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quarta-feira, 11 de março de 2026

Navegações de cabotagem – o Museu Histórico e Pedagógico de Pindamonhangaba e a nossa servidão voluntária do quotidiano

(É certo que estamos exercitando a democracia, mas ainda nos entregamos a atitudes tirânicas)

“A borboleta que, esperando encontrar algum prazer, se atira ao fogo, vendo-o luzir, acaba por ser vítima de uma outra qualidade que o fogo tem: a de tudo queimar”.

Etienne de la Boétie

Olá!

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Como é de se esperar, para alguém que viveu anos a fio em uma cidade imensa como São Paulo, morar em Taubaté, ainda que se reconheça como uma cidade razoavelmente grande, não dá nível de comparação possível. Claro que isso é bom, porque é exatamente esse menor movimento que é um dos atrativos daqui. O efeito colateral é que você domina todo o cenário em pouco tempo, e eu já tenho toda a lógica viária traçada na minha cabeça, porque isso em SP é praticamente autodefesa, onde ter orientação especial pode te livrar a cara de encrencas grandes. Por isso, é preciso pensar Taubaté como o miolo de um grande cercado de cidades, que permite fácil chegada a qualquer momento. Isso inclui São José dos Campos, Santo Antônio do Pinhal, Tremembé, Campos do Jordão, Redenção da Serra e várias outras, que podem ser alcançadas em, no máximo, uma hora de deslocamento. Naturalmente, isso inclui Pindamonhangaba, que é quase um continuum de Taubaté.

Embora Pinda seja uma cidade do mesmo contexto histórico das outras do Vale do Paraíba, primariamente não foi por isso que vim para cá pela primeira vez na minha aventura no Vale, mas por motivo médico. Já não sou uma criança, e preciso saber para onde correr na hora do aperto. Como estou formando uma carteira médica novinha em folha, peguei uma indicação que fica nesse lugar, e lá fui para conhecer. Com tempo suficiente, fui tomar um café em um estabelecimento bem agradável e dar uma voltinha pelo Centro, onde achei o Museu Histórico e Pedagógico.

É um belíssimo casarão de estilo neoclássico, que pertenceu a Antônio Salgado da Silva, o Visconde de Palmeira, aristocrata do século XIX que construiu sua fortuna no ciclo do café, aquele período da história brasileira em que se pautou toda a vida econômica do Florão da América no cultivo e exportação da rubiácea. Todo o Vale do Paraíba era ocupado por fazendas de café, o que enriqueceu muita gente dessa classe.

Lá dentro, um grande acervo de objetos se espalha pelos vários cômodos e nos diferentes pavimentos erguidos em taipa de pilão como marcas dessa época e denotando usos e costumes.

O imóvel teve vários usos, incluindo como casa mesmo, para o tal Visconde e sua família, que guarnecia sua casa com diversas obras de arte, como estatuária dirigida para a mitologia grega e romana.

Outra função é a memória local, representada por fotografias de pessoas e eventos que eram marcos sociais da cidade, já que a quantidade de cômodos permite uma grande distribuição de objetos.

O prédio também foi utilizado como hospital durante a Revolução Constitucionalista, que teve muitos episódios ocorridos na região do Vale do Paraíba.

Como já mencionei neste texto, a Revolução é uma grande marca do estado de São Paulo como um todo, e possui a estranha imagem de ser uma derrota rememorada com orgulho.

Outro uso foi como escola normal e colégio estadual, onde se focava no ensino profissionalizante. Muitos utensílios de escritório se encontram lá expostos, inclusive alguns que eu cheguei a utilizar, o que prova que o tempo passa para mim também.

Há uns cômodos reservados para os povos que viviam na região, que incluíam imigrantes, negros escravos e índios, dos quais são exibidos vários utensílios.

Nos pavimentos inferiores, há ainda vários elementos interessantes. Um dos principais é uma magnífica charrete de quatro rodas, que parece prontinha para ser utilizada. Curiosidade é o amortecimento em feixe de molas, moderno para a época.

Outro cômodo abriga o maquinário da antiga gráfica da Tribuna do Norte, jornal quase sesquicentenário que ainda resiste nos dias de hoje na própria cidade de Pindamonhangaba.

E tem também um porão que foi montado à guisa de senzala. É um dos momentos mais pungentes da visita, porque dá uma ideia de sufoco e de repressão muito intensos, representados pelos sacrifícios dos escravos.

Não se limitando ao trabalho duro e ao cerceamento da liberdade, ainda havia amplo uso de tortura…

… e a morte humilhante, para controlar através do medo.


É realmente difícil compreender a escravidão, seja por qual lado ela for vista. Por mais que ela fosse costumeira e até mesmo chancelada por textos sagrados, não faz muito sentido que se ache natural a submissão de um ser humano por outro, como se fossem espécies distintas. Talvez seja o máximo de violência que se pode perpetrar contra alguém, pois envolve tudo: corpo, cultura, manifestação e, se descuidar, pensamento. A pessoa deixa de o ser, ainda que se mantenha viva.

O grande questionamento é se o simples fato de não se ter um senhor de papel passado nos tira da escravidão, ou, pior ainda, se nós não acabamos por nos entregar a ela. Eu olho para minha própria existência e concluo que não há grandes liberdades. É aquilo de todo mundo: ou trabalha, ou não vive. E isso significa seguir horários impostos, tarefas monótonas, imposições forçadas e até uma boa dose de assédio. É estrutural do sistema e não há muito por onde escapar. Claro que chegamos aqui à questão da opção, e, para isso, sou chamado por meu interlocutor imaginário favorito: ora (direis), é possível escolher um caminho diferente. Ninguém te obriga a ser um funcionário que marca cartão. Por que não trabalhas por conta?

É uma visão simplista da realidade, porque somos inseridos em uma estrutura muito maior, que não nos prescinde de obrigações seja lá qual for a senda seguida. Tenho vantagens em ter carteira assinada, assim como é falsa a assertiva de que cuidar do próprio nariz me dá liberdades tão maiores, sendo às vezes o exato contrário. Mais ainda: pesados alfas e ômegas, todos somos bem amarrados pelos próprios sistemas sociais e econômicos.

A coisa diz mais respeito à nossa passividade diante das situações que nos são postas. Em tempos de democracia, ainda que imperfeita, nossa cabeça baixa perde ainda mais sentido do que quando a tirania era companheira de governos aristocráticos e monárquicos. É neste momento em que podemos localizar uma das obras da filosofia mais efêmeras e insólitas, a tese da servidão voluntária de Étienne de La Boétie.

Caracterizado pela sua juventude e pela amizade profunda com o filósofo Michel de Montaigne, La Boétie vive em um tempo onde ainda temos a figura do tirano enraizada nas culturas. Regimes democráticos eram distantes e até mesmo indesejáveis, e só muito tempo depois viriam a ser constituídos e puderam moldar instituições. Entretanto, isso não significa que a tirania deixou de existir; não mais apenas nos governos, que ainda se servem do poder que é colocado em suas mãos, mas em outros aspectos das nossas vidas, tanto individualmente, quanto socialmente. Por isso sua mensagem continua atual.

A pergunta central de nosso jovem Étienne é muito simples. Olhando de modo direto, um tirano é um homem só. Não resistiria nem a dois homens, quanto mais a uma nação inteira. Mas o fato é que toleramos indefinidamente seus caprichos e seus desmandos, como se fôssemos amarrados por grilhões invisíveis.

Essas amarras somente podem ser psicológicas. A tentativa de resposta de La Boétie se dá em dois caminhos que se entrecruzam: uma vontade de obedecer inata e as camadas de burocracia que existem entre o tirano e o governado. Neste último caso, há uma série de paredes hierárquicas que nos tornam tão distantes do tirano (concreto ou simbólico) que não acreditamos ser possível sobrepujar a todas. E eis que a tirania vem em escala. Em uma forma de pirâmide, a rede de tirania nasce de um e vai descendo em níveis que agrupam cada vez mais indivíduos, até formar um aparato tão sólido que parece impossível de ultrapassar. O déspota tiraniza seus ministros, que tiranizam seus adjutores, que tiranizam seus feitores, até chegar à plebe, que só tem a mulher e os filhos para tiranizar e, desta forma, perpetuar dentro de casa a lógica existente fora dela. Só que esses patamares da pirâmide são exponenciais: crescem a cada um deles em quantidade de ocupantes. Assim, um herói que se propusesse a “pegar no braço” um por um, se vê amarrado diante da multiplicidade de subtiranos. Isso pode ser transposto a uma empresa: o presidente tiraniza os diretores, que tiranizam os coordenadores, que tiranizam os supervisores, que tiranizam os chefes, que tiranizam os peões, que tiranizam o cara do cafezinho, que, em resposta, se vinga cuspindo na água do café e mete a mão na esposa e nos filhos quando chega em casa. Ou seja, a tirania está na alma do homem e é transmitida em um efeito dominó, onde somente aquela pontinha mais fraca de todas não tem como reagir, mas mesmo assim tenta, nem que seja arrancando a cabeça de uma boneca. Ela não se desprende por causa da rede de favores, acima e abaixo, que se encadeia entre as camadas. Um favorecimento aqui garante uma fidelidade ali, e a interdependência que isso gera garante a manutenção do estado de coisas. Ainda que a base sinta efeitos pesados, ainda assim ela forma uma espécie de gratidão ao degrau imediatamente acima, por conceder uma benesse mínima. Podia ser pior: talvez nem isso poderíamos ter. Então está consolidada a rede de proteção à tirania – conformamo-nos com as migalhas. 

Mas, por outro lado, parece existir uma espécie de fetiche em ser obediente à tirania. Mesmo quando pensamos em regimes democráticos, e como temos visto em nossas últimas eleições, fechamos um culto a personalidades que não coadunam com a multiplicidade que os cenários verdadeiramente democráticos proporcionam. Escolhemos uma personalidade de estimação e fechamos com ela cegamente, de maneira irracional. A tirania paira sobre nossas cabeças, sem nos abandonar um único instante e ameaçando reaparecer a todo instante. Essa nossa vontade de obedecer é a verdadeira causa de nossa servidão voluntária, principalmente quando elegemos representantes que escancaradamente nos prejudicam, tiram-nos direitos, transferem nossos bens para poucos beneficiados. E ela existe porque nos acovardamos e damos fidedignidade a qualquer um que pareça mais forte do que nós mesmos, mesmo que na base da bravata. É bom pensar no que perdemos quando surge um candidato a déspota em nosso caminho. Bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

Livro curtinho, curtinho, para ser lido em uma sentada de meia hora.

LA BOÉTIE, Etienne de. Discurso sobre a Servidão Voluntária. São Paulo: Edipro, 2017.