(É certo que estamos exercitando a democracia, mas ainda nos entregamos a atitudes tirânicas)
“A borboleta que, esperando encontrar algum prazer, se atira ao fogo, vendo-o luzir, acaba por ser vítima de uma outra qualidade que o fogo tem: a de tudo queimar”.
Etienne de la Boétie
Olá!
Como é de se esperar, para alguém que viveu anos a fio em
uma cidade imensa como São Paulo, morar em Taubaté, ainda que se reconheça como
uma cidade razoavelmente grande, não dá nível de comparação possível. Claro que
isso é bom, porque é exatamente esse menor movimento que é um dos atrativos
daqui. O efeito colateral é que você domina todo o cenário em pouco tempo, e eu
já tenho toda a lógica viária traçada na minha cabeça, porque isso em SP é
praticamente autodefesa, onde ter orientação especial pode te livrar a cara de
encrencas grandes. Por isso, é preciso pensar Taubaté como o miolo de um grande
cercado de cidades, que permite fácil chegada a qualquer momento. Isso inclui São
José dos Campos, Santo
Antônio do Pinhal, Tremembé,
Campos
do Jordão, Redenção
da Serra e várias outras, que podem ser alcançadas em, no máximo, uma hora
de deslocamento. Naturalmente, isso inclui Pindamonhangaba, que é quase um
continuum de Taubaté.
Embora Pinda seja uma cidade do mesmo contexto histórico das
outras do Vale do Paraíba, primariamente não foi por isso que vim para cá pela
primeira vez na minha aventura no Vale, mas por motivo médico. Já não sou uma
criança, e preciso saber para onde correr na hora do aperto. Como estou
formando uma carteira médica novinha em folha, peguei uma indicação que fica
nesse lugar, e lá fui para conhecer. Com tempo suficiente, fui tomar um café em
um estabelecimento bem agradável e dar uma voltinha pelo Centro, onde achei o
Museu Histórico e Pedagógico.
É um belíssimo casarão de estilo neoclássico, que pertenceu
a Antônio Salgado da Silva, o Visconde de Palmeira, aristocrata do século XIX
que construiu sua fortuna no ciclo do café, aquele período da história
brasileira em que se pautou toda a vida econômica do Florão da América no
cultivo e exportação da rubiácea. Todo o Vale do Paraíba era ocupado por
fazendas de café, o que enriqueceu muita gente dessa classe.
Lá dentro, um grande acervo de objetos se espalha pelos
vários cômodos e nos diferentes pavimentos erguidos em taipa de pilão como
marcas dessa época e denotando usos e costumes.
O imóvel teve vários usos, incluindo como casa mesmo, para o
tal Visconde e sua família, que guarnecia sua casa com diversas obras de arte,
como estatuária dirigida para a mitologia grega e romana.
Outra função é a memória local, representada por fotografias
de pessoas e eventos que eram marcos sociais da cidade, já que a quantidade de
cômodos permite uma grande distribuição de objetos.
O prédio também foi utilizado como hospital durante a
Revolução Constitucionalista, que teve muitos episódios ocorridos na região do
Vale do Paraíba.
Como já mencionei neste
texto, a Revolução é uma grande marca do estado de São Paulo como um todo,
e possui a estranha imagem de ser uma derrota rememorada com orgulho.
Outro uso foi como escola normal e colégio estadual, onde se focava no ensino profissionalizante. Muitos utensílios de escritório se encontram lá expostos, inclusive alguns que eu cheguei a utilizar, o que prova que o tempo passa para mim também.
Há uns cômodos reservados para os povos que viviam na
região, que incluíam imigrantes, negros escravos e índios, dos quais são
exibidos vários utensílios.
Nos pavimentos inferiores, há ainda vários elementos
interessantes. Um dos principais é uma magnífica charrete de quatro rodas, que
parece prontinha para ser utilizada. Curiosidade é o amortecimento em feixe de
molas, moderno para a época.
Outro cômodo abriga o maquinário da antiga gráfica da
Tribuna do Norte, jornal quase sesquicentenário que ainda resiste nos dias de
hoje na própria cidade de Pindamonhangaba.
E tem também um porão que foi montado à guisa de senzala. É
um dos momentos mais pungentes da visita, porque dá uma ideia de sufoco e de
repressão muito intensos, representados pelos sacrifícios dos escravos.
Não se limitando ao trabalho duro e ao cerceamento da
liberdade, ainda havia amplo uso de tortura…
… e a morte humilhante, para controlar através do medo.
É realmente difícil compreender a escravidão, seja por qual lado ela for vista. Por mais que ela fosse costumeira e até mesmo chancelada por textos sagrados, não faz muito sentido que se ache natural a submissão de um ser humano por outro, como se fossem espécies distintas. Talvez seja o máximo de violência que se pode perpetrar contra alguém, pois envolve tudo: corpo, cultura, manifestação e, se descuidar, pensamento. A pessoa deixa de o ser, ainda que se mantenha viva.
O grande questionamento é se o simples fato de não se ter um
senhor de papel passado nos tira da escravidão, ou, pior ainda, se nós não
acabamos por nos entregar a ela. Eu olho para minha própria existência e
concluo que não há grandes liberdades. É aquilo de todo mundo: ou trabalha, ou
não vive. E isso significa seguir horários impostos, tarefas monótonas,
imposições forçadas e até uma boa dose de assédio. É estrutural do sistema e
não há muito por onde escapar. Claro que chegamos aqui à questão da opção, e,
para isso, sou chamado por meu interlocutor imaginário favorito: ora (direis),
é possível escolher um caminho diferente. Ninguém te obriga a ser um
funcionário que marca cartão. Por que não trabalhas por conta?
É uma visão simplista da realidade, porque somos inseridos
em uma estrutura muito maior, que não nos prescinde de obrigações seja lá qual
for a senda seguida. Tenho vantagens em ter carteira assinada, assim como é
falsa a assertiva de que cuidar do próprio nariz me dá liberdades tão maiores,
sendo às vezes o exato contrário. Mais ainda: pesados alfas e ômegas, todos
somos bem amarrados pelos próprios sistemas sociais e econômicos.
A coisa diz mais respeito à nossa passividade diante das
situações que nos são postas. Em tempos de democracia, ainda que imperfeita,
nossa cabeça baixa perde ainda mais sentido do que quando a tirania era
companheira de governos aristocráticos e monárquicos. É neste momento em que
podemos localizar uma das obras da filosofia mais efêmeras e insólitas, a tese
da servidão voluntária de Étienne de La Boétie.
Caracterizado pela sua juventude e pela amizade profunda com
o filósofo Michel
de Montaigne, La Boétie vive em um tempo onde ainda temos a figura do
tirano enraizada nas culturas. Regimes democráticos eram distantes e até mesmo
indesejáveis, e só muito tempo depois viriam a ser constituídos e puderam
moldar instituições. Entretanto, isso não significa que a tirania deixou de
existir; não mais apenas nos governos, que ainda se servem do poder que é
colocado em suas mãos, mas em outros aspectos das nossas vidas, tanto
individualmente, quanto socialmente. Por isso sua mensagem continua atual.
A pergunta central de nosso jovem Étienne é muito simples.
Olhando de modo direto, um tirano é um homem só. Não resistiria nem a dois
homens, quanto mais a uma nação inteira. Mas o fato é que toleramos
indefinidamente seus caprichos e seus desmandos, como se fôssemos amarrados por
grilhões invisíveis.
Essas amarras somente podem ser psicológicas. A tentativa de
resposta de La Boétie se dá em dois caminhos que se entrecruzam: uma vontade de
obedecer inata e as camadas de burocracia que existem entre o tirano e o
governado. Neste último caso, há uma série de paredes hierárquicas que nos
tornam tão distantes do tirano (concreto ou simbólico) que não acreditamos ser
possível sobrepujar a todas. E eis que a tirania vem em escala. Em uma forma de
pirâmide, a rede de tirania nasce de um e vai descendo em níveis que agrupam
cada vez mais indivíduos, até formar um aparato tão sólido que parece
impossível de ultrapassar. O déspota tiraniza seus ministros, que tiranizam
seus adjutores, que tiranizam seus feitores, até chegar à plebe, que só tem a
mulher e os filhos para tiranizar e, desta forma, perpetuar dentro de casa a
lógica existente fora dela. Só que esses patamares da pirâmide são
exponenciais: crescem a cada um deles em quantidade de ocupantes. Assim, um
herói que se propusesse a “pegar no braço” um por um, se vê amarrado diante da
multiplicidade de subtiranos. Isso pode ser transposto a uma empresa: o
presidente tiraniza os diretores, que tiranizam os coordenadores, que tiranizam
os supervisores, que tiranizam os chefes, que tiranizam os peões, que tiranizam
o cara do cafezinho, que, em resposta, se vinga cuspindo na água do café e mete
a mão na esposa e nos filhos quando chega em casa. Ou seja, a tirania está na
alma do homem e é transmitida em um efeito dominó, onde somente aquela pontinha
mais fraca de todas não tem como reagir, mas mesmo assim tenta, nem que seja
arrancando a cabeça de uma boneca. Ela não se desprende por causa da rede de
favores, acima e abaixo, que se encadeia entre as camadas. Um favorecimento
aqui garante uma fidelidade ali, e a interdependência que isso gera garante a
manutenção do estado de coisas. Ainda que a base sinta efeitos pesados, ainda
assim ela forma uma espécie de gratidão ao degrau imediatamente acima, por
conceder uma benesse mínima. Podia ser pior: talvez nem isso poderíamos ter.
Então está consolidada a rede de proteção à tirania – conformamo-nos com as
migalhas.
Mas, por outro lado, parece existir uma espécie de fetiche
em ser obediente à tirania. Mesmo quando pensamos em regimes democráticos, e
como temos visto em nossas últimas eleições, fechamos um culto a personalidades
que não coadunam com a multiplicidade que os cenários verdadeiramente
democráticos proporcionam. Escolhemos uma personalidade de estimação e fechamos
com ela cegamente, de maneira irracional. A tirania paira sobre nossas cabeças,
sem nos abandonar um único instante e ameaçando reaparecer a todo instante.
Essa nossa vontade de obedecer é a verdadeira causa de nossa servidão
voluntária, principalmente quando elegemos representantes que escancaradamente
nos prejudicam, tiram-nos direitos, transferem nossos bens para poucos
beneficiados. E ela existe porque nos acovardamos e damos fidedignidade a
qualquer um que pareça mais forte do que nós mesmos, mesmo que na base da
bravata. É bom pensar no que perdemos quando surge um candidato a déspota em
nosso caminho. Bons ventos a todos!
Recomendação de leitura:
Livro curtinho, curtinho, para ser lido em uma sentada de
meia hora.
LA BOÉTIE, Etienne de. Discurso sobre a Servidão
Voluntária. São Paulo: Edipro, 2017.













