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sábado, 27 de julho de 2013

Ser estoico é ser heroico

Olá!

Desculpem todos os que estão lendo estas mal traçadas, mas não resisti à tentação da frasezinha ruim que nomina este texto. Também digo que essas novas regras gramaticais estão deixando o conjunto da frase algo absolutamente feio. Mas isso é bobagem, vamos ao que interessa.
Tenho um colega de trabalho chamado João Roberto (que é um cara legal, mas não tinha dezesseis – quem é dos 80 sabe do que estou falando), um tanto voluntarioso, e que gosta de defender com certo grau de propriedade as suas posições. Bem, esse modo de ser pode valer a pena em certas ocasiões, mas em outras é absolutamente problemático. Vez dessas, disse a ele: “Roberto, você precisa reagir estoicamente. Ser estoico é ser heroico”. Diante da sua cara de espanto e desconfiança, resolvi tratar ligeiramente sobre o assunto.
Uma hora aqui, outra hora ali, escuto alguém utilizando esse termo, com o sentido geral de ser resiliente, de aguentar porrada sem mover músculo, de manter a calma mesmo nas situações mais adversas. Mas ele designa um conjunto relativamente amplo de pensamentos filosóficos, muito maior do que a conotação moderna pode fazer supor. Isso tudo tem origem com um cidadão chamado Zenon, da cidade de Cítio, um lugarejo situado na ilha de Chipre, que naqueles tempos era possessão grega. Sua origem era semítica, o que lhe impedia de adquirir propriedades (e, em consequência, ser considerado cidadão grego). Por conta disso, não pode fundar uma escola na acepção da palavra, como a Academia de Platão, o Liceu de Aristóteles ou o Jardim de Epicuro (este último, contemporâneo seu). Para solucionar este problema, reunia seus alunos em um pórtico coberto. Como a palavra pórtico se diz Stoá em grego, seus seguidores ficaram conhecidos como estoicos, e sua corrente passou a ser denominada de estoicismo.
Ao contrário de outras doutrinas filosóficas, o estoicismo não possui um cânon fechado de princípios. Zenon foi um inaugurador, e não um mentor de pensamento inamovível. Além do mais, os escritos destes pensadores foram quase todos perdidos em sua raiz grega, restando apenas referências indiretas e comentadores, além da vertente definida pelo filósofo Crísipo (parcial, portanto) e pelos estoicos romanos, estes sim com bastantes manuscritos preservados. Desta forma, nunca é confortável estabelecer com rigor todos os fundamentos que nortearam esta escola. Mas vamos tentar.
O estoicismo tem um tripé a sustentar seu edifício, ou melhor dizendo, seu pomar (no dizer dos próprios). A Lógica é o muro que rodeia e dá guarida à plantação. A Cosmologia (Física) pode ser comparada às árvores, que, por sua vez, sustentam e dão possibilidade de existência aos frutos da Ética, seu objetivo último.
Falando sobre a lógica, o estoico entende-a como um crivo para a verdade, e que esta somente pode ser apreendida através dos sentidos, como já haviam proclamado alguns pré-socráticos e seria consagrado mais tarde, através dos empiristas. Há uma novidade, porém. Essa apreensão pressupõe uma aceitação por parte do sujeito que conhece, ela não se dá de maneira passiva. O processo de ver e ouvir pode ou não ser aceito como conhecimento, é preciso que eu esteja convencido do que me dizem os sentidos  para que eu estabeleça sua veracidade. É a lógica que é o critério regulador dos sentidos, porque sabemos o quanto eles podem distorcer a realidade. E o que temos é que, ao admitir algo como verdadeiro, esse balanceamento lógico e essa admissibilidade do objeto colocado defronte a si induz em nós uma representação, que os estoicos chamarão de katálepsis.
Pois bem. Essa forma de conceituar o conhecimento faz duas remissões, bem mais modernas: a do sujeito como participante do processo de conhecimento e a da importância da consciência na formação dos juízos, tão ao gosto da filosofia fenomenológica.  Nossos fragmentados gregos eram antigos, mas não antiquados...
Bom. Poderíamos dizer: “Oh! Que lindo! Sou partícipe de meu próprio saber. As coisas não são nada sem minha representação”. De fato, é muito poético. A lógica assegura a veracidade da representação, mas o que assegura a veracidade da concatenação lógica? Para sabermos, precisamos compreender como funciona a physis estoica, ou seja, quais as engrenagens que giram para manter o universo em funcionamento.
As correntes predominantes do estoicismo veem a Física de uma maneira inédita até então. Para começo, eles eram materialistas. Achavam que o Ser, para ser considerado como tal, deveria ser capaz da ação e do sofrimento. Ora, estas são características dos corpos, portanto o Ser coincide com o corpo, sem transcendê-lo. Isso quer dizer que o estoicismo é monista: não há nada além dos corpos, nem alma, nem espírito, nem nada que não seja imanente.
Neste sentido, podemos imediatamente concluir que os estoicos são ateus, correto? Tsc, tsc, tsc... muito pelo contrário. Vamos ver.
Vamos escalar nosso estagirita Aristóteles para nos ensinar sobre o Ser. Para ele, o Ser se explicava em causas, sendo que duas delas, a eficiente e a final, serviam para explicar o dinamismo das essências, traduzindo a origem e a finalidade do Ser. Mas, para designá-lo com exatidão, era preciso observá-lo estaticamente, verificando sua matéria e sua forma. A matéria explica o Ser em sua constituição física, daquilo que é feito. Já a forma dá razão de existir para a matéria, explica o Ser para além de sua matéria. A união entre matéria e forma era aquilo que Aristóteles chamava de sínolo, e apenas nele o Ser se tornava possível e tangível, já que a matéria isolada é meramente física e a forma isolada é puramente mental. Para que um cavalo seja um cavalo, é preciso que haja sua carne e seus ossos, e que saibamos que esse conjunto de células constitui um equino.
Os estoicos concordam com o sínolo de Aristóteles, mas com uma diferença fundamental. Enquanto para o dono do Liceu a forma é o aspecto do Ser que lhe define e dá expressão à matéria, para Zenon e seus asseclas a forma é um princípio ativo regido pelo Logos divino. Ou seja, Deus está presente em tudo e tudo tem Deus em sua constituição fundamental. Deus é corpo e faz parte dos corpos através da forma. O estoicismo é, pois, panteísta.
Além disso, a teologia estoica é uma ontologia, é o que podemos concluir. Podemos dizer que tudo o que existe é Deus? Sim, ao menos na forma. E o nada (não-ser), existe? Sim também. Deus coincide com todo o universo, mas, como os estoicos são materialistas, onde a matéria não existe, não há nada; nem Ser, nem alma, nem entes, nem Deus. Assim, as descontinuidades cósmicas estão desprovidas de Ser, porque são incorpóreas, principalmente se lembrarmos de que aquilo que define a corporeidade (e consequentemente o Ser) é a sua capacidade de agir e sofrer.


Este universo permeado pelo Logos divino é a expressão máxima da perfeição da divindade, já que ela está presente em tudo, inclusive em todo agir e sofrer. Todas as ocorrências são necessárias e eficazes, ainda que não seja possível perceber isso à primeira vista. As coisas singulares podem parecer defeituosas, mas isso é aparência; no complexo cósmico, cada coisa se justifica, cada ato se explica, cada sofrimento tem seu motivo. Mesmo sendo a matéria corruptível e os corpos destrutíveis, a perfeição permanece. Um belo dia, o cosmos tal qual conhecemos entrará em colapso e será destruído, para logo em seguida ressurgir, tal qual era nos primórdios, e sua nova existência se desenrolará de maneira idêntica à anterior, porque continua a ser a expressão de uma perfeição, e, se há perfeição, ela não pode ser diferente da outra; cada mar, cada ilha, cada casa, cada pessoa, cada inseto, cada história, cada doença, cada decepção, tudo se repetirá, idêntica e indefinidamente, até uma nova destruição e novo renascimento; e isso acontecerá mais uma vez, e outra, e mais outra, infinitamente...
Meus leitores, vocês devem estar pensando: “Ah, mas agora esse louco está falando do Eterno Retorno de Nietszche”. Não, errado! Nietszche é que se reportou aos estoicos ao inseri-lo em sua Filosofia. Só o sentido é diferente. Enquanto o bigodudo utiliza o eterno retorno simbolicamente para expressar os motivos pelos quais a vida deve valer a pena, Zenon e amigos concluem que a vida é fado, é sina, é destino, e é nisso que eles calcam sua famosa doutrina ética: a apatia.
Em primeiro lugar, cumpre fazer algumas observações sobre a palavra em si. Apatia vem da junção dos termos gregos A, que significa Não, e pathos, que significa paixão, catástrofe, sofrimento. Apatia, portanto, significa, não-paixão, não-dor. Perceba que o termo pathos está na raiz de palavras utilizadas tanto para designar o amor ardoroso dos amantes quanto a grandes dores, como é a Paixão de Cristo, por exemplo, ou é utilizado para designar doenças, como na palavra patologia, ou para designar pessoas dignas de pena, os patetas. De uma forma ou de outra, pathos está ligado a sentimentos intensos, exatamente o oposto do que pretende a apatia.
Andemos. Da mesma forma que a Eudaimonia aristotélica e o hedonismo epicureu, a ética estoica se baseia na busca da felicidade. E ser feliz significa viver harmonicamente com a natureza. A natureza humana é calcada na razão, no Logos, e como este é Deus na natureza, o homem tem “mais” Deus que as demais criaturas. Isso o obriga a ter ações moralmente mais aperfeiçoadas. Em nossa visão judaico-cristã, imaginamos que uma boa dose de orações fará com que tenhamos forças para encarar essas dificuldades sob o auxílio de Deus. Mas há uma diferença decisiva para os estoicos: Deus não possui uma ligação afetiva com sua criação. A divindade estoica não é pessoal, não sente misericórdia, não possui a relação paternal dos cristãos. Para resumir de um modo meio tosco: Deus existe, criou tudo e pulou fora, para cuidar do equilíbrio do universo; está se cagando para o homem, que tem de se virar sozinho com suas agruras. O destino já está dado, o fardo será carregado, seja ele qual for, e o sábio estoico sabe que a vida tem mais a ser suportado do que gozado; a verdadeira sabedoria está na apatia, no não sofrer. Isso significa se afastar e resistir a qualquer tipo de paixão ou de sentimentos, que são tidos como desviantes da razão. O caminho para a obtenção da apatia é o autocontrole e o costume em seu uso, o que hoje chamamos pelo pernóstico nome de resiliência.
Era isso. Poderia falar mais (por exemplo, que os estoicos formaram a primeira filosofia libertária, contrária à escravatura, já que, sendo panteísta, não achava digno que se escravizasse alguém que é parte de Deus), mas para explicar o uso contemporâneo do termo já me parece o suficiente.
Recomendação de leitura:
Infelizmente, não sobraram escritos originais dos primeiros estoicos, principalmente de Zenon. O melhor a fazer, nesse caso, é pegar um bom comentador e lê-lo. O livro abaixo é interessante:
BRUN, Jean. O estoicismo. Lisboa: Edições 70, 1986.

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Do espelho quebrado ao genocídio armênio: as amarrações entre tradição e preconceito

Olá!

Faz muito pouco tempo atrás, escrevi um texto sobre as ideias de Antonio Gramschi (este). Dei bastante ênfase à oposição que nosso pequeno filósofo (na altura, bem entendido) dá entre a natureza e a cultura, e apenas pincelei muito superficialmente a questão da influência das tradições no conhecimento de uma determinada nação. Nestes tempos de pastores-deputados, Marcos Feliciano e seu apoio a uma pretensa cura gay, achei oportuno falar do tema com mais cuidado, sem esquecer o pensamento de outra grande filósofa, Hannah Arendt.


Então vamos lá. Gramsci, antes de mais nada, era um pensador de matriz marxista, o que implica em dizer que sua relação com a metafísica era materialista, ou seja, ele a negava. Desta forma, é possível compreender porque o bambino dizia que a visão folclorizada do conhecimento era falsa. A tradição não podia explicar as causas e consequências que fazem com que o mundo que nos rodeia seja o que é, mas apenas aceitá-lo da maneira como nos é apresentado. Essa posição tinha o mesmo valor de um dogma, uma verdade entregue pronta, monolítica, sem levar em conta critérios de filtragem de exageros, de exceções, de desvios, enfim, perdendo a referência entre a situação concreta que gerou uma tradição e seu desenrolar histórico. Nesta posição, esquecemos as origens simbólicas do folclore e o colocamos como algo real. É bem diferente de quando conscientemente descrevemos uma lenda ou um costume, porque desta forma temos uma ferramenta importante para compreender a formação física e ética de um povo. Neste caso, temos cultura, não é uma mera assunção da verdade.
O folclore e a tradição surgem espontaneamente, a partir da vivência das comunidades. São transmitidos oralmente de geração a geração e carecem de registro. Podem retratar um determinado aspecto social, uma condição política, um retrato dos medos, etc., e em geral tentam acomodar uma explicação a um fato ou fenômeno de difícil elucidação.  Como são acríticos (na concepção gramsciana), podem ter caráter mágico, carregados de sortilégios e maldições, que os distancia de uma visão calcada em critérios lógicos, como o quase inepto caso abaixo:
Um belo dia, um rapaz barbeia-se tranquilamente, quando ocorre um fato inusitado. Por conta do sabão existente em suas mãos, a navalha escorrega e cai. Num gesto instintivo, nosso distraído amigo tenta pegar o objeto cadente, esquecendo-se do seu poderio cortante. Ao talhar sua mão, faz um gesto de compressão e se abaixa, resvalando fortemente o seu espelho com a cabeça, o suficiente para quebrá-lo e levá-lo ao chão. Pronto, mil estilhaços para todo o lado, inclusive alguns cravados no pé do infeliz. Não é o que podemos chamar de bom começo de dia. O pior vem depois. Em um período relativamente curto de tempo, o mesmo azarado perde o emprego, a namorada, seu time não ganha mais nada, sua banda favorita desmanchou... Que tipo de desgraça aconteceu, meu Deus? Tudo se deu desde aquele dia do espelho... Aaaaaaaaaaaaaah, o espelho! Todo o revés começa ali!
E eis que mais uma lenda nasce: quebrar espelho dá sete anos de azar.
Lógico que esse é um exemplo prá lá de banal. O número sete aparece por uma questão mística, já que este é um número tido como esotérico (Epa! Outro folclore!). Nem sei se a historinha é assim mesmo ou se inventei um monte de coisa, mas o fato é que as coisas funcionam mesmo assim, e só a coloquei para começar a descrever como funciona o fenômeno. As coisas podem ser mais complicadas, querem ver só?
Vamos para outra história. Os antigos judeus eram povos errantes, que, como tantos outros, viviam em busca de territórios para estabelecer um espaço vital. Nos arredores de onde hoje fica situada a cidade de Jerusalém, existe um vale, chamado Geena, onde os povos que lá habitavam anteriormente praticavam sacrifícios humanos. Como esta era uma prática proibida entre os judeus, o lugar foi considerado maldito, e passou a ser aproveitado unicamente como depósito de lixo. Estranhamente, o lugar pegava fogo sem parar, aumentando seu aspecto aterrorizante, e os judeus passaram a considerar o lugar como o portal do inferno, local de castigo eterno. Vejam vocês, duas tradições em uma: o lugar amaldiçoado e o inferno como um lugar quente, próprio para castigo, ambos vinculados. Ninguém pensou no fato de que, ao transformar o lugar em lixão a céu aberto, seria produzida uma quantidade imensa de gás, que queimaria incessantemente, porque era permanentemente alimentada pelos despejos da cidade, e até hoje essa tradição é mantida – não o vale como lugar maldito, mas o inferno como lugar em constante ardência e destinado à pena eterna dos pecadores. Ainda em nossos dias Geena é sinônimo de inferno. Então temos uma explicação para um fenômeno em que não existiam meios de aferição científica, nos melhores moldes de toda a mitologia universal.
Mas este ainda é um exemplo circunscrito à esfera religiosa. A coisa pode ir para campos em que não só a verdade, mas também as pessoas passam a correr riscos. Vamos ver.
Que nome você dá para um serviço mal feito?
Imagine a seguinte situação: você é morador de um local onde seus ancestrais já viviam há anos, muitos anos. Lá, você conhece o clima, a vegetação, o solo. Desenvolve técnicas e ferramentas que permitem extrair o melhor possível deste ambiente. Sua relação com seu trabalho transcende seu aspecto pragmático, e passar a valer como obra de arte. Seus instrumentos passam a possuir referências às suas divindades e à sua história: há desenhos e inscrições em seus punhais, suas enxadas, suas pás, suas brocas; em suma, você desenvolve uma arte utilitária e sacralizada. Você aperfeiçoa ainda mais os insumos de seu ofício, lançando mão da metalurgia e de outras técnicas. No entanto, ao redor do local onde você mora, há outras comunidades, que desejam estender seus domínios. Entram em guerra com você, capturam-no, e vendem-no como escravo. Você é extraditado para uma terra longínqua, onde é obrigado a trabalhar, sob pena de sofrer torturas. Nesta terra, onde tudo é diferente do que você conhecia, sua tecnologia é inútil: o solo é diferente, as plantações são diferentes, o clima é diferente. As ferramentas que lhe são disponibilizadas nada tem a ver com aquelas que você criou, tão bem adaptadas às suas condições de trabalho anteriores. Também nada lhe é ensinado, é preciso compreender por si só todo o comportamento desse ambiente e como reage à sua intervenção. Tendo em vista todas estas condições, o resultado do seu trabalho é trôpego, insatisfatório, muitas vezes desastroso; e o seu senhor é intolerante, já que há dinheiro em jogo, e você precisa entregar seus frutos antes de qualquer adaptação ou aprendizado.
Seu serviço é mal feito. Você é negro. Você faz um serviço de preto.
Não adianta ocultar. É fato que todo mundo, pelo menos em nossas terras, sente um frio na espinha ao contratar um funcionário negro. Podemos apresentar um milhão de justificativas, mas isso já está escrito no nosso substrato. Já faz parte da nossa tradição mais arraigada, e é algo difícil de se desvencilhar. É esse tipo de efeito daninho que o folclore, compreendido como definição acrítica da realidade, que Gramsci entendia ser algo a ser eliminado.
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Certo, então. Podemos chegar à conclusão que a tradição, observada a partir de um ponto onde apenas e tão somente ela própria é focada, é uma grande geradora de preconceitos, e é exatamente aí que entra o pensamento da precitada Hannah Arendt.
Ela afirma que todo preconceito tem uma raiz histórica, ou seja, os preconceitos não nascem do vazio, mas de situações e circunstâncias que aconteceram em um determinado momento e que serviram para estabelecer um conceito inamovível sobre uma pessoa, ou uma etnia, ou um gênero. Este delineamento histórico ganha caráter de verdade absoluta, sendo aceito de maneira acrítica, e sendo agregado ao bojo intelectivo de uma maneira mais grudenta que visgo de jaca mole (quem já se melecou com jaca mole sabe do que estou falando). A frase de Einstein é muito famosa: “Época triste a nossa; é mais fácil quebrar um átomo que um preconceito”.
As pessoas se estabelecem em uma zona de conforto para não ter de vasculhar as origens dos conflitos de todo o tipo. Por isso mesmo, o preconceito tem uma característica mais sorrateira, mas que explica ainda melhor porque é tão difícil se desvencilhar dele. Livra o homem da necessidade de se expor a cada realidade e ter de compreendê-la antes da formação de um juízo. Por isso, as ideologias são tão eficazes: já trazem prontos os modelos de pensamento a serem compartilhados entre os indivíduos. As pessoas tem a tendência de encontrar uma justificativa para as coisas que não conseguem compreender, e, uma vez formado um determinado estereótipo, os encaixes a ele vão sendo cada vez mais utilizados. Acontece que há uma dinâmica na história que faz com que as transformações ocorridas no mecanismo ético, social e político sobrepujem os contextos em que estes estereótipos são engendrados, e eles acabam restando como uma herança perniciosa. Esta é a chave que tranca as nossas convicções.
Para compreender ainda melhor essa mecânica, vou partir para mais um exemplo. Peço perdão, mas este texto acabou ficando meio longo mesmo, mas o assunto é intrincado. Fazer o que?
Quando falamos em genocídio, logo pensamos no holocausto judeu da Segunda Guerra, ou nos massacres de Kosovo, bem mais recente. Acontece que houve um evento histórico menos conhecido, conhecido como Holocausto Armênio, em que uma etnia quase inteira foi exterminada. O fato se deu no início do século passado, mas suas raízes históricas são tremendamente mais distantes.
Os armênios são pouco conhecidos. Aqui em São Paulo, há uma comunidade importante na região da Ponte Pequena, entre o Pari e o Bom Retiro, que inclusive dá nome à estação de metrô lá existente. Seus sobrenomes costumam terminar em “ian”, característica única: Pedrossian, Balabanian, Karamitidjian, Poladian, Malghosian. Mas eles caem no pacote genérico dos “turcos”, assim como os sírios, libaneses et altrui. São chamados assim porque o império otomano dominava toda aquela região do Oriente Médio, e as certidões e passaportes eram emitidos, naturalmente, com os timbres e carimbos da Turquia. Como veremos adiante, isso era um motivo a mais para a dor e a raiva. Vieram em busca de uma terra que os acolhessem, assim como tantos outros imigrantes.
Os armênios habitam a região montanhosa do Cáucaso, famosa pelo monte Ararat (eles se consideram descendentes diretos de Noé) e por se constituir em espaço estratégico, na passagem da Europa para a Ásia e vice-versa. Sua formação se deu através de uma mistura de persas, sumérios, hititas e outros povos que por lá passaram. A característica de ser uma importante rota de ligação fez com que a posse da região nunca fosse tranquila. Dessa forma, o povo que lá habitava foi se tornando mais arredio e avesso aos estrangeiros, gerando uma cultura própria, muito endêmica, com costumes próprios e uma língua isolada, que constitui um desafio para os filólogos. É quase impossível encaixá-la em um dos troncos linguísticos habituais. Agravou muito o fato a disseminação do islamismo pelo local, em oposição ao cristianismo armênio, o que ocasionou forte colisão entre esses povos. Quando o império otomano dominou a região, por um bom tempo os armênios se mantiveram submetidos, porém relativamente autônomos. Esta autonomia, somada às diferenças culturais entre um povo da montanha e cristão e um povo planaltino e muçulmano, fez com que houvesse forte distinção entre ambos. Os armênios eram chamados de zhimmis, um tipo de subcidadão com menos direitos que os turcos típicos. Ao longo da história, os períodos em que os armênios gozavam de maior liberdade coincidiam com as suas maiores reivindicações por independência (em especial nas proximidades da Primeira Guerra Mundial), o que levou o império otomano a concluir que os armênios eram escorpiões que eles carregavam às suas costas. Até que chegou ao poder o grupo Ittihad, que, ao invés de conceder a independência requerida, achou melhor resolver o problema de outra forma: extinguindo o povo armênio. Fizeram isso porque pensavam que todas as gerações de armênios eram amaldiçoadas; um povo que viveria à espreita dos vacilos turcos para retomar territórios anteriormente conquistados.
O genocídio armênio teve proporções que fariam Hitler se sentir humilhado diante de sua pouca eficiência. O seu primeiro ato foi o massacre de 600 intelectuais armênios. A intenção é clara: desarmar a capacidade de articulação dos demais caucasianos. Em seguida, a partir de 1915, começa o verdadeiro extermínio. Os otomanos agiram principalmente de duas maneiras – assassinatos diretos e deportações para regiões desérticas. Algumas cidades, como Zeitun, foram totalmente dizimadas. Outras, como a cidade de Van, que tinha 197.000 habitantes e passou a ter 500 (sim, menos de meio por cento), tiveram como sobreviventes apenas velhos e meninas. Os armênios só não foram totalmente extintos porque uma pequena parte conseguiu fugir para o exterior, principalmente “comprando” a passagem para outros países através de soldados corruptos. Chegando aos seus destinos, passaram a ser chamados pelo gentílico de seus maiores inimigos, que tomaram suas casas, mataram seus pais e filhos, arrancaram-nos de suas terras, destruíram sua história. Não há um número preciso, mas é consenso que mais de 1,5 milhão de armênios morreram entre 1915 e 1922. Serem chamados de turcos era (e ainda é) mais ofensivo do que serem chamados de cachorros.
A recusa da Turquia em reconhecer o genocídio até hoje faz com que o preconceito se retroalimente. Para o armênio contemporâneo, os turcos ainda representam a maldade, a invasão e a morte. Vejam o que escreve o poeta Charles Apovian a respeito:
“Às vezes me perguntam: ‘Isso aconteceu há tanto tempo. Você nunca vai perdoar?’. Realmente é muito difícil perdoar o assassinato da minha avó paterna, dos meus dois avôs e de meus três tios. Mas como perdoar alguém que não pede perdão?”.
Dessa forma, podemos concluir que os pensamentos de Gramsci e Hannah Arendt se engendram, e é nisso que chegamos ao nosso ilustríssimo deputado Marco Feliciano, presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados da República Federativa do Brasil. Nosso caríssimo é um poço de preconceitos porque baseia seu ideário em uma visão fundamentalista da religião que defende.
É preciso lembrar que o retro mencionado parlamentar foi defendido pela ex-senadora e candidata a presidência da república, Marina Silva. Ela disse que o deputado é atacado por preconceito contra sua religião.
Isso me parece uma belíssima falácia, mas então precisamos levar em conta um monte de coisas, se não quisermos nós mesmos ser preconceituosos também. Marcos Feliciano é pastor protestante neopentecostal, ramo religioso que prospera no Brasil. Um de seus dogmas é o sola scriptura, que consiste em ter na Bíblia sua única fonte teológica. Essa posição é única entre as religiões cristãs, já que o catolicismo romano e o ortodoxo creem em fontes externas, como o magistério e a tradição litúrgica, além do espiritismo kardecista, que acredita na constante intervenção dos círculos espirituais na construção das fontes teológicas.
Acontece que há uma dificuldade muito grande em se seguir a Bíblia. Não digo isso no sentido da abnegação que o cristão deve ter para seguir as regras lá descritas, mas na dificuldade que se encontra diante de suas contradições históricas e na aporia das traduções. Marcos Feliciano disse que os negros são descendentes de uma raça amaldiçoada, e por isso sofrem. Ele não está errado, na Bíblia está realmente descrito isso. O que acontece é que o nobilíssimo esquece (ou parece esquecer) que há contextos que devem ser levados em consideração, em especial se nos recordarmos que a Bíblia foi escrita a partir da tradição oral, por centenas de autores e em período muito longo, com precários meios de registro. Além disso, as línguas em que foram escritos estes textos já estão mortas ou muitíssimo alteradas. Por isso, essa maldição proferida por um raivoso patriarca talvez tenha de ser revista, afinal de contas muitas das regras e tradições descritas já foram revisitadas e reformadas, haja vista, por exemplo, que os sacrifícios de animais estão lá claramente preconizados. Devemos voltar a praticá-los? Também a Bíblia manda colocar os leprosos para fora da cidade. Por que não o fazemos mais? Porque hoje sabemos que a lepra não é uma maldição divina, mas uma doença causada por um bacilo, com antibióticos que permitem sua cura. Ah, mas a realidade hoje é outra, havia outro contexto... Exatamente, deputado. Havia outra realidade e contexto, tanto para os leprosos, quanto para os negros.
Isso explica muita coisa do que vivenciamos nos dias de hoje. Apegar-se a tradições fundamentalistas e não revistas é algo extremamente perigoso. Se não temos capacidade para lidar com nossos próprios preconceitos, melhor seria não tentar difundi-los aos outros. Não vejo muita diferença entre o holocausto armênio e as tentativas de modificar os costumes de grupos sociais que não prejudiquem a ninguém. Os turcos não tentaram eliminar somente o povo armênio, mas também sua cultura, seu modo de pensar. Fazer isso com qualquer grupo, ainda que de modo dissimulado, é igualmente violento.
Em tempo: não tenho rigorosamente nada contra o povo turco. Acho até mesmo injusto que tanta gente tenha que conviver com o peso de uma decisão governamental de não reconhecer os erros do passado. Por isso, procurei me ater em fatos. Não estou aqui procurando fazer nenhum ataque contra os mesmos.
Recomendações de leitura:
Sobre Gramsci, eu já falei e recomendei, conforme pode ser visto no post citado. Quanto à Hannah Arendt, filósofa das mais geniais, recomendo a seguinte obra:
ARENDT, Hannah. O que é política? Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2009

Para conhecer mais sobre o Genocídio Armênio, o texto a seguir é bastante conciso e esclarecedor:
SUMMA, Renata de Figueiredo. Vozes armênias: memória de um genocídio. In: Revista Ética e Filosofia Política. Volume 10, nº 1. Juiz de Fora: UFJF, 2007. Disponível em: <http://www.ufjf.br/eticaefilosofia/files/2010/01/10_1_renata.pdf> 

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Prá não dizer que não falei das tarifas

Olá!

Nasci em 1970, durante a fase mais dura do último período de ditadura militar no Brasil. O país vivia um momento extremamente dúbio, dividido que estava entre os entusiastas do crescimento econômico e aqueles que foram alcançados pela falta de liberdade e garantias constitucionais. Não vou ficar arrancando verniz fiapo a fiapo dessa história toda, pelo menos não o farei neste texto. Basta saber que vivíamos com um medo que não existe mais hoje, graças ao bom Deus: o de ter uma posição ideológica. Era difícil se lançar em grandes aventuras de natureza política, como, por exemplo, participar de um grêmio estudantil.

Venho de uma família com certo nível de politização. Somos descendentes diretos de imigrantes europeus, acostumados com a sindicalização e com a manifestação de seus anseios sociais. Meu avô, por exemplo, vivia imiscuído em reuniões do Partidão, o que lhe rendeu algumas borrachadas e noites dormidas no DOPS, a temível delegacia política tão bem (bem?!) conduzida pelo Sérgio Paranhos Fleury, juntos de seus anjos e santos. A época era bastante cruel. Meu pai só não foi parar no xadrez por um acaso. Ele estava em um ônibus, voltando para casa, e esqueceu na fábrica os seus documentos. O ônibus foi abordado pela polícia, que fez um mãos-prá-cima-documentos com todo mundo que estava lá. Na vez do meu pai, cadê a praga do RG? Ah, cidadão! Você, sem documentos? Já prá delegacia! Vamos averiguar... Peraê! O que é isso na sua bolsa? Uma marmita? Ah, trabalhador... Dessa vez passa. Da próxima, não tem perdão. Pois é, salvo por uma marmita usada...

É verdade, estas ruindades aconteciam diariamente. Não traziam segurança nenhuma a mais, mas humilhavam um bocado. Mas o governo repressivo age também nesse grão miúdo. Minha primeira desventura política teve bastante disso. Já falei dela anteriormente, mas o momento é de detalhar um pouco mais. Não sei se existe ainda, mas na minha adolescência havia um órgão pseudo-representativo dos alunos junto à direção das escolas, chamado Centro Cívico. Para preencher as suas funções, eram formadas chapas com alunos do ginasial (atual Fundamental II). Se não estou muito esquecido, cada “partido” era formado por um presidente, um vice, um tesoureiro, dois oradores e dois vogais. Era feita uma inscrição junto à direção, com nomes e propostas. Eu era o mais novo da minha chapa, um dos oradores. Nossa plataforma era de uma simplicidade irritante. A verba destinada ao CC era geralmente utilizada para comprar troféus para os torneios interclasses, para enfeitar a festa junina, essas coisas essenciais ao funcionamento ordeiro da democracia. Queríamos que essa parca verba fosse utilizada em atividade muito mais subversiva: adquirir alguns livros para a nossa claudicante biblioteca, que, de atraente, só tinha meia dúzia de poltronas acolchoadas. Afinal de contas, as bibliotecas de bairro eram praticamente inexistentes, e vir até o centro não resolvia tanto, já que a biblioteca Mario de Andrade não dava acesso direto às obras. Precisávamos pesquisar em fichas e esperar por uma hora até o bibliotecário buscar o livro, sem possibilidade de empréstimo. A compra dos livros seria meramente simbólica, a verba não dava para grande coisa. Mas o que queríamos era mostrar que levávamos o espaço escolar a sério, e dessa forma poderíamos esperar apoio e incentivo da direção, com a compra de mais obras. Putz, lembro tão bem disso tudo!

Bom, o prêmio de incentivo foi a extinção da chapa e nossa inscrição no temível Livro Negro, um registro de alunos mal vistos. Três assinaturas representavam expulsão da escola. Não nos foi dado nenhum tipo de explicação. A única “bondade” que o diretor nos concedeu foi o fato de não ter obrigado nossos pais a vir à escola para tomar conhecimento da travessura tão malvada. Era uma época de medo e fazíamos essas coisas escondidos deles. Acho até hoje que não houve bondade porra nenhuma, mas sim mero esquecimento.

Veio a campanha das Diretas Já e lá estava eu na Sé. Para dizer bem a verdade, estava a caça de emprego. Eu tinha 14 anos e estava prestes a ganhar uma carteira de trabalho de aniversário. Nossa Senhora, quanta gente! Era absolutamente impossível respirar em meio a mais de 1.500.000 de pessoas. Procurei não me enfiar muito no meio da galera, mas a verdade é que vivíamos uma espécie de transe, acreditávamos que os políticos civis teriam a capacidade de devolver liberdade e esperança ao povo. O resultado foi que os militares se agarraram ao poder até o último minuto, e só o devolveram quando perceberam o quanto o país estava estragado e inviável.

Uma rápida referência às manifestações dos caras-pintadas: não acompanhei tão de perto, porque nesse exato instante estava na maternidade, acompanhando o nascimento do meu filho mais velho. Mesmo assim, dei alguns pulos à Avenida Paulista para ver a movimentação. Era um movimento muito mais conduzido pela juventude do que o Diretas Já, mas que era tão abrangente quanto. Por conta de toda essa pressão, a classe política e a mídia reacionária resolveram mudar de suas posições de comodidade, conduzindo o então presidente democraticamente à porta da rua.

Também cometi minhas transgressões trabalhistas. Até a década de 90, as greves dos metalúrgicos eram frequentes, amparados que eram por um sindicato poderoso. Isso passou a declinar após o plano Collor, que arregaçava as portas do país às importações, sem nenhum tipo de transição. A dificuldade em manter o emprego fez com que os trabalhadores passassem a cuidar cada um de si, deixando para Deus as questões coletivas. Só que as empresas por onde eu trabalhei durante esse período estavam todas em situação pré-falimentar, e a consequência eram os atrasos nos salários, parcelamentos das indenizações dos demitidos, etc. Eu trabalhava no escritório (o que limitava muito minhas possibilidades de adesão), mas geralmente tinha bom trânsito no chão de fábrica de todas elas. Houve uma delas em que uma greve interna estava em pleno curso. Vi alguns amigos operários reunidos e fui conversar com eles. Provavelmente estariam falando de futebol, pensei. Que nada... Tinha alguns quase chorando de desespero com as contas atrasadas; outros estavam mais quietos, mas também endividados. Alguns mostravam os extratos dos bancos, sempre no vermelho, outros zeraram as economias juntadas por anos... Olhava tudo e percebia que aquilo não era externo a mim, também acontecia comigo. Estava duro, endividado, dando desculpas no açougue, na quitanda, no empório, na padaria, na farmácia. Pedindo dinheiro emprestado para a mãe, para o pai, para o sogro, sem nenhuma certeza de que poderia pagar. Veio um colega de seção para me avisar que o chefe estava me chamando. Falei sem grande estardalhaço:

_ Avisa prá ele que eu tô de greve.

Olhares de descrédito, um cigarro aceso e as costas escoradas na parede suja. O fato era marcante. Nunca alguém do escritório tinha participado de greves. Pensei: “Fodeu, né? Não dou dois dias prá ser mandado embora”. Não fui mandado embora, mas nunca mais fui visto com os mesmos olhos naquele lugar.

Virei funcionário público, mais por via da certeza do salário do que por alguma vocação profissional. Logo no meu primeiro ano, surgiu uma greve para pedir aumento salarial. Algo comum de ver na minha vida até então. Eu não tinha motivos particulares para participar daquela manifestação, já que havia acabado de iniciar carreira e ainda com extensa lista de credores à minha procura, mas mesmo assim ainda vivia em mim algum tipo de consciência de classe e resolvi aderir. A primeira assembleia parecia uma coisa de monstro: praça lotada, muita gente gritando nos carros de som, pauta de propostas cheia de itens. Todo mundo decidiu por uma adesão total e irrestrita. Putz! Vamos mudar não só o Brasil, mas também o mundo inteiro! Tarefas distribuídas, e no dia seguinte havia algo de errado. Uma boa parte dos funcionários realmente aderiu à greve, mas não tinha quase ninguém na praça. Mais uma que eu aprendi: a greve-pijama. A lógica é simples: deixa-se meia dúzia de pessoas carregando cartazes e tira-se algo semelhante a férias, para serem compensadas futuramente...

Bom. Panfletei, gritei, assobiei, piquetei, marchei, tomei chuva, tomei sol, tomei tombo. Fiz-me de carteiro, de office-boy, de lancheiro, de carregador, de eletricista, de cartazista, de redator e até de enfermeiro. Num certo 11 de setembro, assisti da calçada a notícia de que um acidente tinha derrubado uma das torres do World Trade Center. Mais tarde ficou-se sabendo que a coisa era absurdamente mais grave, mas era dia de assembleia, e a praça estava lotada de novo, agora com o pessoal do interior e seus sotaques. A coisa toda se arrastou por quase um mês, mas a intransigência da presidência do órgão permanecia, baseada nos impedimentos da Lei de Responsabilidade Fiscal. O comando central do movimento chamou todo mundo para conversar e para “realinhar os objetivos”. Cheiro forte de pelego no ar, mas vamos lá. Líder: “Vamos nos dividir em equipes: uma vai revisar o cálculo do percentual pedido, outra vai fazer propaganda de um fundo de greve, e outra vai analisar a Lei de Responsabilidade Fiscal”. Eu: “Como assim?”. Líder: ”É preciso ver se o presidente não tem razão: se a Lei não vai ser ferida”. Eu: “Foda-se ele. Mesmo que seja verdade, ele que se vire prá suplementar o orçamento!”. Líder: “As coisas não funcionam bem assim”. Eu: “Quer dizer, então, que se ele tiver razão, a greve acabou?”. Líder: “Talvez seja necessário recuar”. Eu: “Beleza”. No dia seguinte, guardei a boina de Guevara, vesti minha camisa mais elegante e fui trabalhar, em uma transgressão reversa. Vai tomar no cu.

Na última terça-feira, a Praça da Sé já estava bem cheia às 17:00. Com honrosas exceções (incluindo a mim e esposa), eram todos bastante jovens, em uma faixa que ia dos 14 aos 21, em sua maioria. Uma grande parte portava faixas, algumas muito bem boladas e humoradas, com frases como “Enfia os 0,20 no SUS”, “The jeripoca is going to peep” e outras. Também tinham os rostos pintados, da mesma forma que ocorreu no movimento que ajudou a derrubar constitucionalmente o Fernando Collor. Ter um pouco de rugas neste ambiente chama a atenção, e os repórteres vieram perguntar o que levava dois “idosos” ao meio daquela molecada. Saímos em procissão lá pelas 18:00, passamos pelo saudoso Largo de São Francisco e chegamos à frente da prefeitura, onde era queimado algo como um boneco e uma bandeira, creio eu. Não dava prá ver muito bem, tinha muita gente perto dos gradis. Saímos bem antes da confusão se formar. De lá, fomos passar na frente do Teatro Municipal e rumar para a praça da República. No caminho, uma porrada de gente de um prédio tomado pelo FLM veio se juntar à passeata, e foram recebidos entusiasticamente. Na precitada praça, o primeiro banho de papel picado. A próxima atração turística era a Câmara Municipal (achei que entraríamos na Consolação), onde os descendentes das serventuárias de lupanares foram sobejamente convidados a ser polo passivo de intercurso em um esfíncter em particular. Momento absolutamente catártico. Segue a procissão até se encontrar, no começo da Brigadeiro, com o pessoal que desceu diretamente da Sé. Rumando para a Paulista, para cima e avante, algo que chamamos singelamente de “porrada de gente”. Fiquei por lá até umas 22 horas, vencido pela hipoglicemia (diabetes tem mais significado se pensarmos pelo seu aspecto anti-convencional – pequenos diabos). A notar em especial a pouca presença policial, devidamente exorcizada pelos confrontos anteriores.
Tirei algumas fotos, mas meu celular é absolutamente incompetente nessa área do conhecimento. Resta um folheto como lembrança de guerra:

Este texto é muito mais biográfico do que filosófico, como vocês podem perceber. Mas achei que o momento exige. Quero parabenizar sinceramente a meninada. Já conhecia, ainda que mal e parcamente, o Movimento Passe Livre. Gostei muito da entrevista que seus representantes deram ao Roda Viva, um dos melhores programas de entrevistas da televisão. Saíram-se extremamente bem, o que passa confiança na seriedade do movimento, que disparou uma ação popular para que as tarifas sejam zeradas, já há algum tempo.

Mas procuro ser filósofo, e, como tal, é necessário lançar o habitual olhar crítico sobre a questão. Se servir para alguma coisa, que as minhas reflexões levem os interessados a refletir também.

Por que o movimento deu tão certo? Uma conjunção de fatores, é certo, mas o principal deles foi a simplicidade da causa. E, por isso mesmo, é preciso ter muito cuidado ao tentar se dar um novo passo adiante. Percebam que um reajuste é algo que atinge a todos, e é facilmente compreensível a causa em questão, o que ajuda demais na adesão. Vi muitos cartazes que clamavam pelo fim da corrupção, protestos contra a realização da copa do mundo, pela falta de incentivo à educação e à construção de hospitais, entre muitos outros. Todas essas causas são justas, mas são tremendamente amplas, que contam com incontáveis fatores, muitos deles históricos. Para se protestar contra o aumento de uma tarifa, não há grandes matemáticas. É uma medida que chega no bolso de todos, direta ou indiretamente, e a demanda se resume em gritar contra ela. Já para se protestar contra a aprovação da PEC 37, por exemplo, é preciso levar ao conhecimento da população o que é uma PEC, qual o papel constitucional do Ministério Público na investigação de crimes, porque as polícias não podem ou não devem assumir esse encargo, qual o efetivo temor da classe política em manter a situação atual, e mesmo tentar delimitar o que a medida teria de bom e de ruim. Se todos estes pontos e muitos outros não ficarem absolutamente claros, cai-se na perigosa armadilha de protestar por protestar, fazendo parte de uma massa de manobra de setores interessados em um ou outro ponto de vista. Além disso, há uma diferença fundamental nos trâmites para se baixar uma tarifa e para aprovar uma lei. A tarifa se baixa por decreto, basta que haja vontade política do gestor. Já uma lei tem toda uma liturgia para ser aprovada: precisa ser elaborada por um parlamentar, passar por várias comissões, ir a plenário e conseguir aprovação da maioria da casa, às vezes em duas votações. Também deve ser aprovada no Senado e depois ir à sanção presidencial (não é o caso de uma PEC, que é aprovada diretamente no Congresso). Se houver vetos, estes precisarão ir à votação do legislativo também. Vejam como é um processo tremendamente mais sinuoso. Defender uma causa como essa precisa de muito mais do que simplesmente ir às ruas com um cartaz na mão e com os rostos pintados. E, além disso, quanto mais difusa é a causa, maior o conjunto de fatores que a influenciam. Protestar contra a corrupção é perfeitamente válido, por exemplo, mas virar esse estado de coisas nasce em uma mudança de comportamento que não inclui apenas a classe política, mas a própria conduta do povo, que deve ser honesto para exigir honestidade, e precisa aprender a votar e a cobrar seus representantes. Com tudo isso, quero dizer que mantenho minha posição de que o brasileiro, em especial o mais jovem, está muito despolitizado. O que tivemos foi um grito, que pode ser o estandarte de uma nova era, mas que não há como acontecer do dia para a noite.

O movimento foi anárquico, no melhor sentido da palavra, e ofereceu um modo novo de lidar com as frustrações populares, desalinhada dos partidos. O problema é que eles existem e são necessários. É o caminho democrático para se chegar ao poder. Novamente aqui temos a tese da simplicidade da causa. No caso da redução das tarifas, qualquer setor da sociedade pode se fazer representar sem a necessidade de empunhar bandeiras. Acontece que, se não houver representatividade no congresso, será muito mais difícil de se estabelecer uma linha de ação, e, nesse sentido, as lideranças deverão ser identificadas e tomar a frente dos movimentos.

Outra coisa é que a ação da polícia foi tremendamente questionada. Não amo nem odeio a polícia. Acho-a necessária, como é em qualquer lugar do mundo. Mas o grande problema é que ela é muito mal conduzida. Temos em São Paulo nada menos que quatro polícias dividindo atribuições: a Federal, a Civil, a Militar e a GCM. Muito padre prá pouco batizado. Se não for possível ou desejável a fusão entre elas, ao menos que se delimite com precisão a área de atuação de cada uma, o que nem sempre é possível fazer. Nossa crise não é de existência da polícia, mas de seu comando equivocado. Muito pouco se protestou nesse país, e o modus operandi dos comandantes policiais ainda busca referências no período militar, quando a mecânica da repressão prezava menos a vida e mais a ordem pública. Ou seja, a própria polícia precisa aprender a lidar com esse tipo de situação.

E o mais delicado: manifestação é confronto, mesmo as mais pacíficas. É impossível fazer com que uma massa de milhares de pessoas se contenha diante de situações adversas, por mais que se tome todo o cuidado necessário. O vandalismo de algumas pessoas precisa ser devidamente ponderado, principalmente se pensarmos em termos simbólicos. O vidro de um prédio recheado de velhinhas tem um significado – o da violência gratuita; o da vitrine de um banco tem outro. É preciso entender o que a massa quer dizer até em seus atos indesejados. Cheguei a ler (inclusive em uma entrevista de Fernando Gabeira) que o movimento pode ser equiparado à Primavera Árabe. Menos, gente, MUUUUUUUUUUITO menos. Os acontecimentos do Oriente Médio pressupõem muito mais a violência, porque se trata da derrubada de governos autoritários e tirânicos. O pessoal de lá está realmente disposto a pegar em armas, porque é muitíssimo mais reprimido. Bem ou mal, nossa democracia existe, mesmo que conduzida aos solavancos, e ainda conseguimos protestar contra a ação do Estado. As balas na Síria não são de borracha, é preciso lembrar-se disso. Quanto aos saques, não vou nem comentar. Para mim, é mero oportunismo de bandidos, que a polícia, aí sim, deveria saber agir e coibir.

Por fim, constato que o movimento foi de vespertino para noturno, o que prejudicou muito a volta para casa dos trabalhadores, mas não atingiu como deveria o empresariado. Os donos da grana estão cagando para o fato de seus empregados ficarem horas no trânsito à noite, com fome, sono e impaciência. Como seria a reação se algumas das manifestações começarem logo cedo? Os empresários apoiariam a causa, já que o custo do transporte dos funcionários é absorvido parcialmente na subvenção do vale-transporte? Ou se colocariam em posição de vítimas, exigindo o fim das manifestações? Podemos deduzir que mais gente que decide seria atingida, e conheceríamos um pouco mais dos corações e mentes que nos circundam. Protesto tem dessas coisas e, no meu entender, devem ser utilizadas.

Termino parabenizando mais uma vez os jovens que iniciaram o movimento, em especial o MPL, que soube se retirar das manifestações no momento exato. Não fui à passeata da última quinta-feira. Deixem a molecada comemorar. Eles merecem.

Recomendações de leitura:

Recomendo duas peças que versam sobre as reivindicações sociais e a respectiva repressão.

Eles não usam black-tie conta as desventuras de uma família operária brasileira, mostrando como as greves e a repressão influenciam os relacionamentos interpessoais na sua intimidade. Muito bom, e, apesar de se passar no Brasil, tem um caráter universal que retrata a luta de classes em qualquer lugar do mundo.

GUARNIERI, Gianfrancesco. Eles não usam black-tie. São Paulo: Civilização Brasileira, 1958.

Já Santa Joana dos Matadouros é uma obra de Brecht, absolutamente genial, que demonstra a gênese da revolta pela exploração dos capitalistas à classe operária. Mostra os cuidados que se deve tomar com a manipulação dos ideais, e como se pode transformar a sua pureza em inocência útil. Recomendadíssimo.

BRECHT, Bertolt. Santa Joana dos Matadouros. São Paulo: Paz e Terra, 2006.

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Apontamentos sobre a (im)possibilidade de mensurar a boa arte

Olá!

Em fins do ano passado, meu amigo Vithor teceu, neste mesmo espaço, uma série de considerações com relação à concepção de boa arte, em um texto denominado (oh!) “A concepção da boa arte”. Em seus argumentos, maciçamente focados nas teses de Pierre Bourdieu, chegou à conclusão de que é impossível estabelecer uma barreira digna entre o que pode ser considerado como arte verdadeira e produto de consumo. Leiam lá e depois voltem aqui.
Vou tentar refutar estas teses, lançando mão de outros pensadores da Estética, em especial os alemães, aqueles que sistematizaram o estudo do conhecimento sensível. Iniciarei com um cara um pouco mais longínquo e com uma visão mais romântica da Filosofia. Trata-se de Friedrich Schlegel.

Esse alemão pensa a arte em termos de transcendência. A seu ver, há uma clara intenção do homem em buscar e atingir o infinito, mas, evidentemente, só possui meios finitos para tanto. Não é possível saltar o arco-íris, viver no reino das águas, regressar no tempo, rever antepassados mortos: tudo é marcado por limites físicos, temporais, espaciais. Daí que há um império da contingência; não conseguimos estabelecer a universalidade das coisas. Também estamos presos na imanência, sendo-nos defeso conhecer como se forma e que leis regem o metafísico espaço transcendental.
Não há nada a fazer, então? Há, sim. Segundo Schlegel, o gênio artístico é o único capaz de produzir uma síntese entre o finito e o infinito. A arte é ferramenta capaz de conectar os mundos do finito-infinito, contingente-necessário, particular-universal, imanente-transcendente, porque, apesar de se prender a ferramentas tangíveis (pincéis, instrumentos musicais, papel, pedras), consegue ir além destes materiais, ressignificando-os em pintura, música, literatura, escultura.


Ok. Mas é qualquer obra de arte que consegue produzir essa síntese? Não, evidentemente. É preciso que se consiga transcender, que se migre o significado, que se consiga intuir que aqueles materiais empregados tenham sido suficientes para produzir uma catarse semelhante àquela preconizada por Aristóteles. Só que essa catarse não é coletiva. A arte é apreendida individualmente. Então, haverá pessoas que conseguirão ser ligadas ao infinito, outras não. Para as primeiras, teremos a boa arte; para as demais, não.
Qual é a linha que define isso? Nenhuma. A cada um, as sensações serão disparadas em momentos distintos (ou mesmo nunca disparadas), conforme sua envergadura intelectual e sua intuição sensível. Dessa forma, chegamos à conclusão que a capacidade de efetuar a ligação com a transcendência (base da estética de Schlegel) não pode ser utilizada para diferenciar boa e má arte.

Pois é. Schlegel não serviu para derrubar a tese do Vitor. Vamos tentar Baumgarten.
Para Baumgarten, a Filosofia ocupou-se muito pouco em investigar os sentidos, ao contrário do que fez com a razão através da lógica e da vontade através da ética. Isso porque os sentidos apreendem o mundo de maneira dúbia e pessoal, ou seja, com imprecisão. No entanto, o conhecimento sensível tem a possibilidade de perceber a perfeição, e isso acontece quando é captada a perfeição do belo. Assim nasce a Estética, e a sua plenitude é a apreciação da obra de arte.

A arte, em seu entender, tem a possibilidade de operar uma transmutação: pode transformar um objeto feio em uma obra bela, e isso se dá pela perfeição do conhecimento sensível. O sentimento que denota essa característica é o prazer, pedra basilar da apreciação estética. É através dele que se opera o milagre da percepção intelectiva da genialidade do artista. Simplificando, a boa obra de arte é aquela que ocasiona prazer a quem dela obtém a contemplação.
Parece que de fato só podemos considerar uma obra de arte como tal se dela extraímos uma sensação de prazer. Mas vamos analisar o quadro Guernica, de Pablo Picasso:

Em um primeiro instante, podemos falar em prazer em sua apreciação? Certamente não. Trata-se de um retrato cru e distorcido de uma cena de guerra: o bombardeio da cidade de Guernica pela aviação nazista alemã, em plena guerra civil espanhola. Não se trata de um objeto feio modificado em cena bela. A feiúra, a destruição, a desgraça, todos permanecem. E, no entanto, sabemos se tratar de uma exuberante obra de arte, plena de significados. Sua beleza reside na ideia que transmite, não na beleza plástica. O fato de expressar o feio pela feiúra não a diminui em nada. Como essa ideia de comunicação não se destina à beleza, a concepção de boa arte de Baumgarten não se aplica ao caso, e a teoria do Vithor permanece.

Vamos tentar com Johann Winckelmann, então. Para este filósofo da Estética Clássica Alemã, a arte extrai sua beleza das proporções observadas na natureza, mas a transcende. Da arte, podemos obter o ideal. Isso é conseguido porque o artista não é só hábil em sua técnica, mas é sábio; consegue realizar aquilo que não é obtido diretamente da contemplação natural, mas aperfeiçoá-la de maneiras impensadas anteriormente. Desta forma, vincula os sentidos à razão. A beleza é mensurável, é passível de comparação, porque é possível estender uma régua entre o quanto duas obras contêm de idealização e perfeição.
Será mesmo? Vamos tentar comparar dois pintores contemporâneos: René Magritte e Henry Matisse.





Na primeira tela, observamos uma composição abstrata baseada em proporções naturais, ainda que inteiramente surreal. A noção de ideal está aqui, há rigor tanto no retrato das pernas femininas quanto na cabeça de peixe – uma sereia invertida. O hábitat é plausível e bem proporcionado, e a coloração é bastante sóbria.
Quanto à tela de Matisse, pintor fauvista, a abstração não está na concepção da figura mítica retratada, mas na cor, extraída pura das bisnagas de tinta a óleo. O retrato é de mulher, mas o jogo de cores amareladas e o traço verde em seu rosto, aliado às diferenças de precisão e distorção no contorno invisível a tornam impossível.

Como é possível estabelecer uma divisão entre ambas que identifique qual é mais bela. Esbarramos na subjetividade e constatamos que, se Winckelmann for levado plenamente em conta, toda a arte moderna deve ser descartada. Aqui também não deu.
Aproximemo-nos de Friedrich Hölderlin agora. Vamos ver o que é possível fazer com suas idéias. Para ele, que analisou profundamente a tragédia grega, a natureza é aórgica, ligada ilimitada e universalmente ao transcendente, enquanto a arte é orgânica, passível de compreensão e racionalização. A natureza aórgica é origem e fim, a arte é meio que atua neste espaço. A arte é princípio de harmonia entre o real palpável e o Absoluto divino. A boa arte aproxima o mundo da infinitude do universo sem, no entanto, tocá-lo. É através da intuição intelectual que essa aproximação se dá. A tragédia consiste exatamente nessa impossibilidade de preencher o espaço que há entre finito e infinito, ou seja, a transcendência absoluta é inalcançável em termos humanos e só se dá através da morte. Esse é o destino inexorável do herói trágico.


Então vamos pensar no concretismo, que, como o próprio nome induz, trata do material. A tela abaixo é de Piet Mondrian:


Quanta simplicidade, não? Se a compararmos com uma obra do Barroco, ela parecerá até mesmo ingênua. Dá a impressão de se tratar de uma maneira menor de se expressar. Nada há que denuncie uma aproximação transcendental, ou uma ocupação do espaço que nos é permitido pela imanência, servindo de ponte ao infinito, do modo que disciplinou Hölderlin (e Schlegel também). No entanto, este holandês fundou uma nova escola, capaz de conduzir à abstração com pouquíssima linguagem. Já volto a falar dele, mas, por enquanto, ponto para o Vithor.
Poderia continuar tratando da questão e trazendo pensadores ad infinitum, ou mesmo me aprofundar mais nos estetas aqui cuidados, mas sempre vamos esbarrar na questão da subjetividade. E, a bem da verdade, o problema do desvio dos sentidos foi tratado à exaustão na Filosofia, desde a Grécia antiga. Se a Estética é exatamente o estudo do conhecimento sensível, tentar colocá-la em termos objetivos é uma grande armadilha. A solução, a meu ver, é conceituar a boa arte como algo subjetivo. E como fazê-lo?

Imagino que a boa arte deve ser pensada em termos de experiência cultural, ou seja, quanto mais a contemplação estética me traz conhecimento, melhor ela será para mim. Assim, a boa arte é boa arte PARA MIM.

A arte, para ser considerada boa para mim, não pode se limitar unicamente ao prazer proporcionado, mas deve ser indissociável do conhecimento, sob pena de se tornar vazia. Só posso compreendê-la adequadamente se eu procurar me aprofundar nos motivos e circunstâncias que levaram o artista a se expressar daquela forma. Retomando Mondrian, pergunto-me porque ele resolveu elaborar telas tão simples. Mondrian era um pintor convencional, que pintava retratos e paisagens de modo semelhante a tantos outros...


... mas com o passar do tempo, percebeu que alguns dos elementos que queria retratar eram mais significativos que os outros, e passou a enfatizá-los em suas composições...


... e acabou percebendo que em poucas linhas e cores era perfeitamente possível dar luz ao ambiente que gostaria de expressar...


... até chegar à conclusão que os elementos verdadeiramente essenciais podiam ser totalmente reinventados, através da sua desconstrução, do endireitamento das curvas, do espessamento dos contornos e da decomposição das cores, chegando aos seus elementos mais primitivos.
Pois aí está. Temos, a partir de agora, uma visão completamente diferente  da arte de Mondrian. Tivemos uma experiência cultural, que nos agregou conhecimentos e ampliou nosso próprio olhar sobre o mundo. A partir de agora, podemos deixar de ver Mondrian como um fazedor de rabiscos que as pessoas adquirem apenas para parecer diferentes e passar a entendê-lo em sua genialidade – ou não, a arte não pode ser tirânica.
Isso quer dizer que devemos considerar os le-leque-leque-leques da vida como autênticas obras de arte? Depende de cada um. Para mim, individualmente, não. Isso porque ela não me agrega nada. Trata-se da repetição de fórmulas condicionantes que os pensadores da Escola de Frankfurt tão bem delinearam. 

Mas se eu já passei dessa fase, não quer dizer que um garoto qualquer não lhe considere útil e prazerosa. A partir dessa “música”, o jovem em questão pode tentar descobrir o que é funk de verdade, sofrer uma sensação de estranhamento, gostar. Pode procurar autores melhores, mais elaborados, ampliando seus horizontes. Pode conhecer novas linhas melódicas, harmonias cada vez mais complexas. Pode tentar supor como seria se estas melodias fossem executadas por instrumentos cada vez mais incomuns, apreciando os novos timbres e sonoridades, em uma escala propedêutica ilimitada. E, não mais do que de repente, se veja em uma sala de concertos, em atenta audição de uma sinfonia de Dvorák. Isso tudo se souber o quanto a mídia é massificante e resistir ao seu ataque. Nesse sentido, a arte não é apenas ferramenta do conhecimento, mas é ferramenta da liberdade.

Resumo final: concordo com as teses bourdieunianas do Vithor, assino-as embaixo e acrescento que é muito despótico de nossa parte querer estabelecer uma linha divisória entre boa e má arte para além de nós mesmos.
Recomendações de leitura:
Para saber mais sobre Schlegel (que não tem obras traduzidas para o português):
BECKENKAMP, Joãozinho. Entre Kant e Hegel. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2004.

Obra-prima de Baumgarten:
BAUMGARTEN, Alexander. Estética: a lógica da arte e do poema. Petrópolis: Vozes, 1993.

Obra-prima de Winckelmann:


WINCKELMANN, Johann J. História da arte antiga. Porto Alegre: Movimento, 1975.

Obra-prima de Hölderlin, que também era poeta:


HÖLDERLIN, Friedrich. A morte de Empédocles. São Paulo: Iluminuras, 2008.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

A alegria e a exclusão na obra de Toulouse-Lautrec

Olá!

Já falei bastante sobre obras de arte neste espaço, mas nunca me referi à pintura, não é mesmo? Pois vou fazê-lo agora.

No sábado retrasado, estava fazendo uma costumeira escavação em um sebo perto de casa, e acabei encontrando alguns livros de arte a preços honestos. Como o dinheiro é pouco mas a vontade é imperiosa, acabei por adquirir um catálogo de pranchas da coleção Taschen, com algumas obras de meu pintor favorito: Henry de Toulouse-Lautrec. Acabei encontrando também uma pequena biografia, e aumentei o rombo do orçamento.

Lautrec talvez não seja o máximo de talento técnico que conheço. Caras como Velásquez, Renoir, Caravaggio, Monet e outros podem até ser mais hábeis no trato com as tintas. Mas há dois grandes encantos na obra de nosso querido anão: a capacidade de transformar anúncios em obras de arte e a visão social sem preconceitos de um submundo que, se ainda hoje é um dos mais excluídos, tanto mais não era em fins do século XIX: a prostituição.

É preciso contar algumas coisas da vida do baixinho. Ele nasceu de família muito rica, mas tinha uma compleição frágil. Dois tombos na puberdade fizeram com que suas pernas parassem de crescer e se deformassem. Como isso o impediu de se lançar em aventuras mais ousadas, passou a se dedicar mais profundamente aos seus dois maiores talentos: a pintura e a vida noturna, com suas consequentes bebedeiras (sua aristocrática família nunca apreciou muito este segundo dom).
Lautrec praticamente armou acampamento (e barracas!) nos cabarés da região boêmia de Paris, um bairro chamado Montmartre. Lá, não apenas fruiu, mas conviveu com as prostitutas, dançarinas, beberrões, frequentadores e outros personagens deste mundo alternativo. O seu olhar agudo e sua sensibilidade mostrou o quanto de humano existia não só no lado colorido dos cabarés, suas danças e luzes, mulheres exuberantes e homens divertidos, mas exibiu também o dia-a-dia comum dos bastidores.

Lautrec só se colocou um limite, que no final das contas é a prova maior de sua consciência social: não retratou aquilo que mais caracteriza a prostituição em si mesma, que é o ato sexual. Suas telas retratam esse mundo e seus respectivos bastidores em sua plenitude, demonstrando a humanidade contida em seus personagens, incluindo alegria e decepção, performance e cansaço, realidade e ilusão, esbanjamento e mazela, tornando sua obra dialética e social.

É difícil enquadrar seu estilo. Certamente recebeu influências do impressionismo, grande admirador que era de Monet, Renoir, Degas e companhia bela. Também trafegou pelo expressionismo e fez uso das técnicas orientais de contorno e cor. Suas telas reproduzem a luz viva dos ambientes fechados, não se importando muito com técnicas de claro-escuro ou com nuances ambientais. Seu interesse é mostrar os rostos da forma que efetivamente são, sem disfarces. Empregou largamente a litografia, de onde extraía seus famosos cartazes, e deu à publicidade um significado novo, misturando a idéia a ser transmitida com arte.
Lautrec, apesar de sua origem aristocrática, cuidou de espelhar uma Paris que, apesar de seus encantos, tinha também suas periferias e excluídos. Vamos analisar brevemente alguns de seus trabalhos, iniciando pela extraordinária tela La Blanchisseuse, de 1887:

Nesta obra, de traço eminentemente impressionista, Lautrec retrata uma engomadeira no transcurso de seu trabalho. Pela sua posição, não conseguimos focar diretamente o rosto da moça em questão, mas é possível perceber sua beleza. No entanto, notamos toda a sua exaustão, derivada de um trabalho extenuante a que eram submetidas as classes mais humildes. Seu olhar se volta para a luminosidade vinda da janela, mas suas mãos desgastadas e sua roupa em flagrante desalinho denunciam que essa luz não lhe traz esperança, mas apenas a consciência de sua pouca liberdade. Os móveis toscos e o aspecto de caverna que possui o cômodo onde exerce seu ofício emolduram esse aspecto pobre e seus parcos recursos. Os cabelos da engomadeira velam seu rosto. Há uma intenção em demonstrar um muro entre a menina retratada e a pessoa que a observa. Esse muro é social e psicológico; não há possibilidade de desvelar seus pensamentos nem de decifrar o quanto sua pobreza afeta seu caráter, mas percebe-se com evidência o exaurimento de sua vontade.

Partamos agora para o cabaré. Vamos analisar a cena retratada em Au Bal du Moulin de la Galette, de 1889:

Aqui vemos um Lautrec amadurecido em sua técnica de dupla perspectiva. A direção em que foi observado o balcão e as linhas do assoalho constituem na tela dois pontos de fuga, que delineiam a multidão dançante no fundo do cenário, gerando um enquadramento compacto. No primeiro plano, logo atrás do balcão, podemos focar o rosto das personagens que optaram por beber ou repousar. Em cada um deles, uma história diferente para contar. Alguns dirigem sua atenção para o baile, enquanto uma mulher lança seu olhar para fora da cena principal, ou mesmo do quadro. Estão claramente na posição de observadores, e formam a primeira fila de quem aprecia a obra em questão, propondo uma interação com quem está do lado de fora – no caso, nós.

Vamos agora para o lado de trás da cena. Vamos observar a tela Rue des Moulins, L’inspection médicale, de 1894:

Aqui podemos analisar uma cena comum que insere firmemente as prostitutas em um submundo.  As visitas de inspeção sanitária eram tremendamente comuns e invasivas, e o principal objetivo desta rotina era mais verificar a saúde genital das prostitutas do que propriamente as instalações físicas dos estabelecimentos. Desta forma, flagrantemente vemos as mulheres colocadas na condição de objetos. Lautrec toma partido desta condição ao retratar a situação humilhante a que eram submetidas essas pessoas, ao verem suas intimidades devassadas. Perceba-se como a tela é estruturada a denunciar uma cena que se assemelha à uma operação de fiscalização de rebanho, com as meretrizes alinhadas em filas, de saias já devidamente erguidas. Apesar disso, seus rostos transparecem um certa altivez, como que já endurecidas pelo hábito. Esta é a prova do lado cínico da sociedade (que eu já havia observado neste post). A inspeção não levava em conta as necessidades das meretrizes, mas apenas garantir a boa saúde de seus frequentadores, em geral membros da classe média.

Por fim, vamos observar as técnicas publicitárias de nosso pequeno gênio. Vamos ver o que o cartaz Moulin Rouge – La Goulue, de 1891, tem a nos dizer:

Em um primeiro olhar, é uma composição aparentemente simples, onde vemos três elementos básicos: a jovem vedete Louise Weber, conhecida como La Goulue (jovem mesmo – tinha 16 anos à época!), está no centro do cartaz, em pleno desenvolvimento de sua performance. Em papel coadjuvante, temos em primeiro plano a figura quase fantasmagórica de Valentin, le Désossé, um dos melhores bailarinos de Montmartre. Ao fundo, a turba de anônimos representados pelas suas silhuetas, assistindo atentamente o desenrolar da apresentação. Lautrec usa e abusa das técnicas de contorno oriental e da luz chapada. O cartaz foi desenvolvido em suporte litográfico, de modo a permitir várias reimpressões (vejam os pulos que o artista precisava dar para levar a cabo seu trabalho naqueles tempos). Essa simplicidade de composição ocultava uma nova teoria publicitária, que é utilizada largamente nos dias de hoje: uma imagem fala mais do que mil palavras.

Toulouse-Lautrec tem uma rara capacidade de constituir imagens mentais e de conseguir reproduzi-las em seus trabalhos. Um pequeno flash é suficiente para que o artista consiga transpor-nos para o centro da cena. Somos partícipes do desenrolar da performance, também nós estamos no palco, e com isso conseguimos deduzir precisamente o clima daquele ambiente. Ao contrário da práxis publicitária de então, constatamos que as palavras são poucas, limitando-se ao nome do cabaré e da atração. Elas são desnecessárias, não podem informar mais do que já está exposto.
O que mais me causa admiração em nosso pequeno francês é seu talento para retratar a alegria sem esquecer das misérias, ou, invertendo a lógica, ser testemunha das mazelas sociais que compõem um mundo exuberante. Nesse sentido, Lautrec consegue constituir uma sociologia dos bordéis, onde um universo de aparências é exibido em todos os seus estratos , a forma como é construído com tijolos moldados na dor de cada um.

O baixinho, ao mesmo tempo, denuncia e celebra a vida. A sensibilidade dos artistas geralmente constitui armadilha contra si mesmos, por conta do inconformismo e ausência de sentimento de pertença e lugar no mundo. Van Gogh se matou, e Gauguin só não fez o mesmo porque a quantidade de veneno que ingeriu foi tanta que o fez vomitar. Lautrec preferiu viver intensamente a vida, o que ajudou em seu fim precoce aos 34 anos, mas, mesmo tendo problemas físicos reais, que o fizeram andar apoiado a uma bengala desde sua juventude e o impôs grandes limitações de acesso, resolveu que a existência vale a pena, o que foi francamente demonstrado em sua obra.
Recomendações:
O MASP possui algumas obras de Toulouse-Lautrec. É um programa que vale muito a pena, pela riqueza estética que se pode presenciar em um dos cartões postais de nossa cidade. O endereço é o seguinte:
MASP – Museu de Arte de São Paulo. Avenida Paulista, 1578 – Bela Vista –São Paulo/SP

A coleção Taschen é um primor de capricho. Além das belas pranchas reproduzidas em alta qualidade, os textos que as acompanham são muito esclarecedores.
NERET, Gilles. Toulouse-Lautrec. Rio de Janeiro: Taschen, 1990.

Também existe uma pequena biografia contendo algumas pranchas em menor formato:
HENRI DE TOULOUSE-LAUTREC. Coleção Mestres da Pintura. São Paulo: Abril, 1977.