(A multiplicidade de significados do vento o torna uma das alegorias mais poderosas para um monte de coisas)
“E estas coisas acontecerão diante de ti todo dia e toda noite, no inverno e no verão, até que o homem seja capaz de tirar de si mesmo o sopro e de recolocá-lo, e ele será capaz disto até que seja privado de alguns destes fenômenos congênitos”.
Hipócrates
Olá!
Clique aqui para acompanhar as outras paradas do trajeto
(Avertissement: O local para onde fui fica exatamente entre
duas das séries de viagens que já fiz, esta
e esta.
Decidi pela segunda porque eu quis parece fazer um pouco mais do
contexto das serras do sul de Minas do que da Mantiqueira paulista).
Um ruído estranho pode começar repentinamente e estrondoso,
mas não é o caso do que acontece com a suspensão do meu carro neste momento.
Misterioso, um ranger indefinível e sem lógica povoa meus tímpanos desde que
começaram as correrias de fim de ano, e não consigo encostar a viatura no
mecânico para obter um veredicto. A princípio, parece algo como uma borracha
desgastada, mas eu e os “mecânicos” da casa não conseguimos achar nada*.
Recomendação do Zé (esse sim, mecânico de profissão) é trocar a bomba de
combustível. Pode ser ela, e mesmo que não, já está na hora de trocar. Isso me
aflige, e eu tenderia a deixar o possante na garagem, mas eu tenho uma tradição
e não a abandono sem estar de cama, que é fazer um passeio qualquer com a
patroa por ocasião do aniversário de casamento. Como sempre, é curtinho, porque
é momento de dureza excepcional, dados os gastos igualmente excepcionais das
festas de fim de ano, bem como é momento tenso no trabalho, com trocas de
gestões e relatórios de entregas. Então o negócio é pegar um dos finais de
semana que guarnecem o casamento civil ou religioso, qualquer um serve.
Como é viagem de tiro curto, não arrisco partir de mochila
nas costas, como gosto de fazer, mesmo que de maneira metafórica. Então vou em
alguma pousadinha de preço convidativo e um mínimo de condições, normalmente
razoavelmente próxima de casa, e sem grandes ousadias por trilhas e estradas de
terra. Como o calor está senegalês nestes últimos dias, e também como a
Mantiqueira está às vistas da minha janela, o negócio é subir as montanhas. Fui
para Paraisópolis.
Da mesma forma que em Queluz,
Redenção
da Serra e da próxima Brazópolis,
Paraisópolis é terra incrustada nos morros, mais do que outras cidades da
região, razão pela qual é repleta de ladeiras calçadas com macadames.
Essas terras do Sul de Minas não são exatamente novas, e
muitas tiveram suas histórias escritas pelos tropeiros, que caminhavam por
estes lados trazendo víveres e correndo atrás de minérios para levar para a
corte. Isso faz com que existam muitas construções históricas, a grande ênfase
desta minha viagem com impedimentos para a combalida suspensão do monstrão. Um
dos grandes clássicos é o Mercado Municipal, que, com recente reforma, está
tinindo de novo.
Aqui há os produtos típicos da terra, que, em Minas,
significam cachaça e queijo, além de muitas coisas mais, como o artesanato
feito com escavação de madeiras.
Outro prédio histórico é o grupo escolar Bueno de Paiva, daquele
estilo bem típico dos primeiros anos do século XX. O homenageado veio a ser
vice-presidente do Brasil no período conhecido como café-com-leite (para saber
mais, leia este
texto).
Há também uma antiga estação de trem, muito comum por essas
cidades e vilas serpenteadas pela rede mineira de viação, de quem tanto falei por
aqui, e que hoje serve como um centro educacional. Os trilhos não existem
mais e só um investimento meio pesado conseguiria trazer algum passeio
turístico. Mas a estação está bem preservada e é utilizada para fins escolares.
Outra construção histórica é o casarão das Irmãs Carvalho,
antiga sede de uma fazenda dos tempos em que o município ainda era a Vila de
São José de Paraíso. Fica na parte mais baixa da cidade, próxima à entrada que
vem da rodovia.
Hoje uma casa de cultura, abriga dois importantes acervos de
filhos ilustres. O primeiro é do cantor Carlos Gonzaga, muito famoso na época
da jovem guarda pela música Diana, que ouvi até a exaustão na época da novela Estúpido
Cupido, uma espécie de revival dos então recentes tempos da Jovem
Guarda.
O outro é do escultor Amílcar de Castro. Pertencente à
escola do Neoconcretismo, cujo principal nome é o holandês Piet Mondrian,
produziu obras em metal que estão espalhadas pelo Brasil afora. Como dizem os
mandamentos da escola, o poder de síntese de um artista é o que de melhor ele
pode externar para seu público.
A cidade possui um pequeno parque na área urbana que também
é usado como praça esportiva e repouso nesses dias calcinantes.
Ele tem um curioso apelido que acabou se consagrando, e que
faz entrever o fenômeno que ocorre nos finais de tarde. Provavelmente por sua
posição geográfica, fica em uma região de acúmulo de águas pluviais, o que é
atraente para os insetos.
Espalhados pelas diversas praças da cidade, os símbolos da fé local saltam os olhos. Estamos ainda na época natalina, e na praça temos o coreto montado com o trono do papai Noel e seus paramentos diversos.
O presépio na véspera do Dia dos Reis também está lá. Como
todo católico deveria saber, este é o dia em que se diz haver chegado à manjedoura
que serviu de berço para Jesus os três reis magos que lhes trouxeram dons. O
episódio é todo cercado de simbologia, e não cabe aqui esmiuçá-lo. Procurem
conhecer a história, é bem interessante para a constituição de uma religião.
A igreja matriz é dedicada a São José, padroeiro da
localidade desde os tempos em que era ainda uma vila pertencente a Pouso
Alegre.
Já esta antiga capela é dedicada a Nossa Senhora da
Soledade, e fica na praça do Larguinho.
Nesta mesma praça há, pelo que consegui entender, um
monumento que representa o Marco Zero da cidade, com os dizeres típicos do
estado de Minas Gerais. Percebam a placa de revitalização pregada na própria
peça, como se fosse um poste de luz qualquer. Ou o monumento não tem valor, ou
não se dá importância ao fato histórico que se quer representar. Sem mais.
Algo digno de nota é a quantidade de pousadas em
Paraisópolis destinadas a peregrinos do Caminho da Fé, uma rota que ruma para
Aparecida e que atravessa a Mantiqueira, partindo de Águas
da Prata.
A pousada em que estive hospedado é um dos pontos onde se
obtém o carimbo comprobatório do ponto de passagem, uma chancela oficial ao
peregrino que cumpre a rota, no mais das vezes por uma promessa.
Acho que o cálculo da caminhada prevê que um dos pousos será
nesta cidade, o que virou um belo negócio. Para qualquer lugar que se olhe, é
possível encontrar referências à Santa e à romaria.
Mas há uma referência ainda mais importante. A cidade tem o
epíteto de “Terra do Vento”, e isso é perceptível em cinco minutos,
especialmente no alto dos morros. Devido à sua posição geográfica, fica em uma
espécie de canalização dos ventos da região, e o fluxo de ar é bem mais intenso
do que costumamos ter em outras cidades. É difícil tirar fotos do vento, então
precisamos de observações indiretas, como as roupas enroladas nos varais.
O vento tem uma representação metafórica das mais poderosas.
Como eu disse acima, nós não o vemos, mas ele está presente e podemos senti-lo,
muitas vezes de maneira dramática, como andou ocorrendo no final do ano passado
em algumas cidades do oeste paranaense. São tempos de mudança climática, ainda
que haja muita resistência em reconhecê-lo, e se torna imprevisível saber o que
vai acontecer. Pode ser que Paraisópolis simplesmente “seque” de ventos e vire
uma nova Cuiabá, ou pode se tornar a terra dos furacões, um novo Caribe, algo
igualmente ruim. Mas vamos tentar tornar leve o tema, assim como foi leve a
viagem.
Essa primazia do sentido visão é inerente à espécie, mas é
esse o pior dos sentidos para perceber a sua presença, que só se faz pelo meio
indireto. Os ouvidos captam seus zunidos e o olfato lhe pega bem cheiros e
perfumes, mas é no tato que melhor percebemos sua presença, onde se dá sua
forma de ação. É como em uma das poucas músicas que eu gosto do Biquini
Cavadão, Vento Ventania: abrandar o calor do sol, emaranhar o cabelo das
meninas, enroscar as pipas nos fios. O vento atua sem que saibamos, ou
demonstrando toda sua força – derruba folhas e derruba árvores.
Às vezes eu olho pela janela de casa logo ao alvorecer, como
tanta gente faz. Não é um momento de grandes descobertas: vemos o que é normal,
com poucas mudanças em relação ao dia anterior. Mas elas existem. Hoje, por
exemplo, está mais cheio de folhas que o normal, vindas especialmente das
árvores das calçadas. Ainda que isso não represente nenhum fato que mude a
história, demonstra como ela anda, como o tempo não pára. É o vento que levou
embora as folhas mais velhas, trouxe as mais novas, misturou todas, levou
algumas, deixou outras. No final das contas, como os eventos são caóticos,
sempre me resta o quintal por varrer. Há uma ordem mesmo na mais profunda
bagunça.
Quando Heráclito quis descrever o seu
modelo de arché, quando quis especificar seu elemento fundamental, observou
as mudanças constantes ocorridas no universo ao seu redor e deduziu ser o fogo
que lhe consiste, exatamente por seu caráter transformador. Se sua intenção
fosse meramente fazer uma alegoria, poderia confortavelmente referir-se ao
vento, que transforma sem modificar. Nesse sentido, poderia ser até uma alegoria
mais forte, porque demonstra como podemos ser outros mesmo que não nos caia um
único fio de cabelo.
Mas a metáfora do vento carrega em si não só a
transformação, mas a amostra de que essa transformação nem sempre é voluntária.
Peguem-se as chuvas de verão: não são as águas que derrubam árvores, por maior
que seja sua quantidade, mas o vento. Para além da incompetência das
prefeituras, isso é a lembrança de que as forças da natureza são
incontroláveis, e, com isso, o destino vai junto. Somos reféns do destino assim
como a embarcação é refém dos ventos, e só nos resta um pálido desejo de que
tudo vá bem: bom dia, boa tarde, boa noite. O desejo não depende do destino,
mas de nossa própria força interior. Quando eu desejo bons ventos nos finais
dos meus textos, é a isso que eu me refiro.
Mas só? Não. Por muito tempo, a força impulsionadora dos
barcos no oceano eram basicamente duas - os remos e o vento. Os primeiros eram
eficientes para aqueles pequenos percursos, embora houvesse imensas embarcações
que lançavam mão de contingentes de escravos, e que serviam justamente para a
falta do vento, este sim, o principal mecanismo dos primeiros tempos das artes
náuticas. Uma força disponível que se colocava a serviço do engenho humano
usado na sua melhor forma: a descoberta de que a mobilidade das velas poderia
absorver essa energia para praticamente qualquer direção, com um esforço
infinitamente menor.
Então pensamos que a direção do vento é o que importa. Sim,
importa e muito, mas a ausência dele é a pior das desgraças. Percebem a força
da alegoria? A vida estática é menos desejável que a vida atribulada, porque
podemos sucumbir à borrasca, mas estacionar no meio do oceano é pior ainda,
observando nosso próprio ressecamento em nós mesmos, primeiro no tédio, depois
na absoluta fraqueza. Sempre tememos a idade, porque ela nos tira o ânimo, a
vitalidade, o vento. Portanto, precisamos que os ventos nos empurrem não só por
uma questão de sobrevivência, mas para dar sentido à vida. Não à toa, os
divinistas falam em um sopro, a pneuma grega que representa esse impulso que
cessa junto com a vida.
Se aprofundarmos nossa ideia, veremos que o vento, como
sopro de vida, assemelha-se aos princípios filosóficos dos impulsos, como a dynamis
aristotélica, a vontade
schopenhaueriana, o conatus
spinoziano, a vontade
de potência nietzschiana, as pulsões
freudianas, o élan
vital bergsoniano, e provavelmente daquele que mais o vinculou
organicamente à própria vida, o patrono dos médicos, Hipócrates, aquele do
juramento. Para ele, a vida não se explicava somente por fenômenos mecânicos,
mas por um sopro vital que impulsiona um todo dinâmico em cada um dos corpos,
como parte representativa da própria natureza. Não se trata de uma interferência
divina, mas de um todo regido por um princípio vital. Ele acreditava no
fundamento do vis medicatrix naturae, ou seja, a natureza é o remédio de
si mesma e tem o poder de se fazer retornar ao equilíbrio perdido, justamente
pela ação desse princípio vital. O papel do médico na cura, nesse sentido, não
estava em tentar magias, mas em ajudar o próprio corpo nessa tendência,
desfazendo barreiras que o impeçam de resgatar sua própria natureza, resultando
no restabelecimento da saúde. O elemento de impulso é uma força pertencente ao
campo do instinto e da irracionalidade, que o próprio Hipócrates dá exatamente o
nome de sopro.
Vejam como, portanto, quando queremos fazer aquele
maravilhoso uso humano da linguagem, que permite condensar em uma única palavra
tudo o que representa ação invisível, incerteza no destino, força interior,
transformações bruscas ou contínuas, temos o vento ao nosso favor. Uma das
metáforas mais belas que nosso intelecto já pode criar, por ser múltipla,
poderosa, rica, poética. Paraisópolis tem esse nome também por conta dessa
mercê. Bons ventos a todos.
Recomendação de leitura:
Hipócrates vai muito além do juramento, mas é preciso
cuidado na análise de suas premissas, que podem parecer tão extemporâneos a
ponto de obnubilar seu modo de pensar. Recomendo esta edição abaixo, bilíngue,
que pode até mesmo ajudar quem queira se versar em grego.
CAIRUS, Henrique F.; RIBEIRO JR., Wilson A. Textos
Hipocráticos: o Doente, o Médico e a Doença. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2005.
*Só para não deixar a história sem um desfecho, era apenas
um coxim do amortecedor direito, para salvação do meu orçamento.



















