri para minha coleção. Há os de lápis, de ficha telefônica, de comprimido e até o infame supositório. E há o sorvete de Itu, um canudo de três cores que deve pesar meio quilo.


Ainda na praça, existe o suntuoso Ituano Clube, outrora um espaço da high society local, onde se realizavam bailes e desfiles. O tempo trouxe a decadência desse estilo de entretenimento, e o clube ficou desativado por um bom tempo.


Hoje o Ituano (não confundir com o time de futebol) abriga um espaço cultural multidisciplinar, que se presta à conservação de acervos, exposições, mostras e pequenas audições, que junta as vantagens de um espaço público com a sua bela arquitetura.


No hall de entrada, com sua bela escadaria de mármore, estava sendo realizada uma exposição de grafismo clássico, as boas e velhas obras de lápis sobre papel, onde os jogos de luzes e contornos são dados pela densidade e pressão do grafite. Os autores são os alunos das EMIA’s, que, se não me engano, são as escolas municipais de artes da cidade.


Em um conjunto de dois cômodos no térreo, há uma exposição de arte sacra com material oriundo da reforma da igreja matriz. Uma parte do material exposto é composto por restos das partes trocadas, que contêm vários fragmentos das obras artísticas de lá, como é o caso dessas tábuas do teto.


Estão expostas ainda peças antigas e fora de uso pelo desgaste ou obsolescência, todas elas alfaias e materiais de uso litúrgico, como este missal escrito em latim, língua oficial do Catolicismo até a década de 1960, já bastante carcomido, mas que preserva bastante do cuidado em sua elaboração...


... bem como este manípulo, um paramento litúrgico que não se utiliza mais, que representa um alívio para o cansaço no exercício das funções sacerdotais. É um artigo que quase não é mais visto modernamente.


Nas entradas do clube, um pequeno acervo de fotos nos mostra aquele que, enfim, é o grande responsável pela fama megalômana desta urbe. É o comediante Francisco Flaviano de Almeida, mais conhecido como Simplício. Dois personagens seus mantém uma forte ligação com Itu. O impertinente menino Rosauro, sempre com a camisa do Ituano, era o rei das perguntas capciosas, deixando seus interlocutores de cabelos em pé; e o Osório, o marido da Ofélia, que cantava loas ao tamanho das coisas em Itu, onde qualquer coisa era desmedida.


Um atributo incontrolável, pelo destaque que a piada tomou. De um personagem de esquetes, surgiu o epíteto que se mantém até hoje. A piada parece ironizar uma cidade minúscula, daquelas da igrejona e da pracinha, o que Itu não é. Tem quase duzentos mil habitantes, um razoável parque industrial e muita importância histórica, especialmente no desenvolvimento da ideia da implantação de uma república no Brasil. Mas o exagero que vem da vaidade do personagem, ironicamente, faz com que pensemos que esta terra seja menor do que ela é realmente. Por que há essa espécie de desnível?

Vamos ter que dar uma voltinha para propor uma chave de solução. Desde já lembrando que temos diante de nós um personagem satírico, e consequentemente desvinculado da factualidade, podemos encarar a coisa de duas maneiras. A primeira, de que temos um mentiroso, pura e simplesmente; a segunda, que temos dois pontos de vista absolutamente distintos, que percebem os objetos postos cada um à sua maneira. Podemos descartar a primeira porque observamos inúmeras vezes a discrepância entre relatos, sem que necessariamente alguém esteja faltando com a verdade. Vou dar um exemplo real, que aconteceu comigo, bem recentemente, e omitindo nomes, já que o fato é constrangedor.

O clima político não anda bom, sabemos todos. O grande mote que levou o atual governo ao poder foi a extensa corrupção que grassa Ilha de Vera Cruz desde os tempos de Ilha de Vera Cruz. Sem julgar méritos e deméritos, foi a alternativa que se apresentou e que a população comprou, como, de resto, já fez outras vezes, sem o sucesso esperado. Este era o tema de reunião na casa de parentes meus, que só não degringolou para samba no Bixiga porque eu e a patroa tiramos o pé, já que a partida era fora de casa. Em tempo: apesar do calor, ninguém se bateu, só debateu. A bandeira era aquela mesma: corrupção, políticos inconfiáveis, velhas práticas, era preciso tentar o novo, mesmo que desse errado. Porque o corrupto rouba leite das crianças, impede remédios aos velhinhos, desgraça suspensões de veículos e tudo o mais. Apesar da simplicidade do argumento, não era nada de que eu pudesse discordar, só não me sentindo confortável com os nomes encontrados. Mas bem. O tema fluiu para o futebol e as barrigas, já locupletadas, induziram à dispersão: meninos de azul para a sala; meninas de rosa para a cozinha – quer coisa mais bem conservada? Conversa vem e vai, e pula para o âmbito trabalhista: passei lá perto da sua casa, sabia? Opa, não! O que foi? Por que não deu uma passada lá? Ah, eu fui a trabalho (N. do A.: o primo trabalha com administração de condomínios). Tem um conjunto novo no Glicério, e fomos fazer uma proposta pro síndico. E deu jogo? Negociando... agora depende do chefe. E como funciona? Eu não faço a mais porca ideia... Bom, além do meu salário fixo, eu ganho uma comissão. Dez por cento do valor pago pelo condomínio é taxa de administração, e dez por cento destes vem para nós, os vendedores. E tem a parte da nota. Parte da nota? É... digamos que o síndico queira fazer cinco mil reais com o condomínio. Neste caso, a empresa emite uma nota com sete mil reais a mais de gasto. Cinco fica para o síndico, mil fica para o dono e mil vem para nós. Para vocês? Isso... não é errado? Bom, eu preciso pensar na família numa hora dessas, tudo tá tão caro, tem a menina...

Pois é. A instantes falávamos de corrupção e de quanto ela é prejudicial para o país; agora, no âmbito privado, ela é plenamente justificável. Juro pela divindade que vocês escolherem que essa pequena historinha se deu exatamente como descrito aqui. É uma questão de hipocrisia pura e simples? Conheço o cidadão o suficiente para dizer que não. A diferenciação, por absurda que seja, é sincera. Ele acredita de fato que sua conduta está ok, e muita gente pensa assim também. Mas na hora de apreciar esta mesma conduta em outras instâncias, a pessoa se revolta.

Algumas coisas a considerar nessa síndrome de autovisão. As sociedades cuja cultura é do tipo individualista tendem a achar o eu distinto do nós. Isso é muito claro nas sociedades ocidentais de economia mais bem consolidada, como nos Estados Unidos, Canadá, Reino Unido e etc. Há muitos motivos para que estas sociedades sejam assim, como a aplicação do capitalismo, a adoção do cristianismo e outras avenças, mas não cabe abordar isso agora. Basta saber que, nestas culturas, o indivíduo é precípuo em relação ao coletivo. O homem aqui deve procurar a autossuficiência antes de se situar no meio onde vive, até porque ele pode fazer isso.

Embora a realidade rume para o polo oposto nas sociedades menos providas de recursos, onde a interdependência torna os laços sociais mais necessários, é fato que o cubo cultural é uma matriz de n dimensões, por isso mesmo uma sociedade pode ser individualista em certos aspectos e comunitarista em outros, e por este motivo o fenômeno pode ser observado em qualquer local do globo, mas, via de regra, uma visão muito egocêntrica tende a exacerbá-lo.

Vamos a ele. Podemos notar que há um paradigma duplo para explicar os comportamentos. Quando analisamos ações negativas dos outros, tendemos a desprezar fatores situacionais e enaltecer fatores disposicionais. Em outras palavras, se alguém faz algo de ruim, dizemos que o defeito é inerente à pessoa; se quem o faz somos nós, tendemos a imputar a má ação à nossa situação, ou seja, a fatores ambientais e externos a nós. O efeito é intercambiável: quando o ato é positivo, os fatores se invertem – somos inerentemente bons, enquanto os outros são levados pela situação a serem bons. Eu sou promovido porque me esforço; meu colega, porque deu sorte. Isso é o que, em Psicologia, se dá o nome de erro fundamental de atribuição.

Tudo é uma questão de perspectiva. Cada pequena atividade que acontece neste acidentado planetinha azul tem um protagonista e, eventualmente, alguém que a contempla. Cada um terá seu próprio ângulo de visão e uma explicação própria para o ocorrido, sendo que as causas podem estar diametralmente opostas.

Vamos pensar em uma cena futebolística, para variar. No final de um jogo encarniçado, um quarto-zagueiro corta um cruzamento especialmente promissor, mandando a bola para escanteio. O ponta-direita ajeita a esférica com todo o carinho, como se fosse bater um pênalti: seu time está sendo derrotado, e sua cobrança pode fazer a diferença na busca do empate. Ataque postado e defesa encastelada, o atacante executa seu mister, inesperadamente pegando com força excessiva, e mandando a pelota para a zona morta oposta, para sair idiotamente em lateral favorável ao adversário.

Este é o fenômeno. Quem observa, dirá: é um perna-de-pau, uma característica de imperícia atribuível diretamente ao pobre-diabo. Ou é um burro, outra característica atribuível ao ser humano em questão. O ponta, por sua vez, instado a se defender, dirá que mandou a bola para o outro lado do campo porque era isso que estava ensaiado – por lá, deveria ter aparecido um lateral-esquerdo livre de marcação, de modo a desorientar a zaga adversária. A atribuição, neste caso, é externa ao agente. Esse desalinhamento entre motivadores externos e internos, o tal erro fundamental de atribuição, é causado, portanto, por uma assimetria entre agentes e assistentes, que é conhecida como efeito ator/observador.

Quem é o ator? É aquele que age, é o sujeito ativo na ação. Ele detém algo que os observadores não tem: a perspectiva da intenção. Só que quem está do lado de fora precisa de explicações para o que vê, e sua cognição está cheia de lacunas. Um cruzamento tão desastrado precisa de uma resposta imediata, e a explicação mais próxima está no próprio ator – ou é inábil, ou é falto de inteligência. Por isso, a perspectiva de quem age e de quem observa nunca é a mesma. Não temos uma leitura interior, como a do ator, e preenchemos as lacunas com as nossas próprias expectativas. E isso também explica os diferentes pontos de vista dos vários observadores, pois cada um preenche essas lacunas com seu pacote de expectativas, que sempre são divergentes com relação aos demais.

Isso tudo pode nos levar a pensar: a nossa percepção do que é real é completamente contaminada pelo sentido que doamos aos fenômenos que ocorrem em nosso meio. Tudo o que consideramos como verdadeiro é uma projeção dos conceitos que já habitam em nós. Preconceitos, portanto? Em certos momentos, é isso mesmo. Por isso, o assunto acaba por sair da especificidade da Psicologia para desembocar na Ética. Nosso julgamento da ação dos outros é enviesado pelo que existe dentro de nós. As lacunas existem porque não temos como conhecer tudo, e é preciso muito cuidado para preenchê-las. Para nos afastar do erro fundamental de atribuição e das armadilhas da assimetria entre ator e observador, a palavra-chave é: alteridade. É uma fórmula tão simples quanto difícil. Precisamos nos esforçar para pensar com a cabeça do ator, que age variavelmente, movido pelas circunstâncias. Não temos condições de assimilar todo o conjunto situacional de qualquer evento, mas temos parâmetros em nós mesmos. Não no sentido de dar respostas prontas, mas de nos perguntar o que nós faríamos em situação igual, ou, melhor ainda, o que nos levaria a agir da mesma forma que o ator que observamos.

E isso é uma regra geral, canônica e bem formulada? O comportamento de quem observamos é sempre justificável? A verdade reside no ator? Evidentemente que não. Tudo tem a ver com a autoimagem que cada um constrói de si mesmo, e neste ponto nosso exemplo ficcional de Itu cabe como uma luva. Nosso caro Osório tem uma imagem maximizada da cidade que vive e ama pelo próprio afeto que ergueu diante dela, e isso gera uma distorção na sua narrativa e na maneira como vê seu pequeno mundo. Eu não esqueci que estamos no campo do humor, mas isso está presente por toda parte, desde aquela avó que vive de gabar-se dos netos até o político que promete o que não pode realizar, mesmo que acredite piamente nisso.

Deixem-me concluir. Itu é uma cidade com muito mais do que os seus exageros, e vale cada minuto de visita. Certamente voltarei a falar sobre ela. Bons ventos a todos!

Recomendações:

Utilizei dois livros de Psicologia para dar apoio à elaboração deste texto. Segue a citação de ambos.

ARONSON, Elliot; AKERT, Robin; WILSON, Timothy. Psicologia Social. São Paulo: LTC, 2011.

GLEITMAN, Henry; REISBERG, Daniel; GROSS, James. Psicologia. Porto Alegre: Artmed, 2009.

Da sétima arte, o melhor exemplo da multiplicidade de pontos de vistas vem do clássico japonês Rashomon, de Akira Kurosawa. É uma miscelânea de observadores em cima do mesmo fato, que impossibilita a obtenção da verdade. Grande película, para ser vista com muita paciência.

KUROSAWA, Akira. Rashomon. Filme. Japão, 1950. 88 min. P&B.

E, claro, a própria praça da Matriz em Itu, situada a 100 Km de São Paulo.

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

Em demanda dos trilhos perdidos – 3ª estação: Marmelópolis e as influências da cabeça no nosso linguajar

Olá!


Quando retornei da cidade de Cristina, após tomar uma overdose de café, e ainda melecado de barro até os joelhos, tinha a esperança de que a chuva arrefecesse um pouco. Não que eu não goste de água na cabeça, sei que é um problemão quando há seca, mas o diabo são os impedimentos que a mesma impõe, como já mencionei no precitado texto. Como o desejo não move nada, a não ser nossa depressão, tivemos mais uma madrugada encharcando tudo. Não sou mais criança para achar que há alguma conspiração metafísica contra minha pessoa, e sei que as frustrações são mais fáceis de serem lembradas do que quando o planejamento é bem cumprido. O nome disso é juízo retrospectivo, e sobre ele falarei em melhor momento. O ponto era a sinuca de bico em que eu me encontrava. Onde encontrar algum lugar mais urbano em meio tão caracterizado pelo domínio rural? Mais ainda: em uma boa parte de área protegida? Bom... Segui o princípio geral de que não somente o ambiente nos rege, mas também as relações que temos com as pessoas e parti para a pequenina Marmelópolis.


Meu objetivo ao mirar esta cidade era atacar o pico do Marinzinho, uma formação rochosa a 2432 metros de altitude, bem na divisa com o estado de São Paulo. Até tentei invadir um pedaço da estrada de terra que leva ao seu sopé, mas o lamaçal que se formou era um impeditivo inapelável. Acabei achando melhor diminuir o tamanho do passo e ir atrás de uma trilha mais tranquila. Esse era o aspecto do pico no momento de maior proximidade dele.


Como o que restava essencialmente era a paisagem para ser observada, pude contemplar um grande número de araucárias, um pinheiro muito mais típico da região Sul do Brasil, em um bioma conhecido como Mata de (oh!) Araucárias. Não sou um botânico de renome, mas é uma árvore muito sui generis, alta e de copa pouco encorpada. Fazem um contraste bastante interessante com a tapeçaria verde mais intocada dos seus montes.


O morro onde fica este cruzeiro dá uma boa dimensão da presença destas árvores, além de denunciar o quanto são íngremes as terras desta freguesia. Subimos a pé para tirar umas boas fotos da redondeza. Incompetentemente, a máquina ficou esquecida no carro e não tive pernas para voltar a amassar todo o barro necessário.


Marmelópolis é cortada pelo rio Lourenço Velho, que serpenteia a serra com água extremamente gelada. É possível observar suas margens por todo o trecho urbano e por boa parte da grande zona rural.


Aliás, temos aqui uma rara ocorrência de município onde a população rural se equilibra com a citadina. Essa divisão proporciona a apreciação de coisas que não são mais tão fáceis de se encontrar, como o registro do transporte de cargas por muares (e a indefectível companhia de caninos), algo muito comum na história tropeira destas plagas. De fato, aqui cabe o jargão de que o tempo passa mais devagar.


Estávamos na semana em que se comemora o dia de Nossa Senhora Aparecida, escolhida pelos membros do clero como padroeira do Brasil. Há diversos municípios que a escolheram como protetora local também, exatamente o caso de Marmelópolis. Numa circunstância dessas, era óbvio que a matriz seria dedicada à santa em questão. A igreja nem é tão grande, mas estava bastante agitada com os preparativos para a festa que viria poucos dias depois. Sentamos um pouco na pracinha para observar o agito, e acabamos puxando papo com algumas mulheres que lá estavam trabalhando, com seus jeitos peculiares de falar e de narrar os fatos.


Não quis ficar perturbando muito, já basta o mister de cada uma, para ainda ter que dar atenção a visitante chato, o que elas fazem com maestria. Fui dar uma espiada por dentro da tal igreja, muito simples de fato, mas que tem uma característica digna de nota: um tabernáculo* escavado dentro de um tronco. Normalmente, este objeto fica encravado na parede ou embutido em um altar, o que dá uma ideia da originalidade de quem o bolou.


A fome apertou bastante, e fomos caçar comida, devidamente encontrada em um restaurante que fornecia aquelas coisas bem típicas de região, como carne de porco e muita coisa cozida na banha. A natureza é uma grande fanfarrona: as coisas mais saborosas são as que mais fazem mal. Mas havia também outra especialidade destas terras altas, muito frequente em São Francisco Xavier, no interior de São Paulo – as trutas.


O dono do estabelecimento é o Silvio, que é um sujeito paradigmático do homem do interior. Conversas longas sobre os tempos de menino, da partida para a cidade grande e do retorno à tranquilidade após as agruras e aposentadoria. Nesta casa, mais duas tipicidades que só encontrei aqui: a cachaça com marmelo...


... e o suco de marmelo, feito a partir de um purê processado da fruta, já que a mesma, in natura, é impossível de comer, dura, fibrosa, amargosa, apesar de seu parentesco com a maçã e a pera, bem mais amigáveis. Não era época, não tinha marmelo.


O nome da cidade é curioso e óbvio. O antigo distrito de Queimada, pertencente ao município de Delfim Moreira, começou a se especializar no cultivo do marmelo, planta oriunda da Ásia Menor, e que se adaptava muito bem às condições climáticas daquela área. Até a década de 80, o negócio da marmelada era bastante próspero na região, e a fruta virou uma espécie de mascote, como pode ser vista no Marmelus Club e em todo o comércio.


A pujança do negócio de marmelo levou fábricas grandes para o município. Na praça em frente à matriz, onde hoje permanecem um coreto e um quiosque de artesanato, estava situada a CICA, uma das maiores empresas de produtos alimentícios da época, conhecida em todo o Brasil e uma grande exportadora. O elefante Jotalhão, por exemplo, era utilizado em suas embalagens para fazer propaganda. Todo mundo acima dos trinta lembra da marca, que foi absorvida por outra gigante do ramo em meados da década de 90.


Mas os tempos não seriam generosos para todo o sempre. O marmeleiro é uma árvore enjoada, difícil de cuidar, e, com o país economicamente em frangalhos, os produtores rurais foram mudando as culturas que produziam. Por toda a cidade, encontramos fábricas abandonadas.


A diminuição da taxação de importações foi uma pá de cal nessa atividade econômica. Ficava muito mais barato para os grandes fabricantes importar as frutas diretamente da Ásia do que manter as plantações no Brasil.


Neste caso, perdia o sentido manter pequenas fábricas em rincões mais longínquos, não servidos de transporte eficiente. Ferrovia por aqui foi apenas um projeto. Hoje em dia, apenas há o testemunho de construções já deterioradas, quase inexistentes, como é o caso desta chaminé próxima ao rio.


Nos tempos atuais, a produção de marmelo na cidade somente permite a existência de uma última fábrica, bem acanhada, pertencente ao Moisés e sua família. Fomos até lá para ver como é feita a coisa, e se poderíamos conseguir alguns de seus produtos.


O doce é feito a partir de uma pasta bruta armazenada em latas, a mesma utilizada para fazer o suco que tomamos no almoço, que é cozida e mexida até pegar o ponto de corte, para depois ser moldada em seu formato próprio. Além disso, é produzida na cidade uma geleia que mistura marmelo com laranja.


Como nós, diabéticos, somos colocados em um plano meio que esquecido no mercado, não havia marmelada diet. E é um doce que eu simplesmente adoro. A solução foi conseguir uns três quilos de pasta bruta na fabriquinha. Corremos até uma loja no centrinho e compramos um pote com tampa, que preenchemos à plenitude com tal produto, para depois ser preparado com frutose, menos proibitiva à espécime de sangue doce.


Bom... Durante esta breve estada, constatei um fenômeno interessante. Eu confesso que sou altamente influenciável no quesito sotaque. Se eu conviver com alguém que puxe um “S” com som de “X”, lá vou eu puxar um “S” com som de “X”; se eu ficar uns dias no Paraná, já chamo todo mundo de piá, e leite queNte dá dor de deNte na geNte. Idem nos meus rolês pelo interior, como neste de agora. Mas, em geral, o efeito se sente ao cabo de alguns dias, especialmente quando confrontado ao retorno de minha paulistana realidade. Só que dessa vez, a coisa foi sentida logo.

Imediatamente após o almoço, quando ficamos mais de uma hora papeando com o precitado Silvio, fomos dar uma volta, para fazer o resto do quilo e procurar o tal pote para guardar a pasta de marmelo. Nos diálogos do caminho, a constatação da esposa: “Percebeu que a gente já tá falando igual mineiro?”. De pronto, lembrei da mocinha da padaria de Jesuânia, e sua enciclopédia de mineirês. Mas, no nosso caso, a coisa estava mais para a melodia entrecortada de desistências silábicas do que propriamente no linguajar, coisa de sotaque mesmo. Que coisa... Por que será que isso acontece? E por que cada vez mais rápido?

Vou me escorar na Psicologia Social do polonês Robert Zajonc para tentar entender. Mas, para isso, vou ter que passear por uma das principais correntes psicológicas de todos os tempos, o behaviorismo (ou comportamentalismo).

Grosso modo, os comportamentalistas não estão interessados no funcionamento mais profundo da mente, como fazem os adeptos da psicanálise, mas em quais são os aspectos práticos do que faz com que indivíduos se comportam de maneira X ou Y. Por exemplo, passo pelo corredor de bolachas de um determinado mercado. Meu comportamento padrão é passar batidos pelas doces, sendo eu gordo e diabético, e caçar alguma coisa inocente pelas salgadas. Todavia, algo pode modificá-lo: há novas bolachas diet, ou novos sabores, ou seus preços baixaram. Isso me estimula a comprar mais bolachas, mas o inverso também é verdadeiro. Um preço que sobe, uma marca que some, uma consciência de excesso de peso, tudo isso me reprime o ato da compra. O primeiro é um estímulo positivo; o segundo, negativo. Esses reforços são utilizados largamente em educação, até mesmo quando estamos em casa, tentando estimular nossos filhos a fazer a chatíssima lição de casa. Algumas vezes isso é feito de forma ética, elogiando as boas notas; em outras, tenta-se comprar o fedelho, oferecendo-se algum mimo pelo bom desempenho. De uma forma ou de outra, o objetivo é reforçar o comportamento, através de uma recompensa. Ou, ao contrário, desestimulá-lo, com a aplicação de castigos.

Pois bem. O comportamento, assim colocado, fica obviamente movido por estímulos, aos quais damos algum tipo de resposta. Mas isso nem sempre está tão na cara, como nos exemplos acima. A mente humana é capaz de perceber estímulos muito mais sutis, e, às vezes, involuntários. É aí que entra o objeto da pesquisa de Zajonc, chamado de mera exposição.

Nosso psicólogo queria pesquisar porque temos situações em que nos sentimos mais confortáveis do que em outras, sem que haja um motivo explícito para tanto. É claro que um forte estimulante, seja positivo ou negativo, vai produzir efeitos imediatos e evidentes. Eu, por exemplo, sinto-me incomodado em qualquer ambiente onde haja música (ou algo assim chamado) em volume que me impeça de conversar, a não ser que eu me proponha a ir a um show. Mas isso tudo está no campo da racionalidade. Acontece que há lugares extremamente agradáveis sem que percebamos logo de cara o porquê. Zajonc apostou em uma familiaridade inconsciente. E, a julgar pelo resultado de suas pesquisas, acertou.

Os experimentos de Zajonc eram extremamente simples. Em um deles, era exibida a um grupo de voluntários uma sequência rápida de imagens geométricas, de modo que não fosse possível fixar-se demoradamente sobre nenhuma delas. Ao final, eram exibidas em um quadro todas as imagens que fizeram parte da sequência, sem, no entanto, aparecerem repetidas. A pergunta era: Qual destas imagens lhe é mais agradável? A imensa maioria dos pesquisados apontava para as figuras que haviam sido repetidas mais vezes. Junto com outras investigações do mesmo tipo, Zajonc concluiu que a simples exposição de algum objeto com maior frequência, por si só, era capaz de produzir um efeito de familiaridade, sem que tal objeto tivesse algum destaque extraordinário sobre os demais. Em cima desta constatação, uma série de especulações passou a ser feita.

Algumas delas: a afetividade não é racional, muito pelo contrário. Passamos a gostar cada vez mais de um objeto qualquer à medida que aumenta nossa exposição a ele pelo fato de que esse acréscimo nos dá uma sensação de estabilidade. Sabe aquele minúsculo quadrinho no corredor, que foi repassado de sua avó para a sua mãe? Pois é. O dia em que ele for retirado da parede, seu subconsciente vai captar e te provocar uma sensação estranha, mesmo que você nem se desse conta da sua existência. É que o quadrinho, pela sua constância, é uma sensação estável, de que tudo está no seu lugar, algo que lhe indica a segurança de seu lar. E, atavicamente, temos um certo conservadorismo, porque essa é a vida que está dando certo. Afinal de contas, estamos vivos, não é mesmo? Sim, esse é o tipo de percepção que vem lá do fundinho. Novidades, nesse sentido, não são bem-vindas, até que o efeito da mera exposição opere mais uma vez e também elas se tornem estáveis. Isso pode ser visto em inúmeras espécies, que ficam tremendamente ariscas perante algo desconhecido.

Zajonc produz teses que se assemelham bastante ao voluntarismo de Arthur Schopenhauer (leiam mais aqui). Este último dizia que os pensadores se enganavam quando diziam ser o homem um ser racional. A primazia ficava pela vontade informe e eterna, insaciável e perturbadora, algo que atuava no nível irracional. Muito antes de pensar, o ser humano deseja, e isso lhe move. Para Zajonc, por sua vez, temos uma anterioridade dos afetos com relação ao raciocínio. Nosso cérebro precisa muitas vezes de respostas rápidas, e, para tanto, lança mão do que está mais prático. A própria heurística usa esse mesmo dispositivo (já falei aqui sobre este tema), mas o fato é que temos muito mais coisas ao nosso redor do que podemos processar racionalmente. Por isso, as coisas que nos reconfortam e acomodam são percebidas primeiramente neste nível, para somente depois serem ponderadas.

Para demonstrar bem as assertivas acima, basta que pensemos que qualquer coisa que percebamos sempre é acompanhada por um julgamento do âmbito afetivo. Olho para uma pessoa e sempre colo a ela um conceito de beleza ou feiura, simpatia ou arrogância, cara de bobo ou de malandro. Como estas percepções não são objetivas, e variam de pessoa para pessoa, são claramente movidas por nossos afetos. E não adianta: eu passo do lado de uma praça mal cuidada, lá vou eu ter a sensação de desagrado, automaticamente.

Essa moção do afeto em precedência à cognição explica porque a quantidade de vezes a que somos meramente expostos a uma coisa qualquer faz com que tenhamos essa tendência a uma conformidade gradualmente maior. E isso nos faz migrar da Psicologia Cognitiva, que estuda como apreendemos o mundo ao nosso redor, para a Psicologia Social, que tenta entender como a cabeça influencia nosso convívio com o outro. Quem usa muitíssimo bem essa característica é a publicidade. Esse é um dos motivos pelos quais as marcas se tornaram cada vez mais expostas e mais movidas pela imagem em si do que pela escolha racional (como eu já escrevi neste post). Só que isso não está adstrito aos limites ambientais, mas na própria relação interpessoal. Temos uma propensão natural em desenvolver amizades com pessoas que vemos com mais regularidade. Ora, direis, é óbvio, né? Se eu tenho mais contato com uma pessoa, eu terei mais facilidade de falar com ela, pelo próprio contato visual. Mas não é essa a questão. Se você estiver perdido e encontrar na rua duas pessoas, sendo uma que você nunca viu mais gordo, e outra que você vê todo dia, ainda que nunca tenha conversado com ela, terá uma inclinação a confiar mais na segunda. Você não sabe absolutamente nada sobre ela, além do fato de que a vê sempre. Independentemente de racionalizações, isso já é uma informação subconsciente: essa pessoa pertence ao seu universo, e você ainda subsiste no seu universo, mesmo com todos os seus problemas.

Não seria o efeito da mera exposição uma explicação para a facilidade com que mudo o meu modo de falar? Percebem como tendemos a aproximar nossas atitudes e gestuais dos membros de nossa família? Outro dia, estava assistindo o programa Linha de Passe, da ESPN, e, participando da mesa redonda estava o jornalista André Kfouri, filho de Juca Kfouri. Em um determinado momento, dei-me conta de que a semelhança das expressões faciais de ambos é ainda mais marcante do que as semelhanças físicas, coisa esperada entre pai e filho. Duvido que Juca tenha ensinado ao André “faça a cara assim e assim”. É algo que é absorvido pelo contato e pela habitualidade, irracionalmente, exatamente como preconiza a tese da mera exposição. Um ser gregário mimetiza aqueles que o rodeiam, especialmente quando se sente em posição confortável. Por isso, não seria estranho pensar que, à proporção que viajo para regiões com aspectos semelhantes, que me agradam bastante, que ocorrem em momentos de descontração e relaxamento, alguns dos efeitos psicológicos aqui descritos sejam disparados, e eu comece a engolir vogais, puxar erres, trocar “O” fechado por “U” e assim sucessivamente.

Tudo isso eu percebi em Marmelópolis. Caramba! Bons ventos a todos...

Recomendação de leitura:

Um livro bem antigo, normalmente encontrado somente em sebos ou em bibliotecas de universidades.

ZAJONC, Robert. Psicologia Social. São Paulo: Herder, 1969

* No Catolicismo, é uma caixa onde se guardam as hóstias já consagradas, ou, conforme sua doutrina, o pão já transubstanciado no corpo de Cristo. É possível saber se o tabernáculo (ou sacrário) está sendo usado ou não, através de uma luminária chamada de lâmpada do santíssimo. Se está acesa, tem hóstia. Na foto, está no canto alto do lado esquerdo. Normalmente fica mais próxima do próprio tabernáculo, mas acho que não há uma regra muito rígida para a sua colocação.