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segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Sobre o complexo de inferioridade e os momentos em que ele deixa de ser normal

(Baixinho invocado é um dos maiores estereótipos que conhecemos. Mas o complexo de inferioridade existe)

“As pessoas normais são aquelas que você não conhece bem” 

Adler

Olá!

Vocês acham que os baixinhos são mais bravos? Eu tenho lugar de fala (explicações sobre esse mal utilizado termo aqui e aqui), porque a patroa é, e não é muito difícil de fazê-la explodir. Se você parar para pensar, vai logo lembrar de cinco ou seis tampinhas que são bastante empombadinhos, e a quinta série de plantão acaba por lhes imputar apelidos tão mais ofensivos, quanto mais contundente for sua reação: pintor de rodapé, mecânico de Autorama, salva-vidas de aquário, caixa do Banco Imobiliário, pedreiro de Lego, esquiador de freezer, zagueiro de pebolim, lenhador de bonsai, Tarzan de samambaia e outros menos votados. Lembro logo dos líderes de desenvolvimento com os quais eu trabalho e há, de fato, um bastante irritadiço e confrontativo, logo o mais baixinho deles: “não faço, não estava no projeto”, “estamos errados até quando estamos certos”, “o prazo já foi dado e não tem como encurtar” e assim por diante. É duro na queda quase que por costume, porque sabemos como são difíceis prazos e orçamentos. Basta lembrar que a panaceia universal para justificar atrasos saiu do trânsito e veio para os sistemas, esses malvados. Demorou o metrô? Sistema. Tem fila no caixa? Sistema. O pão desandou? Sistema. Sendo assim, já subimos a cidadela quase que naturalmente, sem a necessidade de se medir alturas.

Claro que a questão da dotação é rematada bobagem, derivada de uma pretensa Síndrome de Napoleão, que, em tese, levaria as pessoas de baixa estatura física a compensar sua humilde biometria com prepotência e agressividade desproporcional, como uma forma de autodefesa gerada por um complexo de inferioridade. O nome se deve ao famosíssimo general francês, Napoleão Bonaparte, conhecido pela genialidade nas estratégias militares e habilidade política. Há uma série de erros na sua vinculação a uma suposta ideia de supercompensação pela sua pouca altura. A primeira é que ele não era, de fato, baixinho, ao menos para a época em que viveu, mas um homem de estatura mediana. Provavelmente essa ideia se deve mais à sua compleição achatada, de tórax e abdômen alargados, do que propriamente à altura. A segunda é que ele não era nem mais, nem menos cruel do que seus colegas militares, mas a quantidade de conquistas amplia tanto seus números quanto o temor psicológico que seu nome causava. E a terceira é que o complexo de inferioridade, embora possa de fato trazer um impulso a compensações com outros atributos pessoais, não está bem caracterizado nesse caso. Mas é um nome que pegou, não vamos lutar contra isso e vamos continuar amigos. Um dos pares do referido líder de desenvolvimento é, se muito, meio centímetro mais alto, e é dócil como um gato em dias de bajulação. Portanto, a síndrome de Napoleão é, até prova em contrário, pertencente ao senso comum, ou, mais claramente, uma amostra de hipótese pseudocientífica.

Mas eu falei sobre o complexo de inferioridade no meu texto anterior, e eu parei no meio do caminho para não me estender demais, sob a promessa de retomar o tema em seus princípios. Então vamos tratar um pouco mais sobre esse interessante tema, que se baseia em uma transição de idades em que passamos a reconhecer nossas potencialidades e deixamos de nos considerar inferiores. O problema é quando isso não acontece.

A psicanálise freudiana, posta de lado suas polêmicas, trouxe novidades nos termos das pesquisas psíquicas. A mente passou a ser estudada em seus recônditos inaparentes, e justificativas para os acometimentos que se reputavam com estereótipos, tipo a histeria das mulheres mal-amadas, começaram a ganhar novas abordagens, com o surgimento de conceitos que surgem nas derivações da psicanálise, mais especificamente, em nosso caso, pelas mãos de Alfred Adler, que desenvolve uma corrente que viria a ser conhecida como psicologia do desenvolvimento individual, ou mais simplesmente Psicologia Individual. Seu principal fundamento está nas modificações que cada indivíduo tem no transcorrer de sua vida, e sua pedra de toque é o conceito de complexo de inferioridade.

A palavra inferior tem sua raiz na palavra grega infra, que significa aquilo que está por baixo. Inicialmente, não tem nenhum significado pejorativo ou diminutivo, indicando unicamente uma situação posicional. Por exemplo, as pernas estão abaixo dos braços, ou a derme está abaixo da epiderme. O inferus, palavra que deriva deste radical, não é inferior por ser ruim, mas por estar na parte de baixo, estar oculto, estar mais aprofundado. Portanto, somente quando estabelecemos um relacionamento qualitativo que o inferus vai ganhar um aspecto de pior, de menos capacitado. Quando somos crianças, e em relação a adultos, temos desempenhos físicos relativos inferiores. Claro: não temos nossa compleição física tutta intera, ainda cresceremos e aprenderemos a utilizar melhor nossos equipamentos orgânicos. Entretanto, é nesse mesmo momento, em que ainda somos pequenos diante do mundo, que começa a se formar nossa personalidade. Não temos nenhum tipo de consciência do que é o mundo e, pior ainda, do que são as relações sociais tão logo nasçamos. Só sabemos que temos fome, que estamos sujos, que está frio ou calor, que queremos um colo macio. Palavras como alteridade e empatia não conhecemos nem de passagem, nem por conhecimento (óbvio), nem por sentimento. Somos, portanto, os centros de nossos universos, egoístas por excelência. Mas o transcurso do desenvolvimento faz com que percebamos, lentamente, que nossa posição central é frágil e que não somos objetos de permanente atenção. São estes os momentos em que começamos a aprender outros sentimentos negativos, menos orgânicos, mas igualmente permanentes. É quando surgem raiva, ciúmes, inveja. E, com eles, vem a competição, inicialmente dentro da própria casa: entre os irmãos, entre o pai e o filho que disputam a mãe. Isso tudo parece cruel, mas é a linha com a qual nossos primeiros anos são tratados. Normal.

Vamos combinar que ninguém nasce grande e vai ficando pequeno, nem nasce sabendo e vai ficando burro, portanto, essa linearidade é inerente aos seres, não só humanos, mas principalmente eles. Todos passamos por esse momento de inferioridade, que nada tem de negativo quando vividos nos momentos certos. Eis que sabemos, quando pequenos, que nós temos inferioridade com relação aos que são mais velhos que nós. Pedimos para eles pegarem coisas nos altos, perguntamos sobre coisas que ainda não sabemos, queremos que peguem coisas mais pesadas. Isso está na normalidade das coisas, e uma das que aprendemos é que haverá um momento em que estaremos no mesmo patamar daqueles a quem recorremos neste momento. O processo de desenvolvimento providenciará para que chegue nossa vez. É aquele momento tonto em que achamos que deveríamos chegar logo à maioridade e parar de depender dos outros. Santa ignorância, Batman…

Um dos aspectos do amadurecimento está no reconhecimento de que, mesmo completamente desenvolvidos, atingimos um determinado patamar que é nosso limite. Eu, por exemplo, adoraria estar no nível dos grandes bateristas deste universo conhecido, dos grandes escritores, dos excelentes professores, mas um belo dia cheguei num ponto em que eu não ia mais além de onde estava. Eu sou inferior tecnicamente a uma montanha de gente, e isso não é um problema, é só uma questão de autoconhecimento. Quer dizer, não é um problema se eu não me retrair ao mundo por conta disso, ou que eu não tente supercompensar além dos limites aceitáveis para suprir essa carência.

O primeiro acontece quando um aspecto da minha inferioridade me faz supor que isso seja generalizado, que eu seja ruim em tudo. Isso fará com que eu me retraia a tal ponto que nada do que me for potencial aflorará. São aquelas pessoas com excesso de timidez, que procuram passar despercebidas em qualquer canto onde estejam. Isso está fora do escopo das boas relações humanas, porque, ora essa, somos seres sociais e dependemos de um pacote de relações mínimas para sobreviver. Se alguém perdeu o ponto de virada do amadurecimento, viverá precariamente para sempre.

Já o segundo é uma reação exagerada e irrealista à condição de inferioridade, fazendo com que todas as reações de confronto com pontos em que a pessoa se considera hábil sejam exponencializadas, às vezes de forma agressiva. É por isso que se diz que pessoas violentas no trato são complexadas com seus defeitos, o que nem sempre é verdade.

Adler concluiu que esses fenômenos psíquicos ocorrem em decorrência de desencontros na transição entre as idades infantil e adulta, normalmente ocasionados por um quadro de restrições durante os primeiros anos de vida. Crianças que não recebem adequada atenção dos pais, que têm seus erros reforçados e seus acertos subestimados costumam ter em si mais arraigados os complexos de inferioridade em suas duas formas.

A questão toda é que a mente humana plasma dentro de si todo o painel competitivo que a própria vida tem e, crueldade das crueldades, é em casa que temos o primeiro ambiente de embates. Imagine, por exemplo, que você é o irmão do meio de um trio de encapetados. O seu irmão mais velho goza da força típica daqueles que já condensaram no corpo mais células, além de contar com uma certa experiência a mais (e um pouco de opressão aplicada). O mais novo aproveita do beneplácito dos pais e lança mão justamente da sua fragilidade para conseguir maior proteção. Você, o do meio, é inferior fisicamente ao mais velho e politicamente ao mais novo, e fica naquela espécie de lugar maldito de quem não tem vantagens. Se seus pais forem suficientemente habilidosos e aprenderem com o tempo, isso será apenas uma lembrança quando as coisas se igualarem. Só que se não forem, você poderá se sentir uma espécie de pária, que nem é tão forte, nem merece tanta proteção.

Adler vem da escola freudiana, mas diverge do guia em pontos decisivos. Os principais são a menor primazia dos recalques e pulsões de origem sexual e uma maior participação da instância consciente na psiquê humana. No primeiro caso, Freud entendia que muito do que molda a psiquê vem dos apetites sexuais que se desenvolvem desde a mais tenra infância, a fonte de prazer por excelência, colidindo com a moral reinante, que via as crianças como reservatórios de pureza. É óbvio que não se tratava de dizer que as crianças estavam dispostas e disponíveis para o ato, mas que já colocavam em desenvolvimento aquilo que viria a ser sua sexualidade final, e as maneiras como recebiam repressão tornava se uma fonte inesgotável de neuroses na idade adulta. Adler, por seu lado, levava a sexualidade para um papel mais simbólico, e compreendia que a personalidade era moldada por aspectos mais totalizantes e integrados. Não é a sexualidade, mas as interações sociais que melhor moldam, que se refletem em estilos de vida. Além disso, embora concorde com as instâncias de inconsciência, Adler entende que o ego não é tão imobilizado pela guerra entre id e superego. Freud enfatiza o passado na formação da personalidade, enquanto Adler acredita que o indivíduo pode se mover por metas, ou seja, ter o futuro como guia da personalidade. Enfim, tanto Freud quanto Adler teorizam que o ambiente social tem influência sobre a formação da personalidade, mas o primeiro vai pelas repressões do superego, enquanto o segundo entende que a sociedade é o meio pelo qual o indivíduo ganha objetivos.

Portanto, nas teorias de Adler, aqueles indivíduos que excedem os consensos sociais são movidos por um complexo de inferioridade que não foi bem modulado no momento de transição adequado, mormente pelas dificuldades interpostas pelo meio onde viveu em seus primeiros anos. Comportamentos neuróticos são uma resposta orgânica à tentativa de superar o sentimento de inferioridade. O grande problema, que o desvia da média geral da população, é o descolamento da realidade: ele persiste se vendo como inferior em lugares onde ele não é, ou se vê extra superior em aspectos onde ele não chega a tanto. Enfim, é um transtorno da visão de realidade.

Sendo assim, baixinhos não são naturalmente mais agressivos para uma suposta defesa antecipada, ou por se sentirem inferiores. Eles são tão agressivos quanto seus estilos de vida os tornaram, e o quanto eles se propuseram a sair desse estado. Bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

Mais um livro de Adler para aprofundar o sentido de seus pensamentos. Leia-o por um prisma filosófico, e você se sentirá mais confortável.

ADLER, Alfred. El Caracter Neurotico. Buenos Aires: Paidos, s. d.



segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

Sobre os paradigmas que justificam a estrutura religiosa do pensamento e o Pequeno guia das grandes falácias – 77º tomo: o retorsio argumenti

(Por que a maioria esmagadora da população professa uma fé, ainda que a cada dia que passa ela fique mais difícil de justificar?)

“Mais cedo ou mais tarde a criança adquire consciência de sua inaptidão para lutar. Sem a ajuda de outrem, com as dificuldades da existência. Este sentimento de inferioridade é a força geradora, o ponto de partida dos impulsos combativos das crianças. Será ele que determinará o modo por que a criança adquirirá paz e segurança na vida, será ele que determinará a própria meta de sua existência e preparará o caminho pelo qual essa meta será atingida”.

Adler

Olá!

Clique aqui para ver a lista das falácias já publicadas

Como tenho dito para vocês, minha vida tem sido um eterno trafegar entre São Paulo e Taubaté, pelo miolo daquele bico que se aproxima do Rio de Janeiro conhecido como Vale do Paraíba. Por óbvio, esse nome diz respeito ao acidente geográfico formado pelo Rio Paraíba do Sul, nascido pela junção os rios Paraitinga e Paraibuna, que fazem um insólito percurso que vai rumo à Capital, para fazer uma curva na altura de Guararema e pegar a rota do Rio, onde vai desaguar no mar. Coloquei um mapinha no fim do texto para facilitar a compreensão.

Toda essa região é muito antiga, logo dos tempos da fundação deste inusual país, e, como tal, tem uma carga muito grande de história, embora respeito ao patrimônio histórico não seja exatamente nosso forte. É daqui, por exemplo, que o movimento dos tropeiros nasceu e se consolidou, especialmente após a descoberta de minérios valiosos na região do que hoje é Minas Gerais. E também aqui várias povoações foram nascendo e crescendo, com a preponderância da cultura portuguesa, o que trouxe muitas igrejas para cá, algumas delas ainda hoje de pé.

Para mencionar apenas algumas das mais importantes, temos o santuário da Rosa Mística em Jambeiro, o convento de Frei Galvão em Guaratinguetá, o convento de Santa Clara em Taubaté, a igreja da Santa Cabeça em Silveiras, o mosteiro da Sagrada Face em Roseira, além de muitas e muitas outras, assim como novos espaços da religiosidade, como a Canção Nova em Cachoeira Paulista e o Memorial do Padre Leo em Lorena, além, obviamente, da basílica de Nossa Senhora Aparecida, em um conjunto composto pela bela igreja original e pela gigantesca igreja principal, assustadora em suas dimensões. Isso se deu por conta da velha e bastante conhecida história da padroeira: um grupo de pescadores lança suas redes no Rio Paraíba do Sul e traz o corpo de uma santa, mais especificamente de Nossa Senhora da Conceição, porém sem sua cabeça. Na sequência, lança a rede novamente e, desta vez, vem a cabeça, em perfeito encaixe. Ato contínuo, a pesca escassa de até então passou a ser abundante. Reputado como milagre, o fenômeno fez com que a imagem fosse acomodada em um nicho humilde e, a partir daí, pegando fama crescente, até chegar no atual status: padroeira do Brasil.

Então é muito comum para estes lados vermos as romarias, peregrinações de muitos quilômetros que tem seu nome baseado nas visitas que as pessoas de fé faziam a Roma, sede da Igreja Católica, onde, diz-se, São Pedro teria sido levado a martírio lá pelos idos do primeiro século da era comum. Essas caminhadas, dizem os romeiros, servem para reflexão, oração e penitência, o que dá alimento para a fé. Há caminhos feitos por trilhas partindo de várias partes do país, mas é na Dutra que mais se vê romarias, especialmente por ocasião da data magna da santa, 12 de outubro. Há romarias a pé, de cavalo, de charretes, de bicicletas e, claro, nos ônibus de excursão, fretados pelas igrejas para esta festividade.

Estamos, evidentemente, falando no âmbito católico, a religião que mais participou da formação cultural do brasileiro, embora não se devam desprezar as influências indígenas e africanas, e nem se esquecer da virada evangélica que vem se processando desde a década de 80 do século passado, época em que eu era um jovem guapo e trigueiro. É, portanto, algo que já está bem sedimentado nos nossos conceitos e não causam estranheza, mesmo quando já não se vivencia a fé. Um caminhoneiro percorrendo a Dutra não tem nenhum estranhamento ao ver aquele monte de gente com cajados e terços nas mãos, vestindo camisetas de cor berrante e imagens de suas respectivas paróquias. Pode até ridicularizar a atitude, mas não se admira com ela. Entretanto, esse esquema de sacrifícios por uma divindade que não se vê, que se faz discutível no atendimento dos apelos que se fazem a ela e que por vezes tem a mão pesada contra predisposições naturais de seus fiéis torna admirável tanta fidelidade, e é preciso tentar compreender essas atitudes que, muitas vezes, parecem contraintuitivas.

Um dos pontos a ser observado é: por que acreditamos em uma transcendência? Tem a ver com a falta de clareza com a qual absorvemos o universo, o que ocorre desde que nos entendemos por gente. E isso está no nosso subconsciente ainda nos dias de hoje.

Sabe quando você fica em silêncio no quarto de dormir? À noite, estamos privados da visão, nosso mais apurado sentido, e colocamos na audição a tarefa de decifrar o mundo, o que já torna a coleta de dados mais imprecisa. Há uma série de ruídos que são fáceis de decifrar, como os murmúrios do vento, o ruído da chuva, um gato no telhado. Mas nem sempre é possível traduzir com exatidão o que se passa lá fora. Não é preciso que haja nada de especial, mas é a ciência de que há um universo girando para além da nossa cognição.

Os processos que nos fazem entender que há um “lá fora” com relação ao universo sensível são semelhantes ao quarto noturno. Aguçamos nossos sentidos para compreender de onde vem os fenômenos observáveis e a sensação de que tudo se move regido por uma forma de inteligência fica tão patente que se torna difícil aceitar mecanismos outros.

Isso se desenvolve por milênios. E serve como uma luva não somente para deduzir fenômenos naturais, mas para também para responder a perguntas cabais no psicológico humano: o que há no post mortem? Como se desenvolve a vida para além desta realidade vivida? Teremos uma vida “lá fora”? No que ela seria diferente da vida real?

Percebem como esse pensamento de fundo pauta toda e qualquer religião? A denúncia é feita pela própria origem da palavra: religar a humanidade colocada no mundo sensível às origens dadas por suas supostas divindades, como um filho que volta à casa de seu pai depois de ter passado anos distante. Sendo um destino comum a todos, o mundo fica irmanado, tanto na sua consciência de fim, quanto na sua perspectiva de realidade exterior. O que muda são as formas, mas a lógica é sempre a mesma. Ou seja, não é algo de indivíduos, mas da espécie como um todo. Ou seja de novo, a consciência humana é moldada para crer em deuses.

Tudo isso chega a ser bonito. É um resumo da busca humana por explicar a si mesma e de reconhecer sua pequenez. Isso não teria nada demais se não representasse, na imensa maioria das vezes, um argumento para dar balizas morais a priori, e, mais profundamente, a fazer o exercício do poder.

Como é incerta a presença de algo “lá fora”, mas os sinais são muito bons nesse sentido, é de se supor que haja ali uma vontade, já que faz pouco sentido achar que o universo gire a troco de nada. Essa vontade não é expressa em palavras, a não ser para meia dúzia de iniciados, que, em tese, portam esse interesse da divindade sem que seja necessário provar nada. É suficiente que eles existam, suas palavras têm uma espécie de fé pública para a grande comunidade privada de contato direto. Os próprios ministros tendem, conscientemente ou não, a imputar seus próprios valores à divindade, que ficaria satisfeita com todos aqueles que cumprissem à risca seus supostos ditames. E nós nos entregamos às interpretações dos iniciados porque eles parecem trazer respostas para nossas questões, que são sempre muitas.

O substrato de fundo se apoia em dois quesitos: a curiosidade e o instinto de preservação. Só que, parando para pensar, percebemos que ambas se imiscuem. A curiosidade não é só uma distração de desocupados que buscam saber das novidades acerca da filha dos outros, mas uma ferramenta que permite agregar informações sobre fenômenos que podem ser perigosos. Desta forma, sobrevive mais quem é curioso, ao contrário do que preconiza o ditado do gato.

Então, sim, poderíamos pensar em uma vantagem evolutiva em se crer em uma divindade, como, de resto, é vantajosa qualquer associação entre indivíduos que, no final das contas, são muito mais fracos desunidos. Ao contrário de um tubarão, que não tem grandes benefícios de agir em consórcio, um pobre humaninho sozinho é presa fácil das feras e das circunstâncias. E a religião é, sabemos, um dos principais ferramentais dos sentimentos de pertença e de gregarismo.

Só que o fenômeno é bastante complexo, especialmente quando observado pelo campo do psíquico, e podemos tentar algumas conclusões pela observação das estruturas comuns dos pensamentos.

Sabemos que as religiões, algumas mais declaradamente, outras de modo mais tácito, funcionam com uma lógica de submissão. Embora não seja algo assumido, o fato é que deuses não são parceiros, mas superiores hierárquicos. São chamados de pai, senhor, rei e outros termos que denotam uma linha de subordinação, sempre com eles acima, como é de se supor. Essa é a regra (das exceções, não vou tratar agora).

Mas onde nasce essa ideia de estar abaixo, de ser inferior? De acordo com o psicanalista Alfred Adler, austríaco que travou uma vertente da psicanálise de Freud, muito do nosso atitudinal vem da maneira como é constituída nossa infância.

Comecemos com uma experiência pessoal. Quando eu era criança pequena, tinha uma tia-avó que era caseira em uma chácara na região de Campo Limpo Paulista. Era daquelas propriedades de lazer, e não de trabalho, exceção feita à hortinha da própria tia Nica. Era uma terrinha toda bem equipada, com todas essas coisas do estilo recanto do guerreiro: churrasqueira, campinho de futebol e, claro, uma piscina. Não era, naturalmente, para o nosso bico, e sim dos donos, então a atração era o pão caseiro da tia. Mas restava a observação, e, na minha cabeça pueril, a piscina era enorme, tipo aquelas olímpicas, que comportaria facilmente alguma competição local.

Anos depois, já com a tia Nica e o tio Antônio devidamente encaminhados ao seu destino final, fui levar meu convite de casamento ao primo Gilberto, que lá ficou remanescente. Como era comum que este último viesse nos visitar, deixamos de ir à chácara, e, nisso, estou falando de mais de vinte anos. No caminho, fui falando das recordações com a futura patroa, e de como tinha lá uma piscina enorme. O fato é que, embora fosse de fato uma boa piscina, dos tempos em que eram feitas de alvenaria, não tinha nada mais que uma dessas modernas, feitas de fibra. Cheguei ao ponto de perguntar se os donos tinham mudado o equipamento, ao que o primo garantiu que não. Era uma imagem reservada tão distorcidamente na memória que era capaz de me fazer criar realidades alternativas.

Isso não significa que eu sou louco, mas que era criança e, portanto, via tudo maior do que vejo hoje, até mesmo por uma questão de tamanho. Se hoje eu entrasse naquela piscina, ficaria com a cabeça para fora estando de pé. Com meus cinco anos, morreria afogado inapelavelmente, o que nos leva a concluir pelo óbvio - tamanho faz diferença.

Nas nossas raízes mais profundas, observamos que nascemos biologicamente prematuros. Enquanto uma girafa pare filhos que já nascem andando, ou um pintinho já sai do ovo pronto para uma alimentação muito próxima à que terá por toda a vida, nós chegamos à luz em um grau de dependência absoluta, sendo absolutamente impensável nossa sobrevivência sem os cuidados de terceiros. As coisas são assim por motivos evolutivos que não cabem discutir neste momento, mas o fato é que nós nascemos sob um signo de dependência e desabrigo, caracterizados pela fragilidade extrema: incapacidade de articulação física, fraqueza e pequenez.

Mesmo após o crescimento e ganho de autonomia, o percurso que um ser humano traça para chegar ao seu formato final é longo. Um cão já é adulto ao completar um ano de vida, enquanto nós levamos pelo menos quinze para atingir o mesmo que isso. E, vamos e venhamos, e mesmo reconhecendo que os processos mentais de um cachorro são altamente complexos, são muito diferentes do que ocorre com humanos. Grosso modo, um cachorro está suficientemente desenvolvido quando aprende o básico da sobrevivência, e mais alguns truques para obter benesses, como as habituais caras de fofura. Já nós somos praticamente escravos da nossa psiquê, enfrentando conteúdos abstratos por toda a vida. A questão é que passamos muito tempo da nossa vida reconhecendo-nos menores que nossos pais, nossos irmãos mais velhos, nossos parentes, nossos vizinhos. Ainda que já muito capazes, continuamos sendo crianças. Menores e, de certa forma, inferiores.

Isso não é um problema em si. É um processo natural de transição, que vai paulatinamente diminuindo à medida que crescemos e ganhamos novas capacidades e habilidades. Embora seja inconsciente, também a nova realidade vai moldando a psiquê, de modo a nós percebermos já mais pareados com o mundo adulto.

Mas, como eu disse, o processo é inconsciente, e, como tal, arraigado. Uma parte desse complexo de inferioridade permanecerá até nas mentes mais saudáveis, e quando eu me torno um adulto como os outros, minhas estruturas mentais buscam por quem está acima agora. Permanece um rabicho na minha personalidade traçada ainda criança, e a busca pela substituição dos pais e adultos como um todo se dá na projeção futura: na prateleira vazia do degrau de cima do complexo de inferioridade, surge um deus. Juntamos a insistência psíquica da inferioridade com a sensação da existência do “lá fora” e chancelamos que é inevitável que há um regente de nossos destinos.

Não se trata aqui do complexo de inferioridade descrito por Adler como uma neurose, e falarei sobre ele com mais cuidado bem brevemente, para não perder o fio do tema, mas de reconhecer como é difícil modificar algo que estruturalmente é pouco maleável. Notem como temos dificuldades de modificar opiniões, de superar (ou mesmo reconhecer) vieses, de sepultar superstições, mesmo utilizando as melhores ferramentas da lógica. Nossa cabeça é construída para trabalhar de forma hierárquica, e isso facilita estruturas de dominação, como nas empresas, nos governos, nas igrejas.

Alguns religiosos dirão que tudo isso é sandice, enquanto outros dirão que isso é até mesmo prova inequívoca da existência de deus. Afirmam que, se há uma estrutura voltada para a busca por uma divindade, é porque se trata de uma necessidade humana, e, sendo necessário, não poderia ser diferente do que é. Sendo assim, a estrutura religiosa do pensamento existe para que os homens tenham capacidade de reconhecer deus.

Ora, na minha miserável opinião, o argumento é falacioso, mais especificamente um retorsio argumenti, a falácia que busca transformar um argumento contrário em um favorável. A ideia básica é reconhecer a validade de um argumento, mas modificar seu sentido, para que seja mais oneroso à tese original fazer um desmentido.

O que temos no caso? Que a substituição das instâncias superiores na relação de inferioridade está correta, porque ela deve persistir pelo reconhecimento da majestade do deus. Nossa inferioridade existe, o que, por não desmentir o argumento, também não o invalida. Mas há problemas.

A substituição precisa ser feita? A ideia de subordinação típica das relações com o divino é facilmente plasmada para outras relações, como eu já disse: nos patrões, nos militares, nos governantes, nos legisladores e mesmo em coisas mais dolorosas, como nas raças, nos sexos e nas capacidades. Nossa continuidade nos pontos de inferioridade não pode ser uma justificativa para colocar alguém no lugar dos pais quando chegamos à maturidade. Essa é a razão pela qual a assunção desta relação é problemática: nós podemos sair do complexo. Ora (direis), socialmente é necessário que existam hierarquias. Faz sentido quando pensamos que há juízes que precisam julgar, presidentes que precisam governar e così via, mas percebam a sutileza de que estamos falando de papéis institucionais, e não de pessoas. O que vai além disso, é abuso de poder.

Não fiquem bravos comigo, amigos religiosos. É meu ponto de vista, refutável, modificável e, principalmente, não proíbe nossa amizade e respeito mútuo. Bons ventos para todos!

Recomendação de leitura:

Este é um livro mais geral, sempre no espírito de que não há controvérsia na psicanálise como filosofia. Já discuti a questão neste texto.

ADLER, Alfred. A Ciência da Natureza Humana. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1957.

Aqui, o mapa do trajeto do Rio Paraíba do Sul: